
Nesta semana tem celebração da já vitoriosa experiência formulada pela Umbu Comunicação & Cultura, esta potência mantida por fibra e batalha, mas temperada de ternura e bom humor das queridas Camilla França e Mirtes Santa Rosa: a quarta edição do Encontros Negros. Serão dois dias de foco na comunicação, culturas e artes com conexões interessantes entre pessoas de diferentes áreas. A programação está maravilhosa e um dos destaques é o antropólogo e comunicador Michel Alcoforado.
Na esteira do sucesso do podcast É Tudo Culpa da Cultura (Spotify), ele acaba de nos presentear com uma deliciosa e divertida etnografia, o livro ‘Coisa de Rico’, que é fruto de 15 anos de pesquisa árdua e metodologia complexa para seguir os caminhos dos ricos brasileiros em uma perspectiva única: a radiografia do centro de uma vida em que sobra luxo, mas falta ócio, porque, de acordo com as análises de Michel, não basta “ser rico” é preciso “parecer rico”. E como isso dá trabalho segundo as histórias apresentadas por ele.

Eu ganhei da Umbu o presentão, recheado de responsabilidade que é conduzir o papo com o escritor no próximo dia 7, sexta-feira, às 16 horas, no Cineteatro Dois de Julho. O espaço vai receber os outros encontros. Como entramos no mês do início do ciclo de festas de verão – última segunda-feira de novembro já tem a primeira comemoração de largo, que é a de São Nicodemus -, fiquei animada para listar aqui algumas “coisas de rico” nestas nossas celebrações.
Camarotização
Este termo, que posso chamar de conceito, formulado pelo brilhante professor Roberto Albergaria, um papa da Antropologia Simbólica, área por onde Michel Alcoforado desfila bastante no seu livro, consiste nas estratégias da elite baiana para até participar do que é considerado coisa do povo – as festas na rua -, mas sempre mantendo um espaço de distância, na linha “eu até vou, mas não me misturo”. É preciso sempre marcar o limite do privilégio em relação ao outro que pode até ter dinheiro, mas não está no mesmo patamar do reconhecimento de riqueza de um segundo na constante bola de neve do entendimento sobre quem realmente é rico. A utilidade básica do camarote – marcar quem é importante e por isso tem as delimitações de prestígio dentro do mesmo espaço – persiste ao longo dos tempos. Confira alguns exemplos.

De olho no padre e na missa, mas com classe…
As nossas festas de largo têm uma forte ligação com o catolicismo, inclusive na sua forma, surgiram no entorno das igrejas, como já indicou o professor Ordep Serra em seu maravilhoso livro intitulado Rumores de Festa. Basta dar uma olhada nas belas igrejas espalhadas pela capital baiana. Praticamente todas, das mais barrocas até as mais simples, possuem uma estrutura com tribuna, aquelas partes elevadas que se parecem com uma varanda, nas laterais. Especialista em história da arquitetura, o professor Francisco Senna me deu uma explicação fascinante. Respira, que a história é longa, mas superinteressante.
As pioneiras igrejas cristãs nem chegavam perto do fausto que alcançaram mais tarde. As celebrações dos primeiros cristãos aconteciam nas catacumbas, espaços utilizados como cemitérios. Com a conversão do imperador Constantino ao cristianismo, em meados do século IV, o catolicismo se tornou a religião oficial do Império Romano. A arquitetura romana passou a influenciar os templos católicos por meio das basílicas que, do latim para o português, podem ser traduzidas como “Casa do Rei”. As principais igrejas passam a ser chamadas de Basílicas, como a de São Pedro em Roma. Na estrutura de governo romano, a Justiça era administrada a partir dos palácios que tinham espaços, as tribunas, de onde o tribuno exercia o poder de julgar. Logo, as igrejas incorporaram tanto a ideia de construção monumental como o lugar especial para pessoas importantes.

“As tribunas das igrejas passaram a ser o local para os membros das irmandades que tinham a propriedade delas, como também das autoridades que estivessem em visita ao templo”, explica o professor Francisco Senna.
Ou seja: mesmo com a ideia de que todos são iguais aos olhos de Deus, muito presente nos ensinamentos de Jesus Cristo, as pessoas de posses seguiam mais na linha de que é mais fácil o camelo passar pelo buraco de uma agulha – uma imagem criada pelo equívoco de um dos tradutores dos considerados textos sagrados, pois se trata de um tipo de linha e não do animal – do que a exclusividade ser deixada de lado.
Festa de Iemanjá é também a exibição da exclusividade
Às margens da celebração para a padroeira do Rio Vermelho, Nossa Senhora Sant’Ana, na primeira década da oferta do presente dos pescadores locais, as homenagens a Iemanjá, já na década de 1940 ganharam cada vez mais espaço. Cerca de 30 anos depois veio a exclusividade. É até agora a única festa pública diretamente relacionada a uma divindade do candomblé.

O povo endinheirado da Bahia, que, ali pelo início do século XX, fazia cara feia para as religiões afro-brasileiras e seus ritos destilando seu preconceito, como a gente confere nos jornais por denominações como “barbarismo”, não aguentou a potência do evento e se rendeu. Mas, calma. Nada de ir colocar sua rosa ou alfazema para a Rainha do Mar se misturando com o populacho.

Teve a era das feijoadas nos hotéis de luxo espalhados pelo Rio Vermelho. E haja ostentação. Ali pelos anos dois mil, o acesso custava, em média R$ 300 para estar no espaço separado e comer um prato de feijão. Isso mesmo. Pagava-se uma fortuna por um prato de feijoada que nem chegava aos pés daquelas oferecidas nas feiras de São Joaquim e Sete Portas, ao longo da Liberdade, Garcia e outros locais onde o povo tem a mágica de temperar o feijão para o cliente saborear rezando. E o melhor: com esse valor aí a gente leva uns seis domingos, ainda hoje, comendo um dos nossos pratos preferidos de café da manhã nos domingos, hábito que, me desculpem os cardiologistas, faz a gente reverenciar todos os inquices, orixás, voduns, santos, caboclos e encantados agradecidas e agradecidos por ter sido criado.

