Iniciativa aproxima estudantes do fazer científico e valoriza saberes ancestrais, promovendo novas formas de aprendizagem e estimulando a construção do conhecimento no ambiente escolar

O projeto Mais Ciência na Escola tem transformado o modo como estudantes e professores da rede pública da Bahia se relacionam com o conhecimento. Idealizada pela Fiocruz Bahia, em parceria com instituições de ensino superior e secretarias municipais, a iniciativa aposta em uma educação científica inclusiva, interdisciplinar e participativa, que conecta a escola ao território e aos saberes populares.
Lançado oficialmente na Bahia em 19 de maio de 2025, por meio da Rede Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Inovação em Territórios Escolares (Rede‑ICTITE), o programa é parte da política federal Mais Ciência na Escola, instituída em julho de 2024 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em parceria com o Ministério da Educação (MEC) e o CNPq, cujo objetivo é fomentar o letramento digital, a educação científica e a cultura maker em escolas públicas de todo o Brasil.
Em entrevista ao Portal Umbu, Antonio Brotas, coordenador do projeto, contou que a proposta nasceu da necessidade de aproximar a ciência do cotidiano dos jovens e romper com a visão tradicional e excludente da produção científica. Jornalista e pós-doutorado em divulgação científica, ele explicou sua atuação na Fiocruz desde 2006, focando em comunicação em saúde e divulgação científica.
Brotas destacou a necessidade de aproximar a instituição da educação básica para fortalecer o pensamento científico e aproveitar vocações que se perdem devido a desigualdades sociais, raciais e regionais. O projeto busca tornar a ciência um caminho acessível, combatendo a percepção de que ela é restrita a uma “ciência branca, masculina e de alto padrão de renda. “Deixamos de descobrir muitos talentos que poderiam se tornar excelentes cientistas, escritores, comunicadores, juristas, biólogos ou farmacêuticos, por exemplo”, comentou.
“[…] O campo científico, por muito tempo, se manteve enclausurado numa perspectiva de ciência branca, masculina e elitizada”
“Esses jovens muitas vezes não percebem a ciência como um caminho possível. E isso não é culpa deles, é culpa nossa, do próprio campo científico que, por muito tempo, se manteve enclausurado numa perspectiva de ciência branca, masculina e elitizada. Assim, os jovens não se viam representados. Essa imagem social acabava cerceando o direito de escolha pela ciência. A popularização e a divulgação científica são, portanto, formas de aproximação, não apenas entre a Fiocruz e a sociedade, mas entre o próprio campo científico e a população. Divulgar ciência não é apenas levar conceitos e ideias, ou apresentar pesquisadores, isso é importante, claro, mas não suficiente para a perspectiva inclusiva que buscamos. A divulgação científica deve ser uma porta de entrada, uma forma de encantamento e de despertar o interesse pelo conhecimento.”
O coordenador do projeto ressaltou o interesse em tornar as disciplinas mais envolventes e que se tornem atividades feitas pelos estudantes, como feiras, mostras e experiências interativas, para que o interesse pelos campos de estudo cresçam. Por isso, a ideia é também que a educação científica seja inclusiva com os saberes tradicionais, conforme as particularidades de cada território.

“Cada território pode expressar isso de uma forma diferente. Outro ponto que marca nossa visão é que a educação científica precisa ser inclusiva também nos saberes que, por motivos diversos, inclusive pelo racismo, não são reconhecidos como científicos. Refiro-me aos conhecimentos ancestrais, dos povos originários e africanos, que historicamente foram relegados a um segundo plano. Nossa perspectiva é não perpetuar essa exclusão e dar a esses saberes o lugar que merecem nos nossos projetos e ações.”
“Quando o aluno entende que pode seguir sua própria linha de pensamento, ele traz os conhecimentos da própria vivência”
Sobre a importância desse alinhamento, o professor de Química e Física do Colégio Estadual Alfredo Agostinho de Deus Estadual, em Lauro de Freitas, Felipe Novaes, que também é coordenador do nó regional do projeto, explicou que: “Quando o aluno entende que pode seguir sua própria linha de pensamento, ele traz os conhecimentos da própria vivência. Aqui na Bahia, isso inclui experiências quilombolas, indígenas, ciganas e de outras comunidades minoritárias. Esses saberes são valorizados no projeto, especialmente porque um dos focos é a divulgação científica. Ao divulgar o que produzem, os estudantes abordam pautas como antirracismo, cultura e valorização das tradições. Isso amplia a visão de ciência, aproximando-a da antropologia, da história e da cultura popular”.
“O estudante com vivência ancestral passa a apresentar seus conhecimentos com prazer e com um olhar mais científico. Já vimos trabalhos em herbologia, resgate de plantas e alimentos nativos, documentação de histórias e tradições. É um processo de valorização e fortalecimento da identidade”, analisou.
Iniciativa da Fiocruz Bahia em colaboração com instituições de ciência, tecnologia e inovação, além das secretarias municipal e estadual de Educação, da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB), o programa está em execução em 90 escolas distribuídas em 51 municípios, com mais de 90 professores e cerca de 900 estudantes bolsistas atuando no Ensino Fundamental e Médio.
Perguntado sobre possíveis resultados ao longo dos quatro meses de implantação do Mais Ciência na Escola, Antonio respondeu que, por ora, “o que existe são efeitos da concepção que o orienta”. De acordo com ele, essa concepção foi construída junto a professores da educação básica que já desenvolviam práticas semelhantes à ideia do projeto em áreas como Física, Astronomia e Ciências da Saúde.

“Antes mesmo do projeto formal, já tínhamos mais de seis anos de experiência com escolas. Os estudantes iam à Fiocruz, e nosso trabalho era tornar a instituição um ambiente acolhedor para eles. A Fiocruz, como qualquer instituição científica, pode parecer um lugar inóspito para jovens. Por isso, passávamos meses preparando as equipes, os espaços, criando ambientes mais acessíveis e receptivos. É preciso que essas instituições se preparem para receber estudantes. O dia da visita deve ser especial, porque é um dia especial para eles — acordam cedo, pegam transporte, os professores organizam tudo, as famílias autorizam —, assim como um parque ou um cinema se preparam para receber o público, um centro de ciência precisa fazer o mesmo”, descreveu.
“Quando eles veem pesquisadores negros, mulheres e pessoas diversas atuando, percebem que também podem estar ali”
“Organizamos atividades com jogos, exposições e demonstrações, sempre respeitando as normas de biossegurança. O resultado é um encantamento genuíno. Já ouvi estudantes dizerem: ‘Tio, posso morar aqui?’. É claro que é uma brincadeira, mas revela o sentimento de pertencimento. Quando eles veem pesquisadores negros, mulheres e pessoas diversas atuando, percebem que também podem estar ali. Isso quebra barreiras simbólicas, as mais difíceis de superar. Assim, a divulgação científica se torna uma porta para o sonho de ser cientista. O segundo movimento do projeto é o inverso: levar a Fiocruz para dentro das escolas. Participamos de feiras de ciências, semanas escolares, levando microscópios, jogos, experimentos. Mesmo com recursos limitados, buscamos enriquecer essas experiências, o que faz diferença enorme na adesão dos estudantes.”
Cultura maker e protagonismo estudantil
Um dos pilares da iniciativa é a cultura maker, que incentiva os estudantes a colocarem a “mão na massa”, desenvolvendo projetos que unem criatividade, pensamento científico e soluções práticas. Para Brotas, o objetivo não é apenas construir objetos ou dominar tecnologias, mas estimular a autonomia e o raciocínio crítico.
“Os estudantes deixam de ser espectadores e passam a construir seus próprios projetos”
“A cultura maker, ou do “faça você mesmo”, já estava presente nas nossas práticas antes mesmo de receber esse nome. A proposta vem do edital do CNPq, elaborado em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e o Ministério da Educação, que financiam o projeto. Essa cultura é importante porque incentiva o protagonismo dos estudantes. Eles deixam de ser espectadores e passam a construir seus próprios projetos. Defendemos que a escola seja um espaço de produção de conhecimento e a cultura maker oferece meios concretos para isso”, contou.
“Os laboratórios maker não servem apenas para montar robôs ou trabalhar com arduínos e impressoras 3D. Esses instrumentos são meios para tornar o aprendizado mais palpável. A ciência, muitas vezes, é abstrata. O laboratório dá materialidade às ideias e isso é muito significativo para os jovens. Além disso, o trabalho com projetos ajuda na organização, no planejamento e na responsabilidade de concluir algo. O objetivo não é acertar ou errar, mas criar, imaginar, testar hipóteses. O laboratório deve ser um espaço inclusivo — não apenas para os alunos com boas notas ou maior interesse, mas também para aqueles que ainda não descobriram seu gosto pela ciência.”

