
Carnaval concluído, é hora do ano realmente começar para nós, baianas e baianos. Não sinta culpa porque, na verdade, é apenas a festa fazendo valer um dos seus poderes sobre nós, ou seja, um calendário mágico pressionando o calendário oficial. E, durante o Carnaval, quem não imaginou que chegaríamos a esse primeiro dia da nossa roda do ano festivo – o Carnaval é apenas o marco zero, pois vamos agora em sequência para Semana Santa, Festa Junina etc. – com a tal da discussão de qual foi a música do Carnaval. Mas estamos é de queixo caído com as tretas por conta de um outro elemento que a festa mobiliza de várias formas: o espaço. Então, pega aquela água de coco bem geladinha, dá uma respirada e vamos de fuxico temperado com papo sério.

1.Tira o pé da chão que lá vem histórias de tretas
Tudo começou com a decisão de uma das soberanas da festa, Dona Daniela Mercury, a Primeira do Seu nome, que, ao recorrer à Justiça para iniciar os desfiles na Barra, ensaiou um “Dracarys”, semelhante aos da nossa eterna musa poderosa em todo o Westeros e terras nerds e geeks, Daenerys Targaryen.

Daniela, que invocou como caminho de trabalho neste carnaval as Padilhas – uma das forças femininas poderosas das ruas nas culturas religiosas afro-brasileira, como a umbanda -, com esta medida iniciou o debate sobre a polêmica já há alguns anos fila de desfiles no Carnaval. Antes essa discussão era no Circuito Osmar (Campo Grande), mas com o sucesso do Circuito Dodô as tretas nesta linha seguiram para lá.
Poderosa na sua habilidade de cantar e dançar naquele espaço mínimo da frente do trio – uma pausa para dizer que a criatura broca mesmo – ela ganhou liminar e botou ainda mais lenha na fogueira para embalar os bastidores de quem sai antes de quem nos desfiles e, que não é de hoje motivo de muita treta, correria, gritaria e fuxicos babadeiros com lances mais impactantes que a disputa pelo trono de ferro de Game Of Thrones, a saga de R.R. Martin, de onde saiu a poderosa Daenerys.
La Mercury, com a liminar, atraiu a irritação do poderoso Comcar. Logo, em seguida, a liminar caiu, ela ficou sem o lugar na fila, mas essas forças da própria festa lhe fizeram outra forma de justiça mostrando que esse negócio de quem sai na frente de quem não é assunto encerrado: primeiro foi a reclamação de Bell para cima do Olodum e, no dia seguinte, lá veio uma reedição do entrevero dele com o afoxé Filhos de Gandhy que reclamou de atraso. Bell retrucou de forma, digamos, britânica, afirmando que ainda tinha sete minutos. Ah, se fosse assim cronometrado como é no futebol este tempo de Carnaval… mas não é. E quando a turma do deixa disso respirou aliviada, afinal, há 20 anos, a treta entre Filhos de Gandhy e Bell, ainda na banda Chiclete com Banana, alcançou decibéis bem mais altos, lá veio mais treta. Com quem? Quem? Daniela Mercury, na Barra, de novo!

