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“Deixa girar que a rua virou Bembé. Laroyê, Beija-Flor, alafiá”

Quando a Beija-Flor pousou no Bembé de Santo Amaro 

Foto: Divulgação

E com os olhares atentos de pai Exú orixá, pai Xangô e mãe Iansã, a cada momento da apuração das Escolas de Samba do Carnaval 2026 na tarde desta quarta (18), a cidade de Santo Amaro da Purificação, interior da Bahia, passa a fazer parte da história sendo um dos enredos vencedores do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro. Sim! 136 anos depois, temos um enredo vencedor por percorrer em narrativa todos os becos e vielas de uma cidade do interior da Bahia que, apesar de ser abençoada por Nossa Senhora da Purificação, vem lutando ano após ano para não deixar ser esquecida a sua história de existência e resistência iniciada no dia 13 de maio de 1889, no Largo do Mercado.

Um verdadeiro balaio de lágrimas, gritos e oferendas de ofó, que significa na língua yorubá autoridade e poder espiritual, o desejo de boa sorte para todos os envolvidos. Um grande Xirê de invocação a pai Xangô, mamãe Iansã, mamãe Oxum e mamãe Yemanjá ao qual tive o prazer e a honra de fazer a cobertura jornalística durante as festividades do Bembé do Mercado em 2025.

A apuração no Rio de Janeiro reuniu representantes das 12 escolas do Grupo Especial, dirigentes, integrantes e torcedores. Um misto de emoções que facilmente poderia ser comparada com uma saída de yawo no coração de um babalorixá ou de uma yalorixá que sabe da responsabilidade dos 21 dias de roncó e do momento tão especial que é o tão aguardado — o orunkó de yawô no barracão de um Terreiro. Só quem sabe o que é colocar uma Escola de Samba na avenida com empenho, determinação e atenção é quem trabalha nos bastidores dela, bem como também se dedica um sacerdote de orixá, percorrendo a Feira de São Joaquim, para comprar tudo do bom e do melhor para alimentar a família espiritual de seu filho ou filha de santo abiã ao se recolher em feitura de orixá.

O grande momento da saída “puxada” da Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis chegou. Dando o nome a um pássaro encantador que seduz e canta para mamãe Oxum às margens de seu rio, a Escola Beija-Flor de Nilópolis não decepcionou e cantou alto e bonito o seu samba enredo. A cada nota “10” dadas por jurados para Beija-Flor de Nilópolis, número abençoado por ser de um Odu Ofun, caminho relacionado à saúde, à sinceridade e à inteligência, levavam os integrantes da Escola de Samba ao transe e ao êxtase ao longo da Marquês de Sapucaí. Durante os desfiles cada envelope com a avaliação de desempenho de cada escola permaneceram lacradas até a cerimônia oficial. Assim também se faz no Xirê do Bembé do Mercado (prática cultural e espiritual de origem afro-brasileira) que nós, adeptos do Candomblé e da Umbanda, estamos acostumados a frequentar.

Quem nunca se arrepiou ou caiu no choro ao aguardar na alvorada do dia, com Pai Pote entoando cânticos para Exú orixá e a todos os guardiões das ruas iniciando o único Candomblé a céu aberto do mundo, reunindo cerca de 60 terreiros, além de visitantes de todo o Brasil e da diáspora?!

Entre búzios, rendas, grafismos ancestrais e elementos que remetem aos terreiros e às festas de largo, a Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis saiu vencedora por acreditar num samba enredo que nenhum outro carnavalesco ousou pensar numa pós-abolição onde as yabás Oxum e Yemanjá são as senhoras plenas quem ditam o ritmo vencedor. E assim será no desfile deste próximo sábado (21), dia consagrado às yabás nas religiões de matriz africana.

Um bom amalá de justiça narrativa, acompanhado de um gostoso padê de suporte financeiro, ladeado de várias porções de acará para matar a fome das trabalhadoras e trabalhadores que madrugada após madrugada clamaram por vitória e foram exaltados para o Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro 2026.

A Bahia “tem o molho” e ela se reunirá neste sábado para bater paó para esse grande Candomblé de Rua e retratado pelo carnavalesco João Vitor de Araújo, destacando a história de resistência do povo preto, a espiritualidade do Candomblé e o ilá de reparação histórica por conta da importância do Bembé do Mercado, no Largo do Mercado, na cidade de Santo Amaro da Purificação, Recôncavo da Bahia.

Um vice-campeonato com todo o sabor de vitória legítima que só se compara a de um saboroso Omolocum para mamãe Oxum e de um Manjar bem decorado para mamãe Yemanjá.

Viva nós, as águas e o estado da Bahia.

*Texto por: Patrícia Bernardes, yawô de Oxum, jornalista, repórter de cobertura, gestora de Projetos de Impacto Social na Bahia

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