Entre o cheiro de dendê, o som do atabaque e o samba nascido no chão de terra dos terreiros das religiões de matrizes africanas, o espetáculo infantojuvenil musicado “Fala, Ìbejì” estreia temporada em Salvador levando arte, fé e brincadeira para as ruas da cidade. Uma realização da COOXIA Coletivo Teatral com produção da DAGENTE Produções, o espetáculo circula por praças públicas de Salvador entre os dias 27 de março e 12 de abril.

Integrando o projeto “Dupla de Dois: experimento gastronômico-performativo para as infâncias”, a montagem será apresentada gratuitamente na Ribeira (Largo do Papagaio, 27 e 28 de março), Cajazeiras (Campo da Pronaica, 30 e 31 de março), Subúrbio Ferroviário (Praça São Brás, 01 e 02 de abril) e Centro Histórico (Largo do Campo Grande/Praça Dois de Julho, de 04 a 12 de abril), reafirmando o teatro de rua como gesto de encontro e celebração coletiva. (Conferir a programação total no SERVIÇO). Vale realçar que, o espetáculo é bilíngue — ou mesmo trilíngue — integrando português, Libras e yorubá.
Com direção de Guilherme Hunder e dramaturgia de Luiz Antônio Sena Jr., a obra – primeira parceria entre os dois multiartistas nestas funções – dá continuidade a uma pesquisa cênica afrocentrada de ambos dedicada às infâncias, à tradição oral e às pedagogias do terreiro. “Fala, Ìbejì!” é festa, é rito, é rua — é memória ancestral transformada em celebração contemporânea.
A montagem costura elementos do candomblé, da cultura popular nordestina e das festas de Cosme e Damião, abordando também o sincretismo religioso como estratégia histórica de resistência. A encenação incorpora a LIBRAS como parte da própria cena, integradas à performance do elenco, formado por Anderson Danttas, Ane Ventura, Fernanda Silva, Gabriel Nafisi e Larissa Libório.
Mito ancestral, favela contemporânea
A dramaturgia é livremente inspirada em itans da tradição iorubá, especialmente em narrativas que giram em torno dos Ìbejì, os orixás gêmeos. A história os desloca para o contexto de um terreiro situado em uma comunidade periférica, onde fé, arte e resistência caminham lado a lado. A trama se desenvolve na casa de Mãe Mainha, uma matriarca respeitada, enquanto todos se preparam para o caruru em homenagem aos gêmeos. No entanto, a chegada da Morte, chamada apenas de “Ela”, pois seu nome não deve ser pronunciado, ameaça interromper a celebração e silenciar a festa. Assim, entre cantos, memórias e rituais, a comunidade se vê diante do desafio de proteger a vida, a alegria e a ancestralidade que o caruru celebra.
Entre risadas e mistérios, a meninada — Menino, Menina, Guri e Erê — percebe que será preciso coragem, união e muita brincadeira para enfrentá-la. Afinal, “essa danada não pode estragar a festa!”. As crianças com a ajuda de Mãe Mainha lançam o desafio: ela só poderá ficar no Caruru se conseguir dançar até o tambor parar — o que nunca acontece, já que os irmãos se revezam na batida e, por serem gêmeos, não percebe que está sendo enganada.
Em “Fala, Ìbejì”, brincar é também rezar, cozinhar é ato de memória, e dançar é estratégia de sobrevivência. Pois, “Resistir é também reinventar caminhos para a fé continuar dançando”. Hunder destaca que “falar de ancestralidade para crianças é também garantir a continuidade das nossas histórias. Elas recebem, guardam e levam adiante a herança cultural e espiritual dos povos afro-diaspóricos. Quando levamos essas narrativas para a cena afirmamos as nossas identidades e que elas continuem vivas”.
No espetáculo, a relação com a Morte é um subterfúgio para falar sobretudo a respeito de tradição, memória e continuidade. “Nosso maior interesse é abordar a tradição do caruru, que vem se perdendo entre as crianças, exaltando as tradições da afrodiáspora que constituem nossa cultura, e falar sobre a morte, que ainda é um tema tabu na infância”, revela Luiz Antônio Sena Jr..
