
O mundo começou a conhecê-lo como Capitão Nascimento. Uma parte do Brasil veio antes, com a peça A Máquina; outra, com o filme Deus é Brasileiro; outra ainda, com as novelas, especialmente Paraíso Tropical. Mas na Bahia é diferente. Não é de hoje que Wagner Moura chama a nossa atenção.
Posso dizer que acompanho sua trajetória desde quando ele ainda se chamava Wagner Maniçoba e fazia parte de um grupo de teatro do colégio em que éramos contemporâneos. Eu era apenas uma “pirralha” começando, enquanto ele já estava quase se formando, mas pude testemunhar, desde muito cedo, seu empenho e amor pela dramaturgia.
Versátil, sempre transitou com naturalidade entre o drama e a comédia. No teatro, no cinema e na televisão, destacou-se em grandes papéis, inclusive internacionais. Não à toa, o Globo de Ouro que venceu recentemente não foi sua primeira indicação: em 2016, concorreu como melhor ator em série de drama por Narcos.
Desde a vitória em Cannes, quando recebeu a Palma de Ouro de melhor ator, seu nome se consolidou como um dos mais fortes da temporada. A indicação anunciada nesta semana apenas confirma esse percurso. Especialmente porque não vem sozinha. O Agente Secreto também foi indicado a melhor direção de elenco, categoria nova no Oscar, que reconhece o trabalho coletivo por trás do filme. Um reconhecimento que passa não apenas por Gabriel Domingues, o diretor de elenco, mas também por Gabriel Leone, Alice Carvalho, Hermila Guedes, Carlos Francisco, Izabél Zuaa, Thomas Aquino, Maria Fernanda Cândido e, claro, dona Tânia Maria, nova unanimidade nacional.
Indicado ainda a melhor filme e melhor filme internacional, O Agente Secreto sobe um degrau em relação a Ainda Estou Aqui e se iguala a Cidade de Deus em número de indicações. O filme de Fernando Meirelles, que havia sido preterido na categoria de filme estrangeiro no ano anterior, alcançou um feito histórico ao ser indicado também a direção, roteiro, montagem e fotografia. Algo que até hoje impressiona no contexto do cinema brasileiro. Mesmo com todo o prestígio do filme de Kleber Mendonça Filho, desta vez, ficamos longe de algumas categorias fundamentais para a linguagem cinematográfica. O que, evidentemente, não diminui o mérito das indicações atuais, nem tampouco nossas esperanças de novas estatuetas douradas no dia 15 de março.
A batalha será dura. Principalmente porque o norueguês Valor Sentimental conquistou nove indicações. Foi Apenas um Acidente também se impõe como um adversário à altura. O filme francês, vencedor da Palma de Ouro no mesmo Cannes em que Wagner e Kleber foram premiados, pode estar um pouco esquecido nesta temporada, mas o trabalho de Jafar Panahi ainda ocupa o coração de muitos votantes. E Sirat, de Olivier Laxe, vencedor do Prêmio do Júri naquele festival, tampouco deve ser descartado.
Na categoria de ator, o principal concorrente do baiano é Timothée Chalamet, por Marty Supreme. Desde que despontou no cenário internacional com Me Chame Pelo Seu Nome, o ator emplaca uma sequência de personagens de destaque e busca essa estatueta com evidente empenho, algo que a Academia costuma apreciar. Mas a Academia também gosta de consagrar um “latino” em evidência. E tudo indica que Wagner Moura é o queridinho da vez.
De qualquer forma, é motivo de alegria ver um baiano, um filme nordestino e um grupo tão diverso apresentando uma obra tão inventiva e instigante. Claro que gostaríamos de ter visto indicações de melhor direção ou roteiro original para Kleber Mendonça Filho, ou de atriz coadjuvante para Tânia Maria. Mas o objetivo principal foi alcançado. Estamos no Oscar mais uma vez. E estamos fortes. Confirmando, também, o poder do cinema brasileiro.
Agora, só nos resta comemorar e torcer pelas alegrias que ainda podem vir.


