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Entre o dendê e o bacalhau: como a Bahia deu sabor próprio à Sexta-Feira Santa

Enquanto tradição portuguesa consolidou o peixe salgado como símbolo da data no Brasil, influência africana transformou o cardápio baiano e ressignificou a celebração católica

Foto: Reprodução

Na maior parte do Brasil, a Sexta-Feira Santa é marcada por mesas que seguem tradições herdadas de Portugal, com pratos à base de peixe e o protagonismo do bacalhau. Na Bahia, porém, o cenário é outro: receitas preparadas com azeite de dendê ganham destaque e imprimem identidade própria à celebração. A diferença convida a uma reflexão sobre como esses costumes se tornaram distintos e deram um sabor único à data no estado, mesmo mantendo o peixe como elemento central.

A explicação passa por processos históricos que remontam à formação do próprio catolicismo. A prática de jejum e abstinência existe desde os primeiros séculos do cristianismo e foi sistematizada ao longo da Idade Média, especialmente entre os séculos XII e XV, quando a Igreja Católica estruturou o calendário religioso. Nesse contexto, o peixe foi incorporado como alternativa alimentar à carne vermelha em datas como a Sexta-Feira Santa.

Em Portugal, o bacalhau ganhou importância a partir do século XV, durante o período das grandes navegações. Conservado em sal, o alimento era ideal para longas viagens marítimas e acabou se tornando base da alimentação. Com a colonização do Brasil, a partir de 1500, o costume foi introduzido na colônia e se consolidou sobretudo a partir do século XIX, com a chegada da corte portuguesa e a difusão de hábitos alimentares da metrópole.

Ao longo do tempo, o prato atravessou gerações e se firmou como símbolo da Semana Santa em diversas regiões do país, associado à tradição familiar e aos preceitos religiosos.

Foto: Reprodução

Na Bahia, entretanto, a formação cultural seguiu outro percurso. A presença do azeite de dendê remonta ao período colonial, especialmente entre os séculos XVI e XVIII, com a chegada de populações africanas escravizadas que trouxeram ingredientes, técnicas e significados próprios para a culinária. Inicialmente restrito às comunidades negras, o uso do dendê foi ganhando espaço na alimentação cotidiana e, com o passar do tempo, ultrapassou barreiras sociais. Em regiões como Recôncavo Baiano, onde a presença africana historicamente se concentrou com mais intensidade, e no Baixo Sul, onde fica localizada a Costa do Dendê, famosa pelo cultivo do dendê, esses pratos se consolidaram como base da alimentação e das celebrações religiosas, incluindo a Semana Santa.

A incorporação dessas comidas à celebração da Semana Santa não ocorreu de forma imediata, mas foi se consolidando entre os séculos XIX e XX, à medida que a culinária afro-baiana se afirmava como expressão de identidade regional. Pratos como moqueca, vatapá e caruru passaram a ocupar as mesas durante a Sexta-Feira Santa, reinterpretando o cardápio tradicional. Mesmo com a manutenção do costume católico de evitar carne vermelha, o peixe é preparado com dendê, leite de coco e temperos característicos, resultando em sabores distintos daqueles observados em outras partes do país.

Para além de mera troca culinária, o processo reflete a relação cultural e religiosa estabelecida na Bahia, desde elementos das tradições africanas que foram incorporados ao cotidiano católico, até ritos que transcendem a religiosidade e se tornam costume. Não há exemplo mais expressivo que comer pratos feitos no azeite de dendê às sextas-feiras, hábito soteropolitano com raízes que surgiram do hibridismo cultural, em que diferentes matrizes coexistem.

Hoje, o resultado é uma mesa que preserva o princípio religioso da abstinência, mas só até certo ponto. Embora o peixe permaneça como ponto de convergência entre diferentes regiões do Brasil, é na forma de preparo que as diferenças se revelam. Na Bahia, o dendê colore e aromatiza os pratos ao mesmo tempo em que reafirma uma herança cultural construída ao longo de séculos, transformando a tradição da Sexta-Feira Santa em uma expressão viva de memória, pertencimento e identidade.

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