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Educação racial e literatura: o papel transformador da Biblioteca Comunitária Carolina Maria de Jesus em São Caetano

Iniciativa ligada ao Instituto Princesa Anastácia nasceu durante a pandemia e hoje é referência em literatura afro-brasileira e educação comunitária em Salvador

Biblioteca Comunitária Carolina Maria de Jesus está localizada no bairro de São Caetano | Foto: Instagram/@institutoprincesaanastacia/Reprodução

Transformar vidas por meio da educação racial de crianças e adolescentes é o propósito que move a Biblioteca Comunitária Carolina Maria de Jesus, instalada no bairro de São Caetano, em Salvador. O espaço surgiu durante a pandemia da Covid-19, dentro do Instituto Comunitário Princesa Anastácia, e se tornou uma das principais referências em literatura afro-brasileira na cidade.

Idealizada pela assistente social Doranei Alves, a biblioteca é fruto de um projeto coletivo de mulheres da comunidade que, desde 2011, vêm construindo o Instituto com foco em educação, cidadania e cultura. Durante a pandemia, o grupo encontrou na literatura uma forma de resistência e saúde mental e, a partir daí, nasceu um acervo que hoje reúne cerca de mil exemplares, com destaque para obras de autores e autoras negras e livros sobre religiões de matriz africana.

Doranei Alves (à esquerda), idealizadora da Biblioteca Comunitária Carolina Maria de Jesus, ao lado da escritora Paula Brito | Foto: Instagram/@institutoprincesaanastacia/Reprodução

Doranei conta que o espaço surgiu de um desejo antigo. “Nós já tínhamos um pequeno acervo, mas foi com a aprovação do projeto ‘O que é que a Vila tem? Leitura que fala’ que conseguimos ampliar o número de livros e estruturar a biblioteca”, explica. Segundo ela, desde o início o foco foi a literatura afro-brasileira, “porque queríamos alcançar crianças, adolescentes, jovens e adultos de uma forma diferente, contribuindo com uma formação que muitas vezes a escola formal não oferece”. Hoje, a biblioteca conta com um acervo de 624 livros à disposição do público.

O objetivo, reforça, é recontar a história da população negra de maneira positiva e propositiva, valorizando autores e autoras negras e estimulando o orgulho da identidade racial. “Hoje, somos um dos poucos espaços comunitários de Salvador com um grande acervo sobre religiões de matriz africana. Esse diferencial é parte do nosso compromisso com a educação antirracista”.

Acervo conta com obras sobre cultura e personagens negros | Foto: Instagram/@institutoprincesaanastacia/Reprodução
Do diálogo ao protagonismo

No início, o trabalho enfrentou resistência em razão dos temas abordados nos livros, o que estava relacionado à falta de conhecimento e ao preconceito com a cultura e as religiões de matriz africana. “Algumas famílias nos procuraram dizendo que não estavam confortáveis com o conteúdo dos livros”, lembra Doranei. “Mas com o tempo entendemos que esse incômodo era fruto de desconhecimento. A partir daí, o processo de educação passou a envolver também os pais e responsáveis”.

A contação de histórias, antes voltada apenas às crianças, se tornou uma ferramenta de aproximação com toda a comunidade. “Hoje, as famílias compreendem que as histórias que contamos falam de escritores e escritoras negras que ressignificam nossa trajetória. Foi um aprendizado coletivo”, afirma.

Com o tempo, o incentivo à leitura também abriu caminho para a produção autoral. Doranei lembra de um episódio recente: “Uma adolescente chegou à oficina de arte em mosaico e nos mostrou um novo poema. Quando lemos, percebemos que ela falava sobre ser mulher e ser negra, tudo o que vem aprendendo nas atividades. É emocionante ver o conhecimento se materializando na escrita”.

Iniciativa começou durante a pandemia do coronavírus | Foto: Instagram/@institutoprincesaanastacia/Reprodução

A idealizadora relembrou que mesmo durante a pandemia, o grupo manteve as atividades. “Emprestávamos livros, fazíamos acompanhamento por WhatsApp e promovíamos lives com escritores. As crianças liam as obras e depois faziam perguntas diretamente aos autores. Foi um processo muito rico e importante para a saúde mental de todos naquele período”, conta, relembrando que o momento exigiu reaprendizado.

Desafios, perspectivas e parcerias

Os desafios, no entanto, permanecem. “Um dos nossos maiores desafios é a falta de uma bibliotecária, alguém da área que possa organizar melhor o acervo”, diz Doranei. “Também queremos deixar o ambiente mais atrativo e didático”.

Ela conta que há planos para a criação de um grande painel de grafite com personagens da literatura afro-brasileira. “Já temos um mural com a imagem de Anastácia, símbolo do nosso Instituto, agora representada sem máscara, mostrando força e libertação. Queremos ampliar essa arte e fazer da biblioteca um espaço ainda mais acolhedor para as crianças”.

Acervo conta com obras sobre cultura e personagens negros | Foto: Instagram/@institutoprincesaanastacia/Reprodução

O grupo também participa de editais para fortalecer o projeto. “Estamos concorrendo ao ‘Vivaleitura’, que pode nos ajudar a ampliar o trabalho. Nosso sonho é ter um andar inteiro dedicado à biblioteca, com espaço para rodas de leitura, contações de histórias e acolhimento das escolas públicas do entorno”.

A biblioteca integra a rede articulada pela Fundação Pedro Calmon (FPC), o que permite trocas constantes com outros espaços comunitários de leitura. “Todas as atividades são compartilhadas e discutidas coletivamente. Recentemente participei do 11º Seminário da fundação, junto com representantes de outras bibliotecas. Desses encontros nascem parcerias valiosas”, relata.

Acervo conta com obras sobre cultura e personagens negros | Foto: Instagram/@institutoprincesaanastacia/Reprodução

Foi em um desses eventos que surgiu a conexão com uma ONG de São Paulo especializada em literatura inclusiva, especialmente para pessoas com deficiência. “Eles nos enviam livros em braile e desenvolvem um trabalho lindo de inclusão”, conta. “Além disso, recebemos doações de acervo da própria Fundação Pedro Calmon, que foram essenciais para o fortalecimento do nosso trabalho”.

O poder transformador da educação

Com um acervo cada vez mais diverso e ações que unem leitura, escrita e arte, a Biblioteca Comunitária Carolina Maria de Jesus se consolida como um espaço de aprendizado, convivência e transformação social em São Caetano.

Foto: Instagram/@institutoprincesaanastacia/Reprodução

Agora, o foco do grupo é fortalecer a relação com as escolas do entorno. “A gente quer trazer as crianças das escolas mais próximas para conhecer o nosso acervo”, explica Doranei. “Já estamos começando esse namoro com algumas escolas, mas ainda não foi efetivado. Nossa vontade é que as turmas venham participar de contações de histórias, de momentos que elas não têm na escola formal”.

Segundo ela, a ideia é que a biblioteca se torne uma extensão da sala de aula. “Queremos que os professores possam vir e passar uma tarde aqui com os alunos, vivenciar esse espaço e somar com o que já fazem na escola. Isso já está encaminhado para começar e é um passo muito importante para o nosso trabalho”.

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