
O Bando de Teatro Olodum, uma das mais importantes companhias negras do país, celebrou seus 35 anos de trajetória com uma programação especial nesta sexta-feira (17), às 19h, no Espaço Cultural da Barroquinha, em Salvador. O evento emocionou o público de convidados que assistiu, dentro e fora das instalações, à leitura dramatizada Zumbi Está Vivo e Continua Lutando.
Com direção geral de Lázaro Ramos e co-direção de Cássia Valle e Valdineia Soriano — artistas que integraram a montagem original há 30 anos —, a leitura contou com coreografias de José Carlos Arandiba), o Zebrinha, arranjos originais de Antônio Cícero e novos arranjos de Jarbas Bittencourt. O texto resgatou a saga do Quilombo dos Palmares e de Zumbi, evocando reflexões sobre liberdade, resistência e as heranças do racismo no Brasil. A celebração se estendeu ao Pátio Iyá Nassô, com música do grupo Samba LA e o tradicional Caruru do Bando, fortalecendo os laços culturais e afetivos que marcaram essa trajetória.
“Eu tive a oportunidade de assistir à primeira peça do Bando de Teatro Olodum e, desde então, acompanho toda a sua trajetória. É uma presença fundamental na cena cultural e teatral da Bahia, ampliando a expressividade e a história negra nessa arte tão importante que é a arte cênica. O Bando é um pioneiro que tem dado uma contribuição preciosa para o país, e acho que devemos festejar seus 35 anos já pensando nos próximos 35. Longevidade, continuidade, fortalecimento e expansão — é o que o Bando de Teatro Olodum representa para toda a sociedade brasileira”, afirmou Samuel Vida, ogan de Xangô do Terreiro do Cobre em Salvador, coordenador do Afro Gabinete de Articulação Institucional e Jurídica (Aganju), professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia e coordenador do Programa Direito e Relações Raciais (PDRR-UFBA).
O Bando de Teatro Olodum nasceu em Salvador, em 17 de outubro de 1990, como resultado de uma parceria entre o diretor Márcio Meirelles e o Grupo Cultural Olodum. Composto por atores negros, o grupo é considerado uma das companhias mais estáveis e populares do teatro baiano. O nome já indica seu caráter combativo e afirmativo: “bando” designava a reunião de africanos escravizados que se organizavam para fugir para os quilombos, enquanto “Olodum” veio emprestado do bloco carnavalesco de resistência negra.
“O Bando de Teatro Olodum é fundamental por transformar o palco, a cena artística e o cinema produzido na Bahia, trazendo assuntos que ainda são muito caros para a nossa negritude e inspirando a reocupar o imaginário coletivo. Com certeza, essa geração atual vai alcançar outras referências e possibilidades de caminhos. O Bando existe há três décadas e meia fazendo um trabalho fundamental para minha vida profissional e pessoal. É uma referência para o mundo artístico. Vida longa ao Bando, amo!”, declarou a jornalista e apresentadora baiana Vânia Dias, do programa Bem Bahia.
O processo colaborativo do Bando foi a forma encontrada pelo grupo para enriquecer a criação artística e favorecer a diversidade de perspectivas sobre as questões representadas no palco, ampliando o raio de atuação do artista negro. Nesse sistema, o ator torna-se co-criador tanto do texto quanto do espetáculo — seja contribuindo com a dramaturgia por meio de improvisações, seja com ideias de cena ou com a execução técnica. As funções artísticas (direção, dramaturgia, concepção cênica, figurino) são preservadas, e cada responsável tem autonomia para costurar as contribuições surgidas em ensaio, conferindo harmonia ao trabalho coletivo.
“Eu acho que a máxima é a de sempre: acreditar que nossos passos vêm de longe, reverenciando e entendendo nossa ancestralidade. A gente aprende e reaprende com os nossos a cada dia, a todo momento, e agradece à ancestralidade por poder viver isso. Eu costumo dizer que o Bando é o documento do momento. Se, daqui a alguns anos, algum pesquisador perceber, vai ver que o Bando há 35 anos conta as histórias que o Brasil vai construindo e refazendo. A todo momento contamos e recontamos uma história. É importante respeitar os passos que vieram antes, nossos mais velhos, e também quem virá. Com certeza esse bastão será passado — e a gente segue com fé nessa rapaziada”, afirmou a atriz, diretora teatral e escritora Cássia Valle.
A relevância artística e histórica do Bando de Teatro Olodum é atestada não apenas pelo público fiel e em expansão que o acompanha há mais de três décadas, mas também pela crítica especializada. Há livros, teses, dissertações, ensaios, artigos e trabalhos acadêmicos apresentados e publicados em eventos nacionais e internacionais sobre a atividade do grupo.
“Passa um filme na nossa cabeça nestes 35 anos do Bando de Teatro Olodum. Ouvir essa leitura de Zumbi é voltar no tempo, já que o Bando é a escola de todos nós, de todo o teatro baiano. Fomos formados, letrados, vivemos essa história e a constituição desse grupo, que é parte radical do que é o teatro baiano e brasileiro. Ver o Bando hoje e pensar retrospectivamente é vê-lo como um filho do teatro experimental negro. Somos filhos e netos dessa experiência e testemunhamos como o Bando influenciou de forma definitiva e radical a cena contemporânea brasileira, abrindo portas para novos grupos de teatro negro, para a performance negra e para um debate não apenas racial, mas também estético, ético, poético e político”, comemorou Maria Marighella, presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte).
Com muito samba do grupo Samba LA e um delicioso caruru servido ao público, os membros do Bando de Teatro Olodum celebraram sua resistência, inspirada pela cultura negra baiana — absorvendo dela a religiosidade, o caráter festivo e popular, a dança, os ritmos, os instrumentos percussivos, a memória ancestral, a estética corporal, as formas de resistência e a ênfase no registro oral da língua.
“O Bando de Teatro Olodum é referência rítmica para nós do grupo Samba LA. Estamos aqui comemorando os 35 anos desse grupo que também é nossa referência, com muito samba, a convite do nosso amigo Fábio Santana. O Samba LA existe há apenas quatro anos e, para nós, é uma honra fazer parte dessa festa que celebra nossa cultura e nossas raízes. A batida do Olodum e do Ilê Aiyê sempre foram referências para mim, já que sou nascido e criado entre o bairro da Suburbana e o da Liberdade, aqui em Salvador. Desde os 12 anos, quando comecei a tocar no grupo Meninos Urbanos, com tambores feitos de latas de tinta e tonéis, minhas referências sempre foram alimentadas pela musicalidade das nossas matrizes africanas, em espaços como este, no Pelourinho”, relembrou o cantor baiano Léo Araújo, vocalista do grupo Samba LA.
Texto por: Patrícia Bernardes Sousa – jornalista, redatora, colunista, mobilizadora de projetos de Impacto Social em Educação, Letramento e Cultura Identitária e repórter colaboradora do Portal Umbu.


