
O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado nesta quarta-feira (21), propõe uma reflexão urgente sobre os limites da convivência democrática em um país marcado por ampla diversidade de crenças, mas também por índices persistentes de violência motivada pela fé. Instituída pela Lei nº 11.635/2007, a data homenageia a ialorixá Gildásia dos Santos e Santos, Mãe Gilda de Ogum, vítima de perseguições, ataques ao seu terreiro e violência simbólica que culminaram em sua morte, em Salvador, no ano 2000, episódio emblemático do racismo religioso no Brasil.
Quase três décadas depois, os dados oficiais indicam que o problema permanece longe de ser superado. Registros do Disque 100 apontam que o país ultrapassou 2,4 mil denúncias de intolerância religiosa em 2024, um crescimento de cerca de 67% em relação ao ano anterior. As religiões de matriz africana continuam entre as mais atingidas, evidenciando que a violência religiosa está profundamente associada a heranças históricas de discriminação racial e cultural.
Em meio a esse cenário, iniciativas que apostam no diálogo inter-religioso e na convivência entre diferentes tradições ganham relevância simbólica e social. Em Salvador, esse movimento encontra expressão no Kumbayá, celebração mensal realizada na Cidade da Luz, sob condução do médium e fundador da instituição, José Medrado. Mais do que um encontro espiritual, o Kumbayá se consolida como um espaço de escuta, acolhimento e afirmação do respeito como valor fundamental.
Uma trajetória marcada pela experiência social e espiritual
A origem da Cidade da Luz está diretamente ligada à história pessoal de José Medrado, marcada por dificuldades socioeconômicas e pela manifestação precoce da mediunidade. Em entrevista, ele relembra: “Eu tive uma infância muito difícil. Passei fome literalmente. Aos 10 anos eu lavava carro, aos 14 já trabalhava com carteira assinada. Essas experiências foram criando dentro de mim um propósito muito claro: quando eu crescesse, se pudesse ajudar as pessoas a não passarem pelas dificuldades que eu e minha família passamos, eu faria isso”.

Paralelamente à realidade social, a espiritualidade se apresentou desde cedo:“A mediunidade surgiu aos sete anos, mas o entendimento veio aos 15. A partir daí comecei a trabalhar mediunicamente. Este ano completo 50 anos de exercício mediúnico”. A Cidade da Luz, segundo Medrado, não nasceu como um projeto formalizado, mas como um processo coletivo.
“As pessoas foram se agregando à proposta espiritual e social, e a Cidade da Luz foi crescendo. Ela se tornou o que é hoje graças ao trabalho dos espíritos desencarnados e encarnados“. Atualmente, a instituição reúne atividades espirituais, sociais e de acolhimento, recebendo milhares de frequentadores ao longo do ano.
Já celebração do Kumbayá surgiu a partir de uma experiência vivida fora da Bahia, durante um evento em São Paulo, ao ouvir uma canção tradicional de origem africana.“Na hora em que o cantor cantava, eu percebi uma movimentação espiritual de auxílio, de espíritos alinhados com aquele trabalho. Aquilo me chamou muita atenção”.
De volta a Salvador, a vivência se transformou em prática a partir de uma orientação espiritual. “A nossa espiritualidade sempre teve uma visão do diverso, do agregar, sem discriminar. A orientação foi fazer algo semelhante, mas com uma evocação geral, uma conclamação a todos que quisessem realizar o bem, independentemente do rótulo religioso“. O próprio termo Kumbayá sintetiza essa proposta: “Kumbayá é um clamor. É um ‘passe por aqui’. Um pedido de ajuda. Por isso fazemos o Kumbayá sempre na primeira terça-feira do mês. É uma reunião muito forte, realmente arrepiante.”

