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Portal UMBU

Entre algoritmos e coerência

Passei o ano todo sem escrever. Simplesmente não estava com vontade. Passei dias me perguntando: por que escrever, se todos acreditam que ninguém mais lê?

Participo de clubes do livro e, às vezes, no meio das conversas, me pego pensando que somos pessoas estranhas que se reúnem para falar de livros, trocar dicas de leitura e, em alguns casos, sonhar com a coragem de publicar um romance.

Tentei migrar para o Substack, achando que seria um espaço mais livre, sem tantas regras. Mas logo perdi o tesão por mais uma plataforma em que é preciso usar fórmulas para driblar algoritmos. Dizem que lá tudo é permitido, ainda assim, desconfiei. Gingi. Gosto mesmo é de receber as newsletters das comunidades de leitura e escrita que acompanho.

Só de pensar em montar um cronograma de postagens já me sinto cansada. O mundo parece ter entendido que não há mais razão para escrever. E, para completar, há quem acredite que basta assinar uma IA generativa para resolver tudo. Todos os textos prontos, com palavras-chave calibradas para engajamento e curtidas garantidas, seja no LinkedIn, no Substack ou no Instagram.

Em uma tarde qualquer, cansada da vida e sem paciência para ler – abduzida pelo scroll das vidas perfeitas que piscavam na minha tela – resolvi sair das redes (nada) sociais e procurar o que a IA sabia sobre mim. Fiz esse teste uma vez no Google, mas agora quis ver o que apareceria ali.

O resultado? Uma descrição que dizia que sou baiana, feminista e mãe de dois. Pedi para ela ir além. Segui as dicas de amigos sobre “prompts corretos” e descobri que sou sócia da Umbu Comunicação & Cultura, que já apresentei o Umbu Podcast, que administro um portal de notícias em Salvador, que escrevo para o Soteropreta e para a ABMP. Que acredito em comunicação democrática, inclusiva e antirracista.

Vieram muitos links de entrevistas antigas, sobre o podcast e os Encontros Negros. A maioria das informações está desatualizada,  não escrevo para o Soteropreta nem para a ABMP há pelo menos um ano.

Pensei em perguntar à IA se essas informações têm algum valor simbólico para a sociedade. Mas não tive coragem. Estamos em novembro, e a resposta poderia ser enviesada. Prefiro ficar com a realidade nua e crua: a de que discurso antirracista sem atitude não vale de nada.

Desde 2022, a maioria das empresas privadas deixou de investir em diversidade. Seus compromissos com a equidade seguem no papel, enquanto na prática a manutenção dessas ações ainda incomoda os que acreditam que ver uma pessoa negra em destaque significa perder privilégios.

Foi um ano intenso. Encontrei muitas pessoas, dei muitos abraços, vivi conquistas importantes. Mas também encarei olhares tortos, fofocas e a velha ladainha de que sou “uma preta muito ousada”. Escuto isso desde criança, e percebo que até para insultar não há novidade. A branquitude repete os mesmos gestos e, infelizmente, mantém os mesmos resultados. Às vezes, mexe até com nossa saúde mental.

Chego ao fim de 2025 com uma certeza: coerência é a minha palavra do ano. Não sou um dicionário desses que escolhem o “termo mais importante”, mas sei quem sou, o que represento e o que é inegociável na minha existência. Busco coerência entre discurso e prática. Tenho dificuldade de viver com dissonância cognitiva, mas confesso que tentei, em setembro.

Acordei, levei as crianças à escola e fiquei imaginando como seria o meu dia se eu fosse um homem branco, soteropolitano, morador de um bairro nobre, com amigos de infância que hoje são meus parceiros de negócios. Não consegui nem transformar essa fantasia em conto: a reunião da tarde foi dura, cheia de sorrisos educados e indiretas sobre a necessidade de “ajustar meus produtos”. Entendi o recado e, por um instante, quis ser aquele homem branco que teria saído dali com contratos assinados e novas piadas no repertório.

A IA não alcança certas dores. Não entende a arte de driblar o “não”, nem o alívio de dormir agradecendo por mais um dia, acreditando que o sol trará novos caminhos. Ela é rasa quando fala de mim, mas sei que o que ela mostra sobre mim e sobre minha empresa pode determinar se um projeto será avaliado ou não.

É novembro. Salvador é negra. As discussões sobre colorismo e influenciadoras que “falam sobre nós” se multiplicam. Em quinze dias será dezembro. A cor da minha pele e os desafios continuarão os mesmos.

Espero apenas que, da próxima vez que a IA me pesquisar, encontre novas informações, e que o meu ato de escrever e ler volte a ter valor, não só em novembro, quando o calendário manda falar sobre negritude, mas o ano todo.

Tentei fazer um texto pequeno, mas, como falo muito, escrevo muito também. Vou colocar esse texto no grupo da família e pedir para meus tios e tias abrirem o link e rolarem até o fim, vai que, na semana seguinte, os números do portal crescem e a IA registra que escrevo para o Portal Umbu, participo de clubes do livro e ainda tenho tempo de me tornar escritora.

Quem sabe até lá apareça no relatório: “Mirtes Santa Rosa teve aumento de buscas no mês de novembro.”

P.S.: O recorte de audiência e alcance para o meu futuro mídia kit, caso eu me torne uma mulher de valor que escreve e administra uma empresa de sucesso, precisa ser sempre o de novembro. É o único mês em que talvez uma mulher negra, antirracista e que acredita na democracia tenha alguma chance de ser considerada relevante.

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Jailma Sena
Jailma Sena
3 meses atrás

Belas palavras! Parabéns, você trabalha para que um dia a história seja outra.

Lívia Rezende
Lívia Rezende
3 meses atrás

Texto extremamente necessário. Incrível!

Lucia Correia lima
Lucia Correia lima
3 meses atrás

Poxa. Na primeira vez que encontro seu texto. Só deu para uma leitura dinâmica. Achei longo. Hoje voltei a ele e li tudo de boa. Fui ao Google por três momentos. Saber o de mesmo comprimento sobre scroll; dissonância cognitiva e logaritmo. Depois, saber que nossa luta contra o racismo é muito longa, para muitas gerações…

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