
A filósofa, escritora e ativista Djamila Ribeiro esteve nesta sexta-feira (25), em Salvador, numa roda de conversa gratuita na Biblioteca Central do Estado da Bahia, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. A atividade integrou a terceira edição do projeto Encontros Negros, realizado pela Umbu Comunicação & Cultura, e contou com mediação da jornalista baiana Val Benvindo e teve como mestre de cerimônia a jornalista baiana Silvana Oliveira.
“Ter vindo dos movimentos sociais e ter sido professora de escola pública foi muito bom para eu não ser mais uma acadêmica como as demais. Eu tive que seguir todos os autores europeus em meu período de construção da minha identidade intelectual, tirar boas notas, mas posso escrever de uma forma que as pessoas me entendam. Falar com é melhor do que falar para”, destacou a professora Djamila Ribeiro, uma das principais vozes do pensamento negro contemporâneo e autora de livros como ‘Lugar de Fala’, ‘Quem tem medo do feminismo negro?’ e ‘Pequeno Manual Antirracista‘.

Mediando o evento, a jornalista e consultora em diversidade e inclusão Val Benvindo lembra que as mudanças em relação ao protagonismo negro feminino foram cruciais para que eventos como o Encontros Negros fossem possíveis, carregando mais simbolismo e significado por conta da representatividade intelectual. “Fico muito feliz de eventos como este existirem. Antes não comemorávamos nem o 25 de julho. Comemorávamos o 20 de novembro e isso foi se tornando o Novembro Negro, e aí veio o Julho das Pretas. Acho que ter um bate-papo hoje com Silvana [Oliveira] como mestre de cerimônia, recebendo Djamila, que é esse grande ícone, essa mulher preta que muda muita coisa ao seu redor, me deixa muito feliz. Feliz em estar num evento capitaneado por duas mulheres negras, por Mirtes Santa Rosa e por Camilla França. Porque hoje a gente se reconhece na tela, mas é muito bacana a gente se reconhecer também nesse intelecto. Quem é que está fazendo? Quem é que está dirigindo? Quem é que está botando essa energia para construir eventos como estes?”, levantou o questionamento.

“É significativo, é simbólico, é importante demais existir eventos como ‘Encontros Negros’, que acontece para além do Julho, para além do Novembro, mas também marcam datas importantes como hoje”, afirmou.
Para Silvana Oliveira, mestre de cerimônia do Encontros Negros – Edição especial Julho das Pretas, é um novo momento para ela e para sua própria história. Para a jornalista e radialista, é muito significativo por ter sua origem em mulheres pretas baianas e mineiras.

“A comunicação é um oceano que está à disposição da gente para caminharmos por onde quisermos e, quanto mais nos unirmos, mais fortes ficamos. Temos como exemplo o Encontros Negros, que é um projeto capitaneado por mulheres pretas, numa empresa de comunicação feita por mulheres pretas, voltada para uma comunicação antirracista, democrática e diversa. Eu acredito que esse é o caminho do futuro de fato”, ressaltou Silvana Oliveira.
Em julho, o Encontros Negros propôs uma escuta coletiva sobre os desafios históricos e atuais enfrentados pelas mulheres negras no Brasil e nas Américas, além de fortalecer as narrativas de resistência, ancestralidade e protagonismo feminino negro. A ação teve como objetivo reunir estudantes, educadores, artistas e o público em geral para refletir sobre os caminhos possíveis para uma sociedade mais antissexista e antirracista. A presença de influenciadores da moda, da literatura, da gestão cultural, do jornalismo e da produção cultural da Bahia marcou a noite de celebração deste 25 de julho.

“O livro, a leitura e a literatura precisam ser sempre incentivados. Eventos como esse ajudam na difusão do livro, ajudam a mostrar a representação e a representatividade. Vivemos, há alguns anos atrás, um cenário catastrófico da nossa cultura, e hoje a gente precisa lutar para chegarmos num nível cultural cada dia mais alto. Eventos dentro dessa Biblioteca Central, a primeira da América Latina, sobretudo num dia especial como hoje”, afirmou Caruso Costa, chefe de gabinete da Fundação Pedro Calmon (FPC).
A força da literatura baiana
O encontro foi realizado na Biblioteca Central, um dos espaços públicos mais importantes, referência em promoção de conhecimento, leitura e cultura. Na data, a escritora Djamila Ribeiro também participou da inauguração de um novo espaço dedicado ao fortalecimento das políticas públicas de incentivo à leitura e à dinamização da cadeia produtiva do livro: a Sala Mestres e Mestras da Palavra. O espaço é localizado na biblioteca bicentenária, equipamento da Fundação Pedro Calmon (FPC/SecultBA).
“Não vejo problema nenhum em falar para um público amplo e falar de uma forma mais simples. É muito mais respeitoso do que falar a linguagem acadêmica e distanciar ainda mais o meu povo”, afirmou a escritora Djamila Ribeiro.