Com o tempo, a celebração passou a incorporar referências de múltiplas tradições espirituais. Em 2025, por exemplo, durante as celebrações de 47 anos da Cidade da Luz, o encontro reuniu representantes de vertentes religiosas, como a Ebomi Nicinha e a ialorixá Jaciara Ribeiro, do candomblé; Pai Rafael Moraes, da umbanda; Arcebispo Alfredo Dórea, do anglicanismo; padre Luis Simões, do catolicismo; pastora Gicélia Cruz, representando os evangélicos; sheik Alhaji Abdul Hamerd Ahmed, do islamismo; e o rabino Rogério Palmeira, do judaísmo.
“Nada mais justo do que convocar também os espíritos de matriz africana para esse momento de clamor. E, à medida que isso acontece, outros segmentos espirituais vão surgindo. A gente vai agregando ali, no momento.”
Diálogo inter-religioso e respeito: conceito, prática e memória
Embora frequentemente descrito como ecumênico, Medrado faz questão de diferenciar os conceitos: “O ecumenismo é um termo próprio do diálogo entre igrejas católicas e cristãs. O que fazemos aqui é diálogo inter-religioso. E é importante dizer: não é submissão inter-religiosa, é diálogo. Cada um mantém sua identidade.”
Essa compreensão acompanha sua trajetória desde os anos 1980. Ele recorda que, ao se formar na Universidade Católica do Salvador, condicionou sua participação na cerimônia à realização de uma oração inter-religiosa. “Na época houve resistência, desconforto. O Brasil ainda nem era um país oficialmente laico. Conseguimos fazer, mas sem as religiões de matriz africana. Ficou capenga, mas foi um passo”. O diálogo avançou com o tempo e se institucionalizou. “Criamos o Comitê Inter-Religioso da Bahia com lideranças do candomblé, do catolicismo, do protestantismo, da umbanda e do islamismo. Foi a primeira iniciativa organizada desse tipo na Bahia“.

Para Medrado, não há hierarquia entre crenças: “Não existe fé melhor, nem caminho superior. Infelizmente, muitas religiões carregam essa presunção. As de matriz africana, curiosamente, não.”
Ao tratar da intolerância religiosa, ele rejeita o conceito de tolerância e reafirma o respeito como princípio central, ecoando o pensamento de lideranças históricas. “Makota Valdina dizia algo muito verdadeiro: ‘Nós não queremos tolerância religiosa, queremos respeito’. Tolerar é como engolir. Respeitar é reconhecer o direito do outro existir”.
Lembrando que o respeito às crenças não é apenas um valor ético, mas uma obrigação legal, ele diz que “as pessoas não precisam aceitar o dogma da outra religião, mas têm obrigação de respeitar. Inclusive por lei.” O médium também critica a forma como esses crimes são tratados no sistema de Justiça: “Enquanto isso for tratado como crime de menor potencial ofensivo, os casos vão continuar acontecendo. Falta responsabilização.”
Na prática cotidiana da Cidade da Luz, o acolhimento se manifesta de forma concreta. “Aqui ninguém pergunta em que você acredita. Pessoas trans frequentam a instituição porque sabem que não vão ser desrespeitadas. Nossa visão cristã é cuidar dos pequeninos, daqueles que são rejeitados“, exemplifica.
Para Medrado, o impacto do Kumbayá se estende para além do espaço físico da Cidade da Luz. “Muitos frequentadores levam essa experiência para suas famílias, para o trabalho, para os espaços onde convivem. Eles se tornam multiplicadores”.
Ele reconhece que o caminho do diálogo enfrentou resistência, inclusive dentro do próprio espiritismo: “Fui muito criticado. Diziam que eu não era mais espírita. E eu sempre perguntava: que direito alguém tem de dizer o que eu sou?”. Apesar das dificuldades, avalia que há avanços, ainda que tímidos. “O espiritismo é muito conservador e, infelizmente, tem flertado com extremismos ideológicos. Isso é lamentável. Mas é perseverar até o fim, como propôs Jesus“, conclui.


