
A mídia ocupa um papel central na forma como as sociedades registram acontecimentos, preservam memórias e transformam experiências cotidianas em narrativas coletivas. Mais do que apenas relatar fatos, o jornalismo também influencia aquilo que passa a ser entendido como informação relevante, ajudando a organizar registros que, no futuro, podem explicar processos históricos, culturais e políticos. Essa relação entre comunicação, memória e cultura está no centro das reflexões propostas pela jornalista e pesquisadora Cleidiana Ramos no minicurso “Mídia e Diversidade nas Encruzilhadas Culturais”, com encontros agendados nos dias 19 e 26 de março.
Antes, contudo, como parte da programação, uma aula aberta será realizada na próxima quinta-feira (12), às 20h, no perfil @cleidianaramos no Instagram. O encontro funciona como uma introdução ao minicurso e toma como referência o filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, para discutir o papel do chamado jornalismo-memória na construção de narrativas culturais.
A proposta, segundo a pesquisadora, nasce justamente do diálogo entre o jornalismo e outras áreas do conhecimento. “Minha formação começa no jornalismo, mas ao longo da pós-graduação fui dialogando muito com outras áreas das humanidades, especialmente a antropologia. E o jornalismo sempre teve essa vocação de diálogo com outros campos”, afirma.
Ela lembra que a própria história dos estudos de comunicação revela essa interdisciplinaridade. Ao longo do século XX, diferentes correntes teóricas influenciaram a compreensão sobre mídia e sociedade, passando de abordagens mais ligadas à psicologia para interpretações sociológicas e críticas. “Em determinado momento houve uma virada muito forte para a sociologia, especialmente com a influência da teoria crítica e da Escola de Frankfurt”, explica.
Para Cleidiana Ramos, parte do jornalismo contemporâneo acabou se afastando desse diálogo mais amplo com outras áreas das ciências humanas. O minicurso surge, portanto, como uma tentativa de reaproximar esses campos e oferecer um espaço de reflexão que nem sempre encontra lugar nos currículos tradicionais da graduação. “Às vezes o jornalismo fica muito fechado em si mesmo. E quando a gente dialoga com áreas como antropologia ou história, passa a entender melhor os fenômenos culturais que o próprio jornalismo tenta narrar”, diz.
O filme O Agente Secreto, que inspira a aula aberta do minicurso, aparece como um exemplo de como essas discussões podem ser traduzidas em linguagem audiovisual. Na avaliação da pesquisadora, a obra trabalha intensamente com a ideia de memória, tanto no plano coletivo quanto no familiar. “Memória não é apenas nostalgia. Quando alguém investiga a própria história ou a história da família, pode encontrar situações difíceis, contradições ou versões diferentes daquilo que imaginava”, observa.

No filme, segundo ela, o jornalismo surge como uma espécie de fio condutor dessas narrativas. “O jornal aparece em momentos importantes da trama e funciona quase como um mediador da memória. Isso é muito interessante, porque historicamente os jornais também tiveram esse papel de registrar acontecimentos cotidianos que depois ajudam a explicar grandes processos históricos”, afirma.
A obra também dialoga com elementos do imaginário popular, algo que durante muito tempo fez parte do próprio repertório do jornalismo. Cleidiana cita como exemplo a famosa lenda urbana da “perna cabeluda”, que ganhou espaço em jornais brasileiros nas décadas passadas. “Os jornais também registravam essas narrativas populares. Não era apenas como curiosidade, mas como parte do imaginário coletivo de uma sociedade”, diz.
A discussão proposta pelo minicurso também se conecta a um fenômeno cada vez mais presente na cultura contemporânea: a circulação global de narrativas locais. Produções brasileiras de cinema, música e televisão têm alcançado públicos internacionais e ampliado a presença cultural do país no exterior.
Para Cleidiana Ramos, esse movimento está diretamente ligado à riqueza da formação cultural brasileira. “O Brasil tem uma diversidade cultural enorme. Nossa formação reúne influências indígenas, africanas e europeias que se cruzam o tempo inteiro”, explica. Esse encontro de tradições produz um repertório simbólico amplo, marcado por narrativas que transitam entre o cotidiano e o fantástico. “Temos uma tradição muito forte de contar histórias. Isso vem das culturas africanas, das culturas indígenas e também da herança ibérica”, afirma.
