Designer, pesquisador e educador baiano reflete sobre racismo algorítmico, comunicação negra, formação de jovens periféricos e a necessidade de construir protagonismo em um mundo cada vez mais mediado pela tecnologia

Quando fala sobre inteligência artificial, André Luzolo não começa pelos algoritmos, pelas máquinas ou pelas novas tecnologias. O ponto de partida é outro: a experiência histórica da população negra. Para o designer, pesquisador e educador baiano, qualquer debate sobre inovação precisa considerar as desigualdades estruturais que atravessam a sociedade e que, inevitavelmente, acabam reproduzidas nos ambientes digitais.
Foi a partir dessa perspectiva que Luzolo participou da programação do AfroBusiness Comunicação, realizado em Salvador. Durante entrevista ao Portal Umbu, ele refletiu sobre a importância de ampliar os espaços de debate sobre comunicação negra, empreendedorismo, tecnologia e racismo algorítmico, defendendo que a formação crítica de jovens negros é fundamental para enfrentar os desafios do presente e do futuro.
“O corpo negro no mundo tem que estar sempre preparado para o mundo. O mundo caminha numa direção oposta à nossa, para não nos favorecer. A branquitude está aí para nos afirmar isso”, afirmou.
Comunicação negra e pertencimento
Para André Luzolo, a realização de eventos como o AfroBusiness Comunicação em Salvador possui um significado especial. A avaliação parte de sua própria trajetória acadêmica na Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Formado em Desenho Industrial e mestre em Artes Visuais pela instituição, ele recorda que passou toda a graduação e o mestrado convivendo com uma realidade que evidencia os desafios da representatividade racial na educação superior.

“Pensar que eu venho da Universidade Federal da Bahia, me formando em 2009 no mestrado, e que nessa soma da graduação para a pós-graduação eu tive apenas um professor negro. Estamos numa universidade federal na Bahia, discutindo Artes Visuais e Comunicação, e não ter profissionais negros dentro do corpo docente mostra que existe algum problema. Precisamos discutir e entender o que está errado.”
Segundo ele, a questão não se resume ao debate sobre lugar de fala, mas sobre pertencimento e experiência: “As pessoas precisam estar naquele espaço de formação com suas experiências, suas vivências e sua própria historicidade para trazer outros olhares sobre o que é a comunicação e as artes visuais na Bahia.”
Nesse contexto, ele considera que o AfroBusiness representa um avanço ao reunir discussões sobre design negro, comunicação, empreendedorismo e estratégias econômicas voltadas à população negra. “Foi o primeiro evento que vi com esse corpo e esse volume discutindo comunicação, design negro de forma crítica, empreendedorismo e discutindo onde o Black Money está atuando e promovendo estratégias junto à comunidade negra”, disse.
Para ele, o evento também cumpre um papel importante ao aproximar profissionais não negros que atuam no mercado da comunicação das demandas e críticas formuladas pela população negra.

“Nós, profissionais pretos e pretas, estamos buscando esse lugar de protagonismo. Ter um evento como o AfroBusiness nos direciona para uma crença de que as coisas podem vir a acontecer.”
Entre o desenho e a tecnologia
A relação de André Luzolo com a tecnologia começou muito antes da universidade. Filho de Osvaldo de Lima, trabalhador do Polo Petroquímico de Camaçari, cresceu observando o pai produzir desenhos técnicos. “Meu pai sempre gostou de desenhar. Eu ficava ao lado dele pegando papel e desenhando também.”
A afinidade com a computação surgiu ainda na escola pública. Estudante da primeira turma do curso técnico de Processamento de Dados do extinto Colégio Estadual Odorico Tavares, encontrou no Design a possibilidade de unir duas paixões. “Por gostar tanto de desenhar e trabalhar com computação, encontrei essa soma no Design. De alguma forma, é desenhar e trabalhar com tecnologia ao mesmo tempo.”
Ao ingressar na UFBA em 2000, ampliou sua atuação para além da formação acadêmica: “Lá eu fui militante, virei liderança estudantil, mestre, docente. Minha paixão pela tecnologia vem da própria universidade e de como tive que lidar profissionalmente com isso”, contou.
Apesar de ser frequentemente apontado como referência para jovens designers negros, ele faz questão de destacar aqueles que abriram caminhos antes dele. “Os pioneiros são Emanoel Araújo, Jaime Sodré, Juarez Paraíso, Isoleda e Goya Lopes. Essas são as minhas grandes referências dentro da Universidade Federal da Bahia e que deram um marco significativo para a cultura visual do nosso estado.”
A construção da identidade também atravessa a trajetória do pesquisador. O sobrenome pelo qual é conhecido hoje surgiu a partir de sua vivência religiosa. Luzolo conta que o nome nasceu durante uma conversa em um terreiro de matriz africana, após o nascimento de seu filho, Ayo.