Se a escolha do povo da riqueza é por levar o presente diretamente para o mar tem que ser também em grande estilo: barquinho é para os simples. Rico vai é de lancha e outros modelos das embarcações de luxo, que acompanham o barco do presente principal à base do espumante e do champanhe que valem milhares de reais. Não demora e a gente vai ver é chuva de flores de helicóptero. Duvidam? Vocês não conhecem a sede de exclusividade da minoria de endinheirados brasileiros. Michel Alcoforado que o diga.
Vamos para o largo, mas no estilo coberto: a saga da Lavagem de Ondina
E esta busca de diferenciação é impressionante por não ter limites. Acreditem. Houve evento em Salvador criado para mimetizar o ambiente das festas de largo em espaço fechado. Foi este o principal objetivo da Lavagem de Ondina, que, das 13 festas que pesquisei para a tese Festa de Verão em Salvador é a única extinta. Não é difícil entender por que, né? Faltou a dinâmica em que a própria festa se encontra e resolve suas demandas no ambiente público, inclusive resistindo e contornando as tentativas de a manter sob controle. A Lavagem de Ondina durou 15 anos e acontecia na área verde do Othon Palace, um dos hotéis de luxo da cidade, localizado no bairro de Ondina (daí o nome) e podemos considerá-la uma pioneira das “festas de camisa” que se espalharam por todas as outras do espaço público.

Festa de Camisa: o reino dos Vips, Vipões e Platinums
Não vou me arriscar a afirmar, peremptoriamente, mas aposto que as feijoadas de luxo do Rio Vermelho serviram de inspiração para as festas exclusivas e pagas no entorno da Lavagem do Bonfim. O negócio da distinção nesta comemoração era regra. Os blocos de trio, que já começavam a faturar muito com o isolamento dos associados pelas cordas estenderam este negócio para um dia de celebração no Bonfim. Os associados adquiriam uma camisa e experimentavam uma prévia do Carnaval. Isso no tempo que no Bonfim tinha trio elétrico.
Vocês acreditam que encontrei na pesquisa para a tese uma reportagem sobre os “flanelinhas de trio?”. Já explico: como os trios não podiam subir a Colina Sagrada, óbvio, melhor ficava para quem conseguia sair na frente para ir até o perímetro permitido. Assim, algumas pessoas dormiam dias antes na Avenida Contorno e marcavam o espaço para estacionar um trio numa atividade rentável, mas que não era legalizada.

No final da década de 1990, com muita pressão do então arcebispo de Salvador, Dom Lucas Moreira Neves, os trios foram retirados do Bonfim e nasceu o Farol Folia, um dia de prévia do Carnaval, com venda de camisa, óbvio, mas que acontecia no sábado após a Lavagem do Bonfim, no bairro da Barra. Para a indústria do trio não houve prejuízo, portanto. Só mudaram dia e local para faturar em mais um evento pré-Carnaval. Logo, logo criaram também as festas exclusivas, agora no formato muito parecido ao da Lavagem de Ondina: ambiente fechado com faixas de preço diferenciadas de acordo com o local de permanência. Aí é escolher de acordo com o bolso entre pista, camarote e a possibilidade de “estar no Bonfim”, mas bem longe da muvuca da rua.

O objeto mais desejável do Carnaval
E chegamos a ele, que é o mais cobiçado objeto para muita gente: O camarote. Há cerca de 30 anos ele começou a conquistar espaço até se tornar o mais rentável negócio da indústria do Carnaval baiano. O camarote derrubou até o milionário negócio dos blocos de trio. Quem agora vai querer pagar uma pequena fortuna para ter um abadá de bloco se tem um espaço ultra mega mais exclusivo do que ficar no meio da rua andando para lá e para cá fazendo caras e bocas e torcendo para ser flagrado pela televisão em meio ao calorão e o aperto da multidão mesmo dentro das cordas? É melhor pagar algo ali em torno dos R$ 1.500, mesmo que suficiente para um só dia, e comer e beber à vontade, pois o open bar virou regra. Há ainda a sensação de fazer parte, mesmo que por algumas horas, de um mundo cheio de famosos e ricos, afinal mesmo estando na pista você está respirando o mesmo ar dos privilegiados. Pode até sair dizendo: “Eu estava assim a três metros de fulano, aquele ex-BBB e ex-Fazenda, menina”…
O camarote virou artigo de luxo carnavalesco de tal forma que a busca desenfreada por oferecer cada vez mais serviços diferenciados rendeu e rende muita treta: já houve camarote oferecendo passarela elevada, que saía do hotel parceiro diretamente para o acesso ao espaço evitando que a consumidora ou consumidor pisasse nas ruas banhadas pela lama do resto de bebida misturada ao que escorre de banheiros públicos; um outro oferecia passeio de helicóptero; apareceu também o que reservava área exclusiva de praia e o que teve uma extensão, numa manhã de domingo de Carnaval, para uma ilha onde estavam artistas, celebridades e empresários buscando fechar negócios. As embarcações variaram de escunas a iates para a chegada até o local.

Mas o que rendeu uma avalanche de “eita, zorra” devido a profusão de brigas, inclusive entre estrelas da festa, foi mesmo a passarela de ligação entre camarotes e trios elétricos. Foi tanto artista deixando os foliões que estava animando para ir dar palhinhas nos espaços exclusivos que rolou atraso de outras agremiações, batida de pé de diva que ficou presa no engarrafamