Com a polícia relacionada com 44% dos tiroteios na Grande Salvador e mortes em chacinas policiais crescendo 82%, governo aposta no programa social Bahia pela Paz para tentar dar respostas e frear a violência contra a juventude negra.

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A poucos meses das eleições que definirão os rumos dos governos estaduais, a segurança pública se consolida como o calcanhar de Aquilhes da gestão baiana. A Bahia chega a 2026 amargando recordes sucessivos de letalidade policial, um cenário que impacta desproporcionalmente a população negra e periférica. Com a publicação do Relatório Anual 2025 do Instituto Fogo Cruzado, divulgado nesta quinta-feira (26), os números ganharam rostos, bairros e CEPs, desenhando o mapa de uma crise que pautará obrigatoriamente os debates eleitorais.
O Fogo Cruzado, que utiliza tecnologia para produzir o único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, revelou um panorama assustador na capital e na Região Metropolitana de Salvador (RMS). Mesmo com uma queda de 16% no número total de tiroteios em 2025 (1.505 registros contra 1.795 no ano anterior), a proporção de confrontos envolvendo forças do Estado atingiu o maior patamar da série histórica.
O peso da farda na violência armada
Os dados evidenciam que a letalidade não é um desvio de conduta, mas um padrão. Em 2025, 44% de todos os tiroteios mapeados (662 casos) ocorreram durante ações e operações policiais.
O rastro letal dessas operações é alarmante: das 1.525 pessoas baleadas na Grande Salvador, 1.212 morreram. Destas vítimas, 40% foram atingidas em contextos de intervenção policial. O cenário se agrava quando o foco recai sobre as chacinas (eventos com três ou mais mortos). Das 34 chacinas registradas, 73,5% foram causadas pelo Estado, deixando 95 civis mortos, um salto de 82% em comparação a 2024.
“A Bahia insiste na letalidade policial como política de Estado. Não se trata de excessos pontuais, mas de uma estratégia que aposta no confronto permanente, mesmo diante de evidências de que esse modelo amplia a violência”, pontua Tailane Muniz, coordenadora regional do Instituto Fogo Cruzado.
A geografia dessa violência tem alvos definidos. Entre as cidades da RMS, as mais impactadas foram:
Salvador: 1.104 tiroteios (73% do total)
Camaçari: 123 tiroteios
Lauro de Freitas: 61 tiroteios
Dias D’Ávila: 59 tiroteios
Simões Filho: 57 tiroteios
Já dentro da capital baiana, o ranking dos bairros mais violentos ilustra a vulnerabilidade em comunidade periférica: Beiru/Tancredo Neves lidera com 35 tiroteios, seguido por Lobato (31), Mussurunga (27), Fazenda Coutos (26) e Federação (26).
O mapa do racismo estrutural e o impacto na educação
A política de segurança afeta diretamente o futuro da juventude negra. Em 2025, 69 crianças e adolescentes foram baleados (29 deles em ações policiais).
A rotina escolar também precisou se adaptar com clima de guerra. Ao todo, 252 escolas de Salvador foram afetadas por tiroteios em seu entorno, sendo 67% desses confrontos gerados por operações policiais.
O recorte territorial dessa insegurança escancara o racismo estrutural: bairros com população majoritariamente negra (como Fazenda Coutos, Rio Sena, Pero Vaz e Lobato) concentram 5% dos tiroteios próximos a escolas. Em contraste absoluto, bairros majoritariamente brancos e de classe alta (como Itaigara, Graça, Caminho das Árvores, Pituba e Barra) registraram apenas 0,3% dessas ocorrências.
Episódios emblemáticos furam o cerco das estatísticas e ampliam a sensação de insegurança. O relatório relembra a morte da dentista Larissa Azevedo Pinheiro, de 28 anos, morta por um disparo durante perseguição policial na Avenida Paralela, e casos como o do adolescente Caíque, de 16 anos, morto no bairro de São Marcos sob acusações da família de execução sumária.
A aposta social: o programa Bahia Pela Paz
O antídoto do governo à política do confronto armado atende pelo nome de Programa Bahia pela Paz. Com um aporte de mais de R$ 70,4 milhões o Estado está instalando os chamados Coletivos Bahia pela Paz.
Os Coletivos atuam como equipamentos de promoção de direitos humanos e têm como alvo o público mais vulnerável às estatísticas: adolescentes e jovens de 12 a 29 anos. Diferente das rondas policiais, as unidades operam com uma equipe de 7 psicólogos, 3 assistentes sociais e 2 jovens aprendizes. O trabalho é baseado em cinco eixos, que vão desde o acompanhamento psicossocial e a formação político-cidadã até a articulação para o acesso a políticas públicas de saúde e assistência.
O modelo aposta na busca ativa. Em vez de esperar que o jovem em vulnerabilidade bata à porta, os técnicos vão a escolas, unidades de saúde, CRAS, CREAS e conselhos tutelares para criar vínculos de confiança.
A disputa de narrativas em 2026 será inevitável. Enquanto a oposição cobrará pela sensação de insegurança e pela ineficácia do modelo bélico, o governo tentará provar que investimentos preventivos, como os Coletivos, são o caminho para estancar o derramamento de sangue.



