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Festa do Rio Vermelho: quando a cidade aprende a escutar o mar

Foto: Lucas Leawry/Matheus Andrade

Cheguei ao Rio Vermelho achando que veria um show desses que a gente encaixa no verão como quem cumpre agenda pré-carnavalesca. Mas o que Carlinhos Brown entrega é outra coisa: uma experiência sensorial completa, do primeiro passo do cortejo ao último eco dos tambores. A música ali ganha textura, temperatura e sal; ocupa o corpo antes mesmo de ocupar o ouvido. Não é exagero dizer que, naquele 2 de fevereiro, a cidade parece operar em outra frequência: como se aprendesse, por algumas horas, a escutar o mar.

O que se vive em Salvador no dia 2 de fevereiro não cabe na prateleira do “entretenimento”. A festa de Yemanja, puxada pela Casa e Colônia de Pescadores, atravessa mais de um século e se consolidou como patrimônio cultural imaterial do município, com reconhecimento formalizado pela Fundação Gregório de Mattos. É nesse ponto que o Nordeste e a Bahia, de modo particular se reconhece: na capacidade de transformar fé em paisagem, rito em calendário, devoção em uma tecnologia social de convivência. A festa não apenas acontece na cidade; ela reorganiza a cidade.

Há um fundamento anterior a qualquer batida, e ele precisa ser dito sem folclore turístico. Yemanja não “nasce do mar” por invenção pitoresca: na tradição iorubá, sua matriz está ligada às águas rios, nascentes, desembocaduras e à ideia de maternidade ancestral, a grande mãe nutridora. No atravessamento da diáspora, essa força passa a se associar também ao oceano, num reencontro simbólico entre travessia, saudade e sobrevivência. Por isso, quando a cidade se inclina para saudar Yemanjá, o que está em jogo não é “crença” como excentricidade, mas uma forma africana de organizar o mundo: água como princípio de vida, cuidado como política, comunidade como método.

Foto: Lucas Leawry/Matheus Andrade

Talvez por isso a Festa do Rio Vermelho seja tão nordestina: porque aqui o mar não é apenas horizonte; ele é arquivo. O mar guarda nomes, guarda recomeços, guarda promessas. E a cena urbana comércio, trânsito, suor, alegria, oferendas, rezas, música se arruma em torno desse arquivo vivo, como se o bairro inteiro fosse uma espécie de altar a céu aberto. A devoção, nesse contexto, não é um detalhe: é o eixo que sustenta a convivência e que dá sentido ao excesso.

É dentro dessa gramática do rito que a Enxaguada se impõe não como apêndice, mas como costura. Ela fecha o 2 de fevereiro com um “amém” que não é cristão, mas é coletivo: um gesto público de renovação, do jeito que a Bahia sabe fazer quando junta tambor, rua e pertencimento. O cortejo com andores, alas e deslocamento pelo espaço anuncia, desde cedo, que não se trata de “assistir” a um espetáculo. A lógica é outra: a do rito. Você não fica do lado de fora; é puxada para dentro.

Quando a música entra, ela não chega limpa. Chega misturada ao vento, às conversas, ao cheiro metálico do mar batendo nas pedras, à luz do fim de tarde que vai mudando de cor como se também estivesse cantando. Eu me peguei nomeando aquilo como “qualidade musical conectada com as camadas do sol”, porque é exatamente o que acontece: a percussão adensa enquanto o céu desce do dourado para o cobre; a harmonia fica mais funda quando a noite encosta; e, de repente, fica claro que o arranjo não está só no palco está no ambiente, no corpo, na rua.

No meio desse transe lúcido, Brown faz o que poucos conseguem hoje: devolve à cidade a ideia de compositor. Não se sustenta em “letras fáceis” nem em estética de violência como atalho de audiência. Sustenta-se em conhecimento em forma de música e isso, num tempo em que parte do mainstream confunde repetição com identidade, funciona como gesto de cuidado cultural. O repertório, os encontros e as reverências soam como uma lembrança organizada: a de que a canção baiana sempre foi escola de ritmo e invenção, não apenas trilha de temporada.

E então vêm os encontros Mariene de Castro, Nelson Rufino e tantos outros nomes que carregam camadas inteiras da história do axé e de suas ramificações. Mas, para além do line-up, há uma imagem que insiste: a presença das baianas como eixo de legitimidade. Não como figurino e nem como ornamento para foto, e sim como corpo-tradição. Em festa popular, baiana é arquitetura moral: ela lembra o sentido quando o excesso tenta dominar.

Foto: Lucas Leawry/Matheus Andrade

Nesse mesmo pacote de sentidos, a festa carrega uma urgência que já não dá para tratar como nota de rodapé: meio ambiente. A Festa de Yemanjá sempre foi oferenda, presente, pedido. Mas a maturidade de um rito também se mede pela capacidade de proteger aquilo que ele reverencia. Por isso faz sentido que, nos últimos anos, cresça a insistência em práticas mais sustentáveis: orientar presentes biodegradáveis, reduzir plásticos, estimular materiais menos poluentes esses itens, não diminui a fé; refina. É pedagogia pública: se a Rainha do Mar é homenageada, o mar não pode virar lixeira simbólica. E, na Enxaguada, essa consciência não soa deslocada ela atravessa a experiência como parte do cuidado.

Há ainda um detalhe que, nesse contexto, não deve ser tratado como banalidade logística: o conforto pensado como linguagem de acolhimento. Quando a estrutura de um grande evento inclui soluções que vão do banheiro climatizado a outros elementos de organização, isso fala de cuidado enquanto experiência, sem amputar a alma do que se celebra. A Bahia sabe fazer festa e quando decide fazer com método, ela eleva o rito sem “gourmetizar” a tradição, sem deslocar o fundamento para a vitrine.

Saí com uma certeza incômoda: o momento protagonizado por Carlinhos Brown não é “só” Enxaguada. Ela é um evento que mostra reencontro com uma música que a Bahia já entregou com mais tempo, mais palavra, mais melodia e que a gente anda perdendo quando se acostuma ao empobrecimento como se fosse inevitável.

No fim, quando o último tambor bate e a noite já tomou conta do mar, fica uma memória física desta grande celebração que encerra com muita nobreza, uma lembrança que mora no corpo. Como se a cidade dissesse, baixinho, aquilo que o Nordeste inteiro entende: há festas que divertem. E há festas que nos reorganizam por dentro. A do Rio Vermelho e a Enxaguada, dentro dela pertence à segunda categoria.

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