Em um país que insiste em lucrar com a nossa dor, mulheres negras voltam a Brasília para contrapor o Estado afirmando que sem reparação não existe democracia e que o Brasil não se moverá enquanto não enfrentar a sua própria violência

No dia 25 de novembro de 2025, a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver voltou a ocupar Brasília como a continuidade de um processo histórico conduzido por mulheres negras que se recusam a aceitar a normalização da violência e a manutenção das desigualdades estruturais. A marcha segue porque o Estado brasileiro ainda opera um projeto de morte e nós seguimos operando um projeto de futuro.
Mais de 300 milhões de vozes em cortejo por crianças, jovens e mais velhas, denunciaram a violência policial, o feminicídio, as injustiças reprodutivas, o desmonte de políticas sociais e a crise climática que atinge primeiro, e mais profundamente, nossos territórios. Mas denunciaram também a exploração da força de trabalho das mulheres negras, que seguem sustentando o país enquanto figuram nas piores posições dos indicadores de renda, emprego e acesso a direitos.

A marcha reafirmou o que está explícito nos manifestos que acompanhamos nesse processo: o Estado brasileiro tem uma dívida histórica com o povo negro, e reparação não é concessão é obrigação. A criação do Fundo Nacional de Reparação, discutida na PEC 27/2024, foi cobrada como medida mínima diante de séculos de exploração econômica e violência institucionalizada.
Outro ponto central foi a pauta econômica. As mulheres negras exigiram fiscalização efetiva e responsabilização de empregadores pela exploração das trabalhadoras, além da garantia de direitos básicos que seguem negados no cotidiano. A defesa do fim da escala 6×1, destacada como medida de reparação e reorganização da vida, evidencia algo que os governos insistem em ignorar: não há Bem Viver possível enquanto famílias negras forem forçadas a sobreviver entre jornadas exaustivas e ausência de tempo livre.

Desde a primeira marcha, em 2015, quando a pauta do Bem viver e da luta contra o racismo e o sexismo ocupou a Esplanada dos Ministérios, mulheres negras vêm pressionando o país a encarar estruturas que seguem intactas. Dez anos depois, permanecemos enfrentando os mesmos dados assustadores: somos maioria entre as vítimas de feminicídio, entre as mortes maternas evitáveis, entre as famílias sem acesso a renda e moradia digna. Também seguimos entre as mais atingidas pelos efeitos das mudanças climáticas que não são apenas ambientais, mas profundamente políticas.
Brasília, tomada pela história das mulheres negras, evidenciou a urgência da nossa luta. A celebração da ancestralidade conviveu com a indignação provocada pela ausência de respostas concretas do Estado, que continua adiando decisões fundamentais para garantir dignidade às nossas comunidades.

A Marcha das Mulheres Negras reafirma, mais uma vez, que não existe democracia sem reparação. Defender o Bem Viver significa garantir descanso, tempo livre, cuidado, titulação e proteção dos territórios tradicionais, políticas efetivas e ações climáticas que incluam quem sempre esteve na linha de frente da preservação dos manguezais, rios, praias e ribeirinhos.O Brasil precisa reconhecer tardiamente o impacto de quase quatro séculos de escravidão que moldam até hoje a desigualdade social. Mas reconhecimento não é reparação. E enquanto nossas vidas forem atravessadas por abandono, violência e precarização, a marcha continua e continuará, porque é a nossa caminhada que empurra o país para o futuro que ele insiste em atrasar.


