Mobilizadora cultural e dançarina afro, jovem de 25 anos destaca ancestralidade, pertencimento em sua trajetória até o Curuzu

O Ilê Aiyê realiza neste sábado (17) mais uma edição do tradicional concurso Noite da Beleza Negra, que vai eleger a próxima Deusa do Ébano, responsável por representar a entidade ao longo dos próximos meses. Ao todo, 15 mulheres disputam o título. O Portal Umbu conversou com quatro das finalistas para compreender quais são suas motivações, a preparação para a grande noite e de que forma suas trajetórias dialogam com a cultura negra, a ancestralidade e o simbolismo que atravessam o concurso.
Larissa Oliveira, 25 anos, moradora e cria de Sussuarana, está entre as candidatas ao Concurso Deusa do Ébano do Ilê Aiyê 2026. Mobilizadora cultural, integrante do coletivo Negritude Sussuarana, estudante de TSB, dançarina afro e digital afro influencer, ela leva para o concurso uma trajetória marcada pela atuação comunitária e pela afirmação da identidade negra.

“Sou moradora e cria da Sussuarana, essa onça que pulsa na minha alma”, conta Larissa. Mulher negra, mãe de Odara, tutora de Enzo, companheira e filha de Oyá, ela destaca que sua formação pessoal e política está diretamente ligada ao território onde cresceu e aos movimentos culturais que resistem na comunidade.
A consciência racial, segundo Larissa, se construiu ainda na infância. “Essa autoafirmação chegou cedo graças à convivência na minha comunidade e aos movimentos culturais que resistem nela. Com 9 anos iniciei meus passos e dali eu me entendi como menina negra, bonita e dos cabelos perfeitos”, relembra.
Apesar da consciência racial muito nova, ela também enfrentou o desafio de tentar se adequar a padrões que não reconheciam sua identidade. “Esse processo conseguiu tirar de mim a minha identidade, a ponto de me afastar do que me resgatava”, conta. A ruptura com essas expectativas marcou um momento decisivo: “Quando consegui olhar pra mim e dizer ‘eu não sou isso’, a minha história ganhou mais força”.
Mulheres negras tiveram papel central nesse processo de reconstrução. Larissa cita a mãe, Eliza Santos, como sua principal referência, além de mulheres como Danúbia Santos dos Santos, Jedjane Mirtes e Carla Lopes. “Foram mulheres que me ensinaram a me enxergar e a me portar como mulher preta nessa sociedade. Até hoje, as palavras e os gestos delas ecoam em mim, na minha existência”, afirma.
A relação com o corpo e com a estética negra se fortaleceu a partir da participação no Concurso Beleza Negra de Sussuarana. “Foi nesse espaço que eu me encontrei num lugar de pertencimento”, explica. Para ela, o maior desafio desse processo foi romper com padrões externos: “O mais difícil foi conseguir sair dos padrões que me eram atribuídos”.

A inscrição na Noite da Beleza Negra do Ilê Aiyê, etapa do Concurso Deusa do Ébano, representa um marco pessoal. No ano anterior, Larissa chegou a se inscrever, mas não conseguiu seguir até a seleção. Em 2026, a experiência foi diferente. “Ano passado eu não tive forças para ir até o processo de seleção. Esse ano, uma força ancestral me levantou e me mostrou que eu merecia estar nesse lugar”, relata. Ela destaca ainda a influência materna na decisão: “As palavras da minha mãe ecoaram nos meus ouvidos e eu segui”.
Ao resumir a caminhada até aqui, Larissa escolhe a gratidão como palavra-chave. “Sou grata por estar entre as 15, grata por viver esse processo que o Ilê Aiyê nos proporciona, grata pelo cuidado e por dividir esse sonho com outras 14 mulheres que resistem assim como eu. Sou grata por viver essa magia ancestral”, conclui.
Celebrando a reafirmação da identidade negra por meio da arte, da música e da resistência cultural, Larissa Oliveira se apresenta junto a outras candidatas ao título de Deusa do Ébano na Noite da Beleza Negra 2026 neste sábado (17), na Senzala do Barro Preto, sede do bloco Ilê Aiyê. O evento será transmitido ao vivo pela TVE, TV Brasil e pelo canal da TVE no YouTube.


