Listamos as principais brincadeiras e tradições da Semana Santa

Às vésperas do feriado de Semana Santa, boa parte da população baiana vive em meio à correria para garantir o peixe e o azeite, por um precinho camarada, enquanto se preocupa com as manutenções das tradições que se dividem entre o sagrado e o “quase-profano”. Para entender como algumas das atividades tão comuns à Semana Santa baiana acontecem, foi necessário voltar um pouco, mais precisamente para a última semana do Carnaval.
Histórico
A Quarta-Feira de Cinzas, que marca o fim do Carnaval, também representa o início de um período importante: a Quaresma. De acordo com a tradição católica, a fase é uma espécie de preparação para a celebração da Páscoa. O período é conhecido pelas práticas de penitências como, por exemplo, jejuns e obras de caridade.
Durante a Quaresma, é usual que os devotos se abstenham de comer carne vermelha. Conforme a tradição católica, através da privação, o fiel é incentivado a ajudar quem mais precisa e a buscar a reflexão, mais silêncio e recolhimento, além de contenção da euforia.
Toda essa preparação deságua em uma data importante para as famílias que professam a fé cristã: a Semana Santa. Muitas tradições e costumes são passados de geração em geração, mas, muitas vezes, não são questionadas a origem e as motivações para essas práticas.
A Semana Santa começa no Domingo de Ramos – hoje, dia 24 de março -, o domingo que antecede a Páscoa. Já na quinta-feira, conforme o cristianismo, aconteceu a última ceia de Jesus e, na sexta-feira, foi realizada a crucificação de Cristo e no domingo, sua ressurreição.
Por outro lado, a religião judaica comemora apenas a Pessach, palavra hebraica para “passagem” ou “atravessar”. A festa da Páscoa simboliza a liberação dos judeus da escravidão no Egito.
De acordo com informações do site Brasil Escola do UOL, a Semana Santa iniciou com os primeiros cristãos como forma de relembrar os últimos dias de Jesus na Terra. No começo, a celebração era realizada apenas aos domingos. Ainda segundo o título, foi somente no século IV que os cristãos passaram a celebrar a Semana Santa de forma separada, iniciando, assim, a tradição que conhecemos.
Celebrações
Com o passar do tempo, as tradições foram reinventadas e implementadas a partir dos contextos sociais e culturais de cada Região. Muitas coisas se mantiveram, mas outras ganharam novos contornos regionais e receberam adições que ora abraçam, ora se distanciam da religiosidade.
Em Salvador, além do cardápio da comida de azeite comum em muitas famílias na Sexta-feira da Paixão, outros elementos como a queima ou a malhação de Judas, o pau de sebo e o baba de vinho foram adicionadas à forma de encarar essa data. Acompanhe agora alguns dos principais elementos e atividades do período que o Portal Umbu listou para você:
Queima de Judas:
No Sábado de Aleluia, ocorre a malhação de Judas, uma tradição que é realizada em todo o país. A prática consiste em confeccionar um boneco de pano, uma espécie de espantalho, que seria a representação de Judas. O boneco, então, é humilhado, xingado, surrado, queimado e explodido. Historicamente, os judas eram representantes populares ou políticos, que precisavam receber a mensagem de críticas e insatisfações sociais.
Em Salvador, um dos grandes nomes por trás da confecção dos bonecos de Judas foi Florentino Fogueteiro. Falecido em 2006, o artista ajudou a popularizar o conceito do Judas a ser malhado com a identidade de um desafeto coletivo, como uma figura política ou um personagem midiático que causou revolta à população.
Apesar de estar presente na Capital e no Interior do Estado, em outros Estados como Goiás, o ritual também acontece, mas no Domingo da Páscoa. Com raízes na Idade Média, a tradição foi importada por espanhóis e portugueses para toda a América Latina. Judas Iscariotes foi um dos doze discípulos de Jesus. Segundo os relatos bíblicos, foi Judas que traiu Cristo, o apóstolo recebeu como recompensa 30 moedas de ouro. Com remorso, Iscariotes se enforcou. A história do apóstolo é tão forte na cultura brasileira que “Judas” se transformou em sinônimo de traição.
Pau de sebo:
Tradicional nas festas juninas nas cidades do interior dos estados juninos, o Pau de sebo também se faz presente na Semana Santa baiana. É uma brincadeira que consiste em uma estaca de madeira, ensebada com um melaço. Pessoas de várias idades participam da brincadeira, a ideia é simples, ganha a pessoa que conseguir alcançar o topo do pau de sebo.
Baba do vinho:
O “Baba de Saia”, também conhecido como “Baba do Vinho”, é um jogo em que os homens se vestem com roupas e adereços femininos para disputar uma partida de futebol.
Popular pela irreverência, o evento esportivo atrai curiosos e causa comoção por garantir cenas inusitadas. Os jogos acontecem em diversos bairros populares de Salvador e só precisam da vontade dos jogadores para transformar qualquer rua vazia em uma grande quadra de esportes.

Comida baiana:
Já que no período da Quaresma e da Semana Santa os devotos se abstêm de comer carne vermelha, no almoço da Sexta-Feira Santa, os baianos costumam comer Vatapá, caruru, farofa de dendê e moqueca, a famosa comida baiana. Além disso, somente na semana santa o vinho é somado ao cardápio popular baiano, promovendo uma mistura inusitada, mas específica da data.
A origem da tradição culinária tem uma raiz cultural: o processo histórico que conduziu o encontro das religiões católica e de matriz africana. Os católicos se privam de comer carne vermelha durante a semana como forma de respeito ao derramamento do sangue de Jesus. No candomblé, a data deve ser de comida mais leves, uma vez que a sexta-feira é vista como de leveza e purificação.
Conforme o historiador, especialista em história da gastronomia, chefe de cozinha e Babalorixá, Elmo Alves em entrevista ao iBahia, o peixe, símbolo do cristianismo como alimento abençoado e sagrado, é indicado para a data pela igreja, já o dendê, representa a culinária afro-baiana e religiosa.

Ovos da Páscoa:
Outra tradição comum do período é presentear, principalmente, as crianças com ovos da páscoa. Segundo historiadores, a Páscoa é celebrada próximo ao equinócio (fenômeno que marca o início da primavera e outono). A prática de trocar ovos foi adotada pelos cristãos, trazendo um simbolismo religioso para a data. Como o equinócio marca o fim do inverno e do verão para a chegada da nova estação, a Páscoa representa a chegada de um novo tempo, com a ressurreição.
A tradição dos ovos de Páscoa também começou com os ovos de galinha, sendo cooptada pelo mercado mais tarde. O chocolate foi adotado como matéria-prima dos ovos em meados do século XIX, por confeitarias francesas. Primeiro, as cascas dos ovos de galinha passaram a ser esvaziadas e recheadas com chocolate. Anos depois, todo o ovo passou a ser feito de chocolate, ao molde dos ovos de Páscoa que conhecemos hoje.