“Um Tata da nossa casa me questionou: ‘Você é da cultura banto e está usando um nome yorubá. Por que não coloca um nome banto?’ Eu respondi que ele poderia sugerir.”
A resposta veio de um casal de angolanos que visitava o terreiro: “Eles disseram: ‘O nome dele será Luzolo, que significa amor’. Depois disso, adotei o nome espiritual Ayo Luzolo.”
Inteligência artificial e racismo algorítmico
Embora a popularização da inteligência artificial generativa tenha acelerado nos últimos anos, Luzolo lembra que a sociedade já convive há décadas com sistemas automatizados.
“Vivemos com a inteligência artificial muito mais do que imaginamos. Ela está nas automações dos bancos, nas redes sociais, nos aplicativos de busca. Já convivíamos com ela, mas não com essa interação intensa dos últimos anos.”
Para ele, uma das questões centrais é compreender que os algoritmos não produzem preconceitos de forma espontânea. “O racismo algorítmico não vem da máquina. Ele vem da própria construção da sociedade e de como a branquitude nos enxerga. Isso acaba sendo reproduzido nas tecnologias.”
Segundo o pesquisador, o enfrentamento desse fenômeno exige preparo constante: “Precisamos pensar o tempo todo em como nos defender, inclusive em espaços que sequer percebemos que estão reproduzindo desigualdades.”
Levando inteligência artificial para as periferias
Foi essa preocupação que motivou a criação do projeto Vungi – Arte Digital para Jovens em Situação de Vulnerabilidade Social, aprovado pela Funarte em 2023.
Executado em 2024 no Terreiro Nzo Onimboyá, no Engenho Velho da Federação, o projeto reuniu adolescentes entre 13 e 15 anos em atividades de cultura africana, letramento racial, desenho, pintura e inteligência artificial generativa. “Foi minha primeira experiência trabalhando inteligência artificial generativa com jovens. Um trabalho riquíssimo”, revelou.

O diferencial, segundo ele, foi preparar os participantes antes de apresentá-los às ferramentas digitais. “Eles passaram por oficinas de história e cultura africana, letramento racial, desenho e pintura. Quando chegaram à inteligência artificial, já estavam ‘feras’, produzindo projetos e artes incríveis.”
A experiência demonstrou que as periferias estão prontas para dialogar com temas considerados complexos. “Ali eu vi que havia um diálogo muito forte na juventude, que enxergava um novo jeito de se colocar e se expressar enquanto agente criativo.”
Em 2025, Luzolo enfrentou um desafio ainda maior ao ser convidado para realizar uma oficina de inteligência artificial no Quilombo de Aroeira, em Tocantins.
Ao chegar à comunidade, encontrou uma realidade marcada pela falta de infraestrutura tecnológica: “Não tinha internet, não tinha computador e poucos celulares.” Mesmo diante das limitações, decidiu adaptar a metodologia. “Eu simulei a inteligência artificial no papel. Escrevíamos os prompts, discutíamos os conceitos e depois utilizávamos o meu celular para realizar as atividades.” Durante um dia inteiro de trabalho, cerca de 25 pessoas participaram da experiência.
Foi também no Tocantins que André viveu uma experiência que considera marcante. Mesmo sendo praticante do Candomblé, encontrou uma comunidade quilombola fortemente ligada às religiões neopentecostais. Ainda assim, percebeu a permanência de elementos ancestrais negros no cotidiano local. “Eles me levavam para conhecer as trilhas, a retirada das folhas, as garrafadas, as rezas. Eu pensava: ‘Meu Deus, está tudo aqui, não é?’.”
No último dia de atividades, os próprios jovens o procuraram para conversar sobre religiosidade: “Eles me chamaram para falar sobre o Candomblé. Ficamos cerca de duas horas conversando e mantemos contato até hoje por um grupo de WhatsApp.”
Educação para transformar
Atualmente, André Luzolo também atua como coordenador de lote do Programa Corra Pro Abraço. Sua entrada no projeto ocorreu por meio de uma parceria entre a Associação Folia Africana e a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social da Bahia.
O trabalho atende moradores da Liberdade, São Caetano, Nordeste de Amaralina e Águas Claras, incluindo jovens em situação de vulnerabilidade social, pessoas em situação de rua e indivíduos afetados pelo uso abusivo de substâncias. Uma das iniciativas mais recentes é o Corra Periferia, que oferece formação em audiovisual e design para jovens de 13 a 29 anos.
Para Luzolo, a educação continua sendo a principal ferramenta de transformação social. Ao lembrar os ensinamentos da educadora e liderança religiosa Makota Valdina, ele reforça a necessidade de construir protagonismo negro: “Ela dizia que precisamos ser protagonistas da nossa própria história.”

Na avaliação do pesquisador, é justamente esse protagonismo que deve orientar as políticas de inclusão tecnológica: “Quando trabalhamos com esses jovens, com tecnologia, inteligência artificial e políticas antirracistas, estamos mostrando que eles podem ser protagonistas. Estamos mudando um modelo social que foi constituído para que eles não deem certo.”
Ao final da entrevista, ele faz um alerta sobre a falsa sensação de ascensão social produzida pelas redes digitais: “O fenômeno do influenciador digital criou uma falsa simetria de que basta produzir conteúdo para alcançar sucesso. As tecnologias estão postas e a comunicação faz parte da vida desses jovens, mas eles precisam construir sua própria historicidade e estar preparados para essa sociedade.”
Para André Luzolo, mais do que aprender a utilizar ferramentas tecnológicas, o desafio das novas gerações é compreender as estruturas que moldam essas tecnologias e disputar, de forma crítica e consciente, os espaços de poder que elas ajudam a construir.
Texto: Patrícia Bernardes – jornalista, redatora, mobilizadora de projetos de impacto social em educação, letramento e cultura identitária, e repórter colaboradora do Portal UMBU



