Programação da Geração FLICA, de 5 a 7 de novembro, em Cachoeira, reúne escritores, ilustradores e criadores para discutir autoria, identidade e os limites da IA na produção artística

Os impactos da inteligência artificial (IA) sobre a criação artística serão tema de debates na 14ª edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira (FLICA), realizada de 5 a 7 de novembro, no Recôncavo Baiano. A programação da Geração FLICA, espaço voltado à juventude, reunirá escritores, ilustradores, quadrinistas e criadores de conteúdo para discutir questões como autoria, identidade, criatividade e os desafios profissionais diante do avanço das novas tecnologias.
Com atividades no Cine Theatro Cachoeirano, o espaço terá mesas sobre o uso da inteligência artificial na literatura, na ilustração e na produção de histórias. A proposta é discutir como as ferramentas digitais transformam os processos criativos e quais aspectos da experiência humana permanecem fundamentais para a produção artística.
Segundo o curador Deco Lipe, a programação reúne profissionais de diferentes áreas para ampliar o debate sobre as mudanças provocadas pela IA. A intenção é colocar em diálogo experiências da literatura, do humor, da ilustração e da criação de conteúdo.
Literatura e identidade na era dos algoritmos
A abertura da programação será na quinta-feira (5), às 14h, com a mesa “(IA)gora, para onde vai a nossa imaginação?”. O encontro contará com o escritor e diretor criativo André Carvalhal, finalista do prêmio Jabuti, a poeta e escritora Sandra Liss, doutora em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e professora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), além da mediação de Breno Fernandes, escritor e coordenador do Laboratório de Inteligência Artificial do Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural da UNEB.
O debate abordará os efeitos dos algoritmos sobre a imaginação, o repertório cultural e a identidade de quem produz conteúdo. Para Carvalhal, é necessário preservar o espaço para descobertas que não sejam determinadas pelas recomendações das plataformas digitais.
“A gente precisa exercitar aquela nossa busca despretensiosa, o acaso, aquilo que nos surpreende, aquilo que a gente descobre. Todas essas coisas causam um efeito diferente na gente do que é encontrado através do algoritmo”, afirma.
O escritor também alerta para os riscos de transferir às ferramentas digitais etapas cada vez maiores do pensamento e da criação. Segundo ele, a prática da criatividade e do autoconhecimento é importante para preservar a identidade ao longo desse processo.
Escrita humana e histórias que permanecem
Na sexta-feira (6), às 16h, a mesa “Histórias que só a gente conta” discutirá as particularidades da criação literária e o que diferencia a experiência humana dos processos de geração de conteúdo por inteligência artificial.
Participam do encontro a escritora e atriz carioca Dora Freind e o artista visual, artesão, cordelista e arte-educador baiano Matheus Chão de Palha. A mediação será da educadora Catarina Neris.
Durante a atividade, Dora Freind apresentará reflexões sobre o processo de criação de seu romance As vacas não me olham mais na cara. A obra parte das fronteiras entre o humano e o animal para estabelecer relações com questões ligadas à humanidade e à robótica.
A escritora destaca o caráter intuitivo e experimental de seu processo de construção narrativa, que considera diferente da lógica de produção da inteligência artificial.
“Eu vivi um processo muito selvagem, instintivo e intuitivo para criar uma personagem que vai se gentificando ao longo da obra, o que é totalmente o oposto do que a IA faz, um processo vivo, quente e intenso. Pretendo falar sobre essa forma tão humana de contar uma história, que escapa à lógica genérica da inteligência artificial”, explica.
Outro ponto levantado por Freind é a dificuldade de criar narrativas capazes de permanecer na memória do público em meio ao consumo acelerado de informações.
“No meio de tantas coisas diferentes ao mesmo tempo, vídeos e áudios escutados na velocidade dois, nosso desafio é construir algo que não seja tão efêmero como esse momento fragmentado que estamos vivendo. Como construir algo que fica e não se dissipa no meio de um mar gigante de informações?”, questiona.
Ilustração e quadrinhos diante da inteligência artificial
No sábado (7), às 9h, a mesa “Traço, quadro e ideia: Ilustração e HQ na era da IA” reunirá profissionais das artes visuais para discutir os efeitos da tecnologia sobre a criação de imagens, a identidade artística e o mercado de trabalho.
Participam o ilustrador paraibano Paulo Moreira, vencedor de três categorias do 42º Troféu Angelo Agostini; a ilustradora baiana Isabella Ismile, criadora da página @eipretinha e da personagem Maflô, que aborda temas como autoestima e identidade negra; e o ilustrador baiano Breu, pesquisador de quadrinhos, psicólogo e estudante de Artes Visuais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). A conversa será mediada por Daniel Cesart, ilustrador, escritor, quadrinista e editor, vencedor dos troféus HQMIX de número 36 e 37.
Para Paulo Moreira, a utilização de grandes acervos de imagens disponíveis na internet para reproduzir estilos de artistas reforça a necessidade de discutir a regulamentação da inteligência artificial e a proteção do trabalho autoral.
“Acho que deve se falar como, hoje em dia, o avanço sem regulação nenhuma da IA tem afetado principalmente quem trabalha com arte, a exemplo da utilização de todo o acervo na internet de estilos de desenhos e pinturas de outros artistas para tentar simular algo feito por humano. Iremos abordar como lidamos com isso, os cuidados que devemos ter e como o trabalho humano ainda não é substituível quando se quer algo bem feito”, afirma.
A programação da Geração FLICA integra a 14ª edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira, que conta com patrocínio do Governo da Bahia, por meio do FazCultura, da Secretaria da Fazenda (Sefaz), da Secretaria de Cultura (SecultBA) e da Secretaria da Educação (SEC). O evento também integra o programa Bahia Literária, da Fundação Pedro Calmon, e tem realização da SCHOMMER Produções.
Serviço
O quê: Geração FLICA, programação sobre inteligência artificial e criação artística na FLICA 2026
Quando: 5 a 7 de novembro de 2026
Onde: Cine Theatro Cachoeirano, Cachoeira, Bahia