Era pra Daniela sair depois de Carla Visi, mas aí o trio da cantora quebrou e, segundo a maioria das versões, o trio do Psirico passou no vácuo e atrasou a Rainha. Tensão, agonia, arerê, mas lá foi Daniela em toda a sua majestade. Reclamou, afinal não dá para perder a pose de soberana no circuito que ela reivindica e, com razão, o pioneirismo de atrair visibilidade, deu um leve puxão de orelhas nos coleguinhas da Psirico, recebeu de voltas elogios em forma de afagos do líder da turma, Márcio Victor, e aí estamos aqui já imaginando os novos contornos dessa história para além da Quarta-Feira de Cinzas ou entrar em remissão até o próximo Carnaval…
2. Uma lição do mestre Milton Santos
Milton Santos, o grande intelectual baiano que revolucionou o estudo da geografia, nos ensinou que o espaço não se limita ao que ele ocupa como forma física. Um espaço ou um território está marcado pelo seu uso, as relações sociais que nele ocorrem, ou seja, o que articula de questões cotidianas, mas também simbólicas. Um circuito de Carnaval ganha uma dimensão que, no dia a dia, ele tem apenas como via de mobilidade, mas aí em uma festa como essa transforma-se em um lugar com outros significados, como local oficial e regulamentado da celebração.
Para tentar ser mais explícita: entrar no Circuito Osmar às 19 horas de terça não tem o mesmo peso que estar nele às 13 horas. Neste horário, as principais atrações já passaram pelo Circuito e, neste horário, nesta edição de 2026, por exemplo, na Barra, era possível encontrar Léo Santana e Timbalada, ou seja, a mobilidade midiática e de público estava toda voltada para o circuito vizinho, ou seja, as chances maiores de aparecer nas TVs, nos sites e nos registros do Instagram.
Os circuitos de Carnaval, nos últimos anos, têm sido gerenciados, aparentemente, por uma tentativa de organizar o fluxo de pessoas, especialmente aquelas que estão fora das acomodações oficiais, como blocos com cordas e camarotes. É aquela categoria chamada de “pipoca”. Com a queda de negócios nos blocos de trio, inclusive pelos investimentos de mais artistas no agora mais rentável modelo de trio independente, pois ela ou ele capta diretamente os recursos, sem muitos intermediários, esse grupo de festeiros aumentou exponencialmente em número. E isso sem diminuir a outra demanda que é a de mais artistas, inclusive de outros ritmos, que correm para ao menos um dia faturar no Carnaval soteropolitano: e aí tem Anitta, sertanejo universitário, ou como dizia meu grande mestre Roberto Albergaria, emerge um Carnaval cada vez mais em estilo festival. E ainda tem a multidão de famosos de várias categorias nos camarotes, hoje bem menos do que nos anos 2000 quando o cachê era, ao que se dizia, satisfatório mesmo. Ainda assim há muito dinheiro circulando via a exposição de marcas que consideram a visibilidade destes locais bons investimentos.
Portanto, sair em horário X do que no Y é briga realmente de foice. E criar circuito não parece ser uma saída. Quem vai deixar um espaço super consolidado como o Barra-Ondina, com todas estas variáveis – camarotes, artistas de visibilidade nacional e internacional, disputa de marcas para aparecer nas transmissões, principalmente as dos famosos “ao vivo” -, para ir se aventurar em um novo espaço? Daniela Mercury foi há 30 anos, mas será que agora tem alguém com força experimental para tanto? Vale ressaltar que no período em que ela se mandou com o seu bloco para a Barra estava começando a entrada da axé music em uma esfera, digamos, mais “pop” e Daniela alçava voos no mercado nacional com performance de artistas do segmento no período – coreografia, melodias mais independentes do estilo “trio elético” e, óbvio, videoclipes no estilo daquela época.
Mas vai que…apostas na mesa…

3. Um novo circuito?
É bem possível que a saída apareça com a criação de um novo circuito. Eu, particularmente, não vejo futuro em um novo local onde vai acontecer a mistura de estios musicais diferentes e agremiações com propostas bem divergentes, como acontece agora na Barra. Talvez, tenha sentido, se for algo no estilo da proposta interessante de Carlinhos Brown elaborada e viabilizada há alguns com o nome de Afrodrómo, um espaço para que a diversidade do Carnaval, em sua maioria significativa dada por entidades negras, tivesse maior visibilidade. A proposta não durou quase nada, mas era, em tese, bem legal, ou seja, oferecer um Carnaval, digamos, “diferenciado”, especialmente para quem está em busca de variedade e para além da sequência de músicas iguais, figurino super parecido, estilos artísticos idem…enfim…teremos aí mais 365 dias para saber se este assunto ganha força ou se vai aguardar a próxima treta.
Aproveito para desejar a todas e todos um bom Novo Ano Baiano. E que nesse início da nossa nova roda festiva tenhamos motivos para festejar muito!