A Sala Mestres e Mestras da Palavra tem como objetivo principal proporcionar à comunidade literária e artística da Bahia recursos estruturais e tecnológicos. Ela também agrega à política de fomento ao livro, leitura e produção cultural, consolidando esse local na criação, divulgação, promoção da literatura e espaço de referência para escritores e produtores da arte.
Para Cristiano Lima, membro do Afoxé Bamboxê e da Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen), é importante marcar este dia como uma data de luta das mulheres negras, como Lélia Gonzalez, destacando sua diferença em relação ao Dia da Mulher.
“É o dia da mulher negra, que continua sofrendo, mas continua lutando por melhores condições e qualidade de vida. Eventos como esse são importantes para formar jovens dessa geração e convocar outras gerações para estar aqui aprendendo também. É importante, é bonito, e parabenizo a Umbu Comunicação e Cultura por estar realizando eventos desse porte aqui na Bahia”, declarou.
De acordo com o diretor-geral da Fundação Pedro Calmon, Sandro Magalhães, a Sala Mestres e Mestras da Palavra será um espaço de valorização e cuidado com as escritoras e os escritores baianos. “Incentivar a literatura baiana é essencial para consolidar uma política do livro e da leitura no nosso estado, fortalecendo quem dá vida às palavras e inspira a construção de uma sociedade mais leitora, crítica e sensível.”

Além de celebrar as mulheres negras, a data comemorou ainda o Dia Nacional do Escritor e da Escritora, contando com personalidades da literatura como o escritor baiano Deko Lipe e a escritora baiana Nega Fyah, que prestigiaram o Encontros Negros e falaram da importância da literatura e da diversidade de narrativas para além do Julho das Pretas.
“Ter um evento como esse numa sexta-feira à noite em Salvador me deixa muito feliz. Um evento cheio como esse, onde todos vieram escutar Djamila Ribeiro falar, vieram prestigiar a inauguração de uma sala que valoriza a literatura da Bahia… se vê que houve uma mobilização de cultura em torno da literatura. Não é uma palavra cantada, já que shows tomam o lugar desse entretenimento, e as pessoas vieram buscar saberes fora desse meio musical. Ter eventos como esse é de suma importância, mesmo sendo inverno em Salvador e celebrando a Mulher Negra com uma plateia lotada e com um público que é majoritariamente negro”, ressaltou Deko Lipe.

Já para a baiana Nega Fyah, escritora, atriz e artista da palavra, eventos como o Encontros Negros têm uma magnitude muito potente, que valoriza e coloca mulheres negras em protagonismo neste dia tão importante que é o 25 de Julho.
“Eu, enquanto escritora, costumo ler muito a Djamila Ribeiro para, dentro das minhas poesias, ter embasamentos teóricos e práticos também na minha escrita. É muito bonito estar para celebrar, para poder ouvir e para também poder manifestar em palavras as vitórias e desafios das mulheres negras”, afirmou Fyah.
A edição dos Encontros Negros – Especial 25 de julho contou com apoio do Governo do Estado da Bahia, através das Secretarias de Educação (SEC) e de Cultura (SecultBa)- através da Fundação Pedro Calmon, e também conta com a parceria do Portal Soteropreta, da Livraria LDM e da Imagem Digital.
Texto por: Patrícia Bernardes Sousa – jornalista, redatora, colunista, mobilizadora de projetos de Impacto Social em Educação, Letramento e Cultura Identitária e repórter colaboradora do Portal Umbu.




Por mais eventos como esse que de forma gratuita, de qualidade, conseguiu reunir uma multidão na biblioteca central em uma sexta feira a noite.
Parabéns UMBU! Sempre pensando além e fora da caixa.