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Festa de Santa Bárbara marca abertura do nosso calendário mágico

Foto: Bruno Concha/Secom PMS

A uma altura destas você, com certeza, já ouviu dizer que é verão porque já está quase na hora da Festa de Santa Bárbara. Além disso, possivelmente, já separou os lençois para cobrir os espelhos na espera das trovoadas; se é míope deve estar convivendo com aquele medo de ter que tirar os óculos, como geralmente a mãe te obrigava a fazer no seu tempo de criança. Também deve estar sentindo mais calor do que de costume. Você pode até não saber, mas se tomou consciência da sua relação com alguns destes elementos e hábitos pisou no território de combinação entre ocorrências físicas e climáticas, convenções e simbologia que a antropologia explica tão bem e é muito presente nas nossas festas de verão. Agora pega uma toalhinha de rosto para enxugar o suor, um geladinho de acerola ou umbu (que delícia) porque a nossa conversa vai ser um pouco densa. Vamos então a três questões muito importantes sobre o tempo no aquecimento para a Festa de Santa Bárbara.  

1. Oxe, Senhora dos Raios e do Sol também?

Pois é. Em certa medida, Santa Bárbara marca a antecipação do Verão, na Bahia. Climaticamente falando (que os linguistas e a ministra Marina Silva me perdoem pela adaptação nova de um advérbio de modo), mas a estação do calor, no Hemisfério Sul, começa mesmo é no dia 21 de dezembro. Esta certeza que acaba até invadindo nossos sentidos é um bom sinal para lembrar que o tempo é uma convenção cultural. Nas nossas experiências do cotidiano parece que tudo é tão bem marcado que o relógio aparenta estar conectado a uma ciência exata: 8 horas começamos pontualmente o turno de trabalho ou aquela reunião agendada há meses; meio-dia é hora do almoço com uma amiga; 17 horas o treino na academia e  às 22 horas o repouso para manter a pele bem saudável e a sensação de bem estar. Tudo bem. Isso    vale para nos adaptar a uma rotina, mas a festa nos leva a fazer muitas coisas, como aponta a antropóloga e professora da Ufba, Fátima Tavares, e  uma delas é desafiar essa exatidão do tempo. O verão pode começar  no dia 21 de dezembro deste mês de forma oficial, mas para a gente é dia 4, pois o calendário mágico pode perfeitamente conviver e alterar o oficial. Quer uma prova? Quanta gente vai pedir, agradecer ou mesmo só filar um caruru sem estar de folga do trabalho? É uma espécie de pacto social em que a chefa ou o chefe finge que não viu e se brincar vai estar também pegando a fila do caruru no Mercado de Santa Bárbara ou no Quartel do Corpo de Bombeiros.

2. Papo Cabeça sobre o tempo

O tempo, suas marcações e percepções são um tema constante na antropologia, especialmente para quem trabalha com festas e religião. O britânico Alfred Gell foi um dos que  se dedicaram a este estudo. Em seu livro Antropologia do Tempo, ele mostra que diferentemente do que a gente pensa, a passagem das  horas e outras unidades temporais não são algo universal ou “natural”. Estas sensações presentes em nossas expressões de linguagem, como “Esse ano voou”“Esse mês foi muito longo”,  dependem da experiência. Portanto, há muito de contexto social e experiência pessoal nesse “sentir” o tempo, segundo Gell. Já Henri Hubert (1872-1927), um estudioso muito ligado a Marcel Mauss, escreveu um texto fascinante intitulado Estudo Sumário da Representação do Tempo na Religião e na Magia. Ele também aponta essa característica convencional do tempo e sua representação social e cultural. A partir daí, Hubert se dedica a mostrar como em ambientes religiosos, principalmente, o tempo é sentido mais ou menos longo dependendo de rituais, dos calendários mágicos, ou seja, naquilo que tem importância para um rito, por exemplo. Hubert chega a apresentar uma diferença entre o tempo “sagrado” e o tempo “profano”. O primeiro é descontínuo, pois tem marcadores muito específicos, como um determinado rito; o segundo já é mais percebido de forma contínua.

3. O encerramento e o início da Roda do Tempo Festivo

E assim a Festa de Santa Bárbara, mas vale lembrar que a Festa de São Nicodemus já esteve neste lugar, inicia a nossa roda anual festiva de verão- há outras celebrações no mesmo período, mas que não entram neste calendário, como o Dia da Baiana e o Dia do Samba (olha a convenção aí de novo, afinal estas duas não estão na categoria de largo e são criações mais recentes). Este primeiro ciclo vai chegar à festa que considero nosso marco zero deste tempo mágico: o Carnaval. Este, mesmo que a gente não perceba, é o nosso Réveillon de fato. Um exemplo também presente na nossa linguagem cotidiana: “Sabe aquele projeto que a gente combinou? Pois é…depois do Carnaval, a gente conversa”. Tem atividades que até começam logo após o feriado de Ano Novo oficial, mas para valer mesmo só depois do Carnaval. E isso dá uma dimensão do quanto a festa é coisa séria e ganhou  importância estratégica na Bahia. Você duvida ainda? Pare um pouco para pensar em quanto há de negócios neste ambiente de festa: estrutura de palco, iluminação, venda de bebidas, venda de ingredientes e da comida-feijoada, rabada, churrasquinho; negócios formais e informais; indústria hoteleira; pacotes de viagens… e ainda tem aqueles inventados recentemente, como o serviço de “regar os seus pés” após a volta da praia do Rio Vermelho no retorno da oferta da rosa para Iemanjá ou do pacote com camisa e open bar para retornar pelo mar depois da caminhada para chegar no Bonfim em dia de Lavagem. Do marco zero seguiremos para outras festas e muitos negócios associados: Quaresma; Semana Santa; Páscoa; Festas Juninas; Ciclo da Independência; Agosto da Cura; Setembro dos Carurus (às vezes invadindo outubro) e chega novembro e, insisto em lembrar que, antes de Santa Bárbara, tem a homenagem para São Nicodemus, o padroeiro dos trabalhadores do Porto. Vamos então fazer a convenção de que São Nicó (é uma forma carinhosa como os devotos o chamam)  marca a passagem da última etapa – um respiro da estação anterior – para o verão chegar com força no dia de Barbinha (forma carinhosa também) e de Oyá-Iansã e Bamburucema,  suas amigas de celebração com quem divide muita coisa e é beneficiada também, como ganhar o caruru.

E é sempre bom lembrar que, no encontro, entre Santa Bárbara e Iansã, o mercado teve um papel fundamental. Nas civilizações africanas, como as do grupo nagô de quem a Bahia herdou muita coisa, Iansã é a Senhora dos Mercados e, portanto, da prosperidade e não custa lembrar um ditado que relaciona tudo isso: “Tempo também é dinheiro”. Daí mais uma lembrança de que é também hora de celebrar a alegria da fortuna. Que um ciclo se feche e outro se abra nesta roda festiva com muita sorte e prosperidade para todas e todos nós. Bom Verão e que venha o Ano Novo Carnavalesco com os bons ventos de Santa Bárbara, Bamburecema e Iansã.

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