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Enem: Estudantes apontam estereótipo racista em charge presente em prova deste domingo (12)

Questão de raciocínio lógico trouxe pessoas negras representadas com traços comuns a publicações de escárnio da população negra

O segundo dia de realização do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), neste domingo (12), provocou discussões que foram além dos cálculos comuns às ciências exatas. Abordando Matemática, Ciências da Natureza (Física, Química e Biologia) e as suas tecnologias, uma questão chamou a atenção dos participantes por sua evocação a um estereótipo racista.

A questão 179, no caderno azul, ou 168, no caderno amarelo, trazia um enunciado que abordava a diversidade cultural e pedia o uso do raciocínio lógico para sua resolução. No entanto, o que provocou discussões nas redes sociais foi o uso de uma charge na qual indivíduos negros eram retratados com características muito similares às de ilustrações racistas dos anos 1920.

A representação de pessoas negras com lábios brancos, barriga descolorida e em vestes de povos tradicionais que remetem à compreensão ocidental de selvageria, além do uso de verbetes desconexos para realçar a ideia de anormalidade, também foi questionada por outros usuários de redes sociais, como o X, antigo Twitter, por apresentar contradição do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), responsável pela elaboração e aplicação da prova, que trouxe temas sociais para reflexão no primeiro dia de aplicação do ENEM.

(A História da Jazz Band em duas imagens: Antigamente, no “país das bananas”, os brancos, para se distrair, faziam os negros dançarem. Mas hoje… [veja-se a última capa]Hoje, no “país das peras”, os negros, para enriquecer, fazem os brancos dançarem. LA VIE PARISIENNE, n. 32, ago, 1921.)

(Loureiro. A asneira do moleque Benjamim. Legenda: Mamãe: “Moleque! Apanha pra não seres avoado quando eu te mandar comprar pó de arroz e pra não trazeres imitações e sim, o legítimo Pó de Arroz. Lady.” Benjamim: “Ahn! Ahn! …A caxa e o rotu tava paricido…”Chiquinho: _ “Bem feito! Tava ‘paricido’ porque tu não enxergas direito. O Pó de Arroz lady é o melhor e não é mais caro. Chucha, moleque!” O Malho, Rio de Janeiro, Editora Pimenta de Mello, ano XVIII n. 883, 16 ago.1919, p.2)

(O Charleston Selvagens…Civilizados! FROU-FROU, Rio de Janeiro, n. 36, mai., 1926.)

A ilustração, cuja autoria ainda não foi divulgada, remete a figuras que marcaram presença em publicações como “O Malho” e “Careta”, revistas que já circulavam em cidades brasileiras na primeira metade do XX. Com base em teorias do racismo científico, os periódicos traziam em suas capas e em seu interior, ilustrações inspiradas em Jim Crow, personagem estadunidense que representou a segregação racial e a animalização de pessoas pretas no país norte-americano.

(O MALHO, Rio de Janeiro, n. 1152, out. 1924. O Primeiro “Jazz-Band” Colombo – Ó Cardoso, pede-lhes para tocar um “fox-trot”.)

Essa representação animalizada e com finalidade escarnecedora é chamada de “racismo caricatural”, um braço do racismo recreativo – tema debatido amplamente pelo advogado e professor Adilson Moreira. Ilustrações do tipo apareciam, recorrentemente, em peças publicitárias pró-segregação racial e estavam relacionadas à iniciativas higienistas, colonialistas e imperialistas.

Apesar dos questionamentos de estudantes nas redes sociais, até o fechamento desta matéria, nem o INEP, nem o Ministério da Educação (MEC) se posicionaram publicamente sobre o assunto. O Portal Umbu telefonou para um dos canais de atendimento do Instituto, mas não foi atendido.

Esta matéria contou com imagens e informações presentes na pesquisa “Entre a negrofilia e a negrofobia: caricaturas dos anos 1920 em perspectiva transnacional” (2022), de Marissa Gorberg (Fundação Getúlio Vargas), e na publicação “Racismo na caricatura brasileira”, de Flavio Pessoa.

Foto: Reprodução/Beatriz Puglieze/X

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