Presidentes discursaram nesta terça-feira (22) na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, com posições divergentes sobre a atuação dos Estados Unidos na região

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a soberania dos países latino-americanos e criticou interferências externas durante discurso nesta terça-feira (22) na abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Logo depois, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que seu governo poderá utilizar o poderio militar norte-americano para proteger os interesses do país no Hemisfério Ocidental.
Ao abordar a situação da América Latina e do Caribe, Lula afirmou que a proximidade geográfica com os Estados Unidos, que classificou como a maior potência militar do mundo, ocorre em um cenário de aumento das disputas por influência.
“Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável, sobretudo no contexto do recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, declarou.
O presidente brasileiro também criticou a interferência estrangeira em processos eleitorais, a divisão do mundo em zonas de influência e disputas envolvendo recursos estratégicos. Para Lula, os países da região devem preservar o direito de definir seus próprios caminhos políticos.
Trump fala em poderio militar
Em seu discurso, realizado logo após o pronunciamento brasileiro, Trump adotou uma posição mais contundente sobre a atuação dos Estados Unidos na América Latina. O presidente afirmou que as ações norte-americanas na Venezuela demonstrariam que Washington não permitirá que ameaças aos interesses dos Estados Unidos avancem no Hemisfério Ocidental.
“Se necessário, usaremos nosso poderio militar inigualável para garantir os interesses nacionais vitais dos EUA”, afirmou Trump. O presidente norte-americano também voltou a associar organizações criminosas latino-americanas a grupos terroristas e defendeu ações militares contra cartéis de drogas. Segundo Trump, essas organizações representam uma ameaça à segurança dos Estados Unidos.
A declaração ocorre em meio a uma política externa norte-americana mais voltada à atuação direta contra grupos criminosos na região. Em julho, o Itamaraty já havia registrado, em documento encaminhado ao Congresso, a possibilidade de uso da força militar dos Estados Unidos em território brasileiro após a classificação do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelo governo norte-americano.
O combate ao crime organizado também esteve presente no discurso de Lula. O presidente afirmou que o Brasil não pretende terceirizar a responsabilidade pela segurança de suas fronteiras e da população, mas defendeu cooperação internacional para combater o tráfico de armas e a lavagem de dinheiro.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”, afirmou. A declaração contrasta com a defesa feita por Trump do emprego de recursos militares norte-americanos contra organizações criminosas na região.
Lula critica atuação da ONU
Além das questões envolvendo a América Latina, Lula criticou a atuação da própria ONU diante dos conflitos internacionais. Segundo o presidente brasileiro, a organização atravessa um dos momentos mais críticos desde que ele participou pela primeira vez da Assembleia Geral, em 2003.
Lula afirmou que a credibilidade da ONU está em um nível baixo e criticou o Conselho de Segurança por não conseguir responder de maneira efetiva aos conflitos armados. O presidente defendeu o fortalecimento do multilateralismo, da diplomacia e da negociação como instrumentos para solucionar disputas internacionais.
A reforma do Conselho de Segurança é uma das pautas tradicionais da diplomacia brasileira. O Brasil defende mudanças na composição e no funcionamento do órgão, que atualmente possui 15 integrantes, sendo cinco membros permanentes com poder de veto.
Os discursos de Lula e Trump ocorreram em sequência na abertura do debate geral da Assembleia Geral. O presidente brasileiro foi o primeiro chefe de Estado a falar, seguindo a tradição da ONU, enquanto Trump discursou logo depois.