Teatro de rua como território de pertencimento
Concebido desde o início como um espetáculo de rua, “Fala, Ìbejì” adota uma estrutura que privilegia o diálogo direto com o público e um espaço cênico não frontal. A encenação valoriza a circularidade característica das matrizes afro-diaspóricas, aproximando intérpretes e espectadores e transformando a plateia em parte ativa da experiência. Ao longo da apresentação, o público é convidado a participar: canta, responde a enigmas, bate palmas e se envolve na brincadeira ritual que ajuda a colocar a Morte para dançar.
Toda a visualidade do espetáculo – cenário e figurino – tem como referência simbólica as feiras populares, berços de cultura viva. O terreiro é casa, quintal e salão de memórias ancestrais. A cenografia concebida por Erick Saboya soma-se aos acessórios de cena concebidos por Elis Brito e aos figurinos concebidos pelo diretor, Guilherme Hunder.
Caixotes plásticos de feira, panelas e bacias de ferro, sacolas de palhas e utensílios domésticos, são alguns dos elementos. Os figurinos dialogam com sacos de feira, quiabos e tecidos coloridos, mesclando tradição e urbanidade numa paleta que une os tons do dendê às cores vibrantes da cidade.
Música que conduz a cena
As composições inéditas são de Ray Gouveia, que ao lado de Felipe Pires também assina a direção musical. As letras são de Luiz Antônio Sena Jr.. A trilha tem como concepção poética os ritmos afro-brasileiros. O samba ancestral de terreiro, o pagode baiano e os atabaques dialogam com a pulsação urbana dos beats eletrônicos, criando uma musicalidade híbrida, orgânica e dançante. A música não somente ambienta: é a onda sonora que conduz a narrativa, provoca a ação, dramaturgia que contagia, que leva a dança e sustenta o enfrentamento simbólico da morte pela alegria coletiva.
Gastronomia Criativa
Como parte do processo criativo da encenação e da dramaturgia, o projeto Dupla de Dois tem realizado a Oficina de Teatro Afro Gastronômico, aproximando arte, culinária e memória ancestral, além de fortalecer o vínculo com os territórios, moradores e, principalmente, escolas por onde o espetáculo irá circular – Cajazeiras, Subúrbio Ferroviário, Ribeira e Centro Histórico.
As oficinas integram o eixo de mediação artística do projeto e já foram realizadas duas edições no Subúrbio Ferroviário (na Escola Municipal Santa Terezinha) e Ribeira (Escola Municipal Simões Filhos), e são mediadas pelos atuantes do espetáculo, com supervisão pedagógica de Silara Aguiar. As próximas edições ocorrem na comunidade da Gamboa (Centro) e em Cajazeiras.
A metodologia parte da preparação simbólica do caruru: cada ingrediente é associado a um elemento do teatro. Os quiabos representam os atores; a cebola simboliza as emoções e portanto a interpretação; os camarões correspondem ao figurino; e o dendê representa a iluminação. O prato finalizado torna-se metáfora do espetáculo completo — resultado da combinação de diferentes elementos e saberes.
O ciclo formativo se estrutura em três etapas: preparação (oficinas), fruição (apresentação do espetáculo) e reflexão (roda de conversa em sala de aula). Dessa forma, a criança não apenas assiste à obra, mas participa de seu processo simbólico de construção, fortalecendo o protagonismo infantil e estimulando pensamento crítico, pertencimento cultural e autoestima das infâncias negras.
O projeto “Dupla de Dois: experimento gastronômico-performativo para as infâncias” foi contemplado pelo edital Chamadão das Artes Cênicas, com recursos financeiros da Fundação Gregório de Mattos, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, Prefeitura de Salvador.
Agenda de estreia – Temporada 2026
Ribeira
Largo do Papagaio
• 27/03/2026 (sexta-feira), às 15h
• 28/03/2026 (sábado), às 16h
Cajazeiras
Campo da Pronaica
• 30 e 31/03/2026 (segunda e terça-feira), às 15h
Subúrbio Ferroviário – Plataforma
Praça São Brás
• 01/04/2026 (quarta-feira), às 15h
• 02/04/2026 (quinta-feira), às 16h
Centro Histórico
Largo do Campo Grande (Praça Dois de Julho)
• 04 a 12/04/2026
(quintas e sextas, às 15h | sábados e domingos, às 16h)