Na prática, essa proposta tem ganhado força dentro das escolas participantes. O professor Felipe Novaes conta que o Mais Ciência representou uma mudança significativa em sua trajetória docente.
“Entrar no Mais Ciência foi um divisor de águas na minha carreira como docente. É um programa grande, com aspirações muito altas. A gente tenta conter um pouco as expectativas, mas já percebe que muita coisa boa está acontecendo”, contou, apontando que percebeu, como outros colegas, o crescente interesse dos estudantes pelo projeto e as iniciativas como o Clube de Ciências. Perguntado sobre como tem sido a experiência e os desafios da construção do conhecimento científico entre professores e estudantes, Felipe contou:
“Curiosamente, o maior desafio é justamente a criatividade dos meninos. Eles vão além do que a gente espera, extrapolam a nossa zona de conforto e nos fazem buscar parceiros, pesquisar e aprender junto com eles. No geral, a convivência dentro dos clubes é muito harmônica. Eles criam uma boa sinergia entre si, mas são muitas mentes efervescentes trabalhando juntas e os resultados são imprevisíveis. É uma dificuldade boa, porque nos desafia e enriquece o processo.”
Aprender fazendo: criatividade e desafios
Nos clubes de ciência, cada escola define seus próprios temas e metodologias, respeitando a identidade local. Essa autonomia amplia a troca de experiências e estimula a colaboração entre os alunos.
“Os clubes de ciência são entidades independentes, cada colégio tem o seu, e eles variam muito conforme a identidade local e o público. Mesmo dentro de um clube, há grupos com interesses diferentes. Uma das grandes características do Mais Ciência é que ele é, de fato, um clube de ciências no sentido amplo, não focado apenas em Química, Física ou Biologia, mas aberto para que o aluno mostre o que é capaz de fazer”, conta o professor Felipe Novaes, ressaltando que “o protagonismo é do estudante. O professor está ali para orientar, apontar caminhos e otimizar esforços”.
“Quando eles percebem que podem trazer suas ideias e colocá-las em prática, o interesse muda completamente”
“Outros docentes [das áreas de humanas e de linguagens] participam também, o que torna o processo naturalmente multidisciplinar. A criatividade dos alunos é central, e a gente interfere o mínimo possível. Deixamos que eles mesmos resolvam os problemas que surgem. Essa troca entre eles é riquíssima. […] Como o Clube de Ciências não está atrelado a uma disciplina, os alunos têm liberdade para expressar dúvidas e curiosidades que, na sala de aula, ficariam restritas. Essa abertura é maravilhosa: quando eles percebem que podem trazer suas ideias e colocá-las em prática, o interesse muda completamente. O ambiente se torna muito mais vivo.”
Impactos na docência
Para além dos efeitos sobre os estudantes, o Mais Ciência na Escola também tem fortalecido o trabalho e a motivação dos professores. A construção coletiva do projeto, feita em parceria com educadores de diferentes regiões da Bahia, tem sido fundamental para seu sucesso.
“O projeto foi construído com os professores, e isso faz toda a diferença. Essa é uma das grandes forças da iniciativa. Antes do Mais Ciência, já tínhamos um grupo permanente com cerca de 40 professores da Bahia, do ensino fundamental e médio, de várias regiões. E a Bahia é muito diversa: o norte é diferente do sul, o recôncavo é diferente da região metropolitana, cada território tem suas especificidades. O projeto não é uma extensão da Fiocruz nas escolas, mas uma parceria entre instituições como a UNEB, a UNIVASF, e as escolas que é mediada e financiada pelo MCTI e pelo CNPq — e as redes de ensino. Os professores não são coadjuvantes. A construção do projeto envolveu diretamente os docentes. O texto do projeto tem mais de 400 páginas, e boa parte foi elaborada coletivamente. Há professores na coordenação geral e nas coordenações adjuntas. Eles participam da elaboração dos cursos de formação, das oficinas de cultura maker, dos clubes de ciência e das ações de extensão.”
“O professor é estratégico, ele é fundamental e é ator pleno do projeto. Sem ele, o projeto não existe”
“Cada escola participante cria o seu clube de ciência, adaptado às vocações do território. Pode ser voltado à astronomia, às ciências ambientais, à saúde. O professor lidera esse processo: seleciona estudantes, articula com as secretarias de educação, coordena as atividades e ajuda a construir o laboratório. Está na construção, na condução, na gestão do projeto e na execução. O professor é estratégico, ele é fundamental e é ator pleno do projeto. Sem ele, o projeto não existe”, explicou o coordenador do projeto, Antonio Brotas.

“A gente se sente valorizado pela comunidade, pelos alunos, pela direção da escola, pelo governo”
Perguntado sobre o impacto do projeto na vida dos docentes, o professor Felipe Novaes aponta: “O maior impacto é o estímulo e o reconhecimento que o professor recebe. A gente se sente valorizado pela comunidade, pelos alunos, pela direção da escola, pelo governo. Você sente que está recebendo uma incumbência, um voto de confiança para você fazer algo muito importante. Por mais que a gente saia um pouco da da caixinha, saia um pouco da zona de conforto, mas é uma saída muito boa, porque ela é gratificante, o processo em si é muito gratificante. É uma oportunidade de colocar em prática conhecimentos que, no ritmo das aulas regulares, não conseguimos desenvolver. O Clube de Ciências é um espaço mais intimista e de diálogo aberto. As conversas com os estudantes são mais profundas, eles se expressam mais, e isso é muito gratificante. O aprendizado acontece nos dois sentidos: o estudante se transforma, e o professor também. Esse processo nos reinventa e se reinventar é sempre bom”.