Segundo ela, elementos considerados fantásticos ou mágicos fazem parte desse universo narrativo. Histórias sobre criaturas míticas, lendas urbanas e narrativas religiosas convivem com experiências cotidianas e ajudam a construir um imaginário cultural complexo. “No Brasil encontramos histórias de lobisomem, de encantados, de entidades religiosas e de personagens do folclore convivendo com narrativas urbanas. Esse repertório simbólico é muito potente e dialoga com diferentes públicos”, diz. A pesquisadora lembra que esse tipo de narrativa também aparece no próprio filme O Agente Secreto, que faz referência à lenda da “perna cabeluda”. No longa, a entidade folclórica chega a ser noticiada em jornais, evidenciando como elementos do fantástico podem circular entre a cultura popular e o registro jornalístico.

Dentro desse processo, o jornalismo continua desempenhando um papel central na preservação da memória coletiva. Para Cleidiana Ramos, a atividade jornalística funciona como uma espécie de registro permanente do cotidiano. “Os grandes acontecimentos históricos não surgem do nada. Eles são resultado de pequenas situações que acontecem no dia a dia”, afirma.
Nesse sentido, o jornalismo atua registrando essas experiências aparentemente pequenas, mas que no futuro podem ajudar a compreender processos sociais mais amplos. Uma notícia breve publicada hoje pode se tornar, anos depois, uma fonte importante para historiadores e pesquisadores interessados em entender determinado período. Apesar disso, a pesquisadora observa que o jornalismo brasileiro vem enfrentando dificuldades para manter essa função narrativa, especialmente no campo da reportagem. “A reportagem é um gênero muito importante porque permite contar histórias, conectar personagens e contextualizar acontecimentos”, afirma.
Ao mesmo tempo, novas plataformas digitais têm aberto espaço para experiências jornalísticas mais diversificadas. Iniciativas independentes surgidas principalmente a partir dos anos 2000 passaram a explorar formatos e temas que nem sempre aparecem na mídia tradicional. Esses espaços permitem que personagens anônimos e experiências cotidianas ganhem visibilidade, contribuindo para a construção de novas narrativas sociais.
Cleidiana lembra que a entrevista, por exemplo, sempre foi um instrumento importante nesse processo. A professora e pesquisadora Cremilda Medina define esse momento como uma oportunidade para que vozes pouco ouvidas entrem no registro histórico. “Quando o jornalismo escuta essas pessoas e registra suas histórias, ele ajuda a construir uma memória coletiva mais plural”, afirma.
Em um cenário marcado pela presença constante de redes sociais, aplicativos de mensagem e novas tecnologias, a relação com a memória também se transforma. Para a pesquisadora, vivemos um momento paradoxal: nunca foi tão fácil registrar acontecimentos, mas ao mesmo tempo parece haver uma crescente desconfiança em relação à própria memória humana. “As pessoas registram tudo com celulares, tiram fotos, gravam vídeos, mas muitas vezes esquecem rapidamente o que viveram”, observa.
Plataformas digitais ampliaram enormemente a circulação de informação, alcançando públicos diversos e ampliando o acesso à comunicação. Por outro lado, também criaram novos desafios, como a disseminação de desinformação. Nesse contexto, o jornalismo de memória ganha ainda mais importância. “Quando uma obra como O Agente Secreto utiliza o jornalismo como parte da narrativa, ela nos lembra que a memória coletiva também se constrói a partir desses registros cotidianos”, conclui.
A aula aberta do minicurso “Mídia e Diversidade nas Encruzilhadas Culturais” acontece nesta quinta-feira (12), às 20h, no perfil @cleidianaramos no Instagram. As inscrições para o curso seguem abertas até o dia 16 de março.
Com encontros nos dias 19 e 26 de março, das 19h30 às 21h30, o minicurso será realizado em formato online pela plataforma Google Meet. Para participar, o investimento é de R$ 100 para o público geral e R$ 50 para estudantes e ativistas de movimentos sociais por meio de bolsa social. As inscrições podem ser feitas pelos formulários disponibilizados a seguir:
Formulário de inscrição – Público geral
Formulário de inscrição – Estudantes e ativistas em movimentos sociais (Necessário apresentar comprovante de matrícula se estudante ou atestado em papel timbrado de participação em organização do movimento social como ativista)
O pagamento é realizado via PIX pelo e-mail projetoiomi25@gmail.com.


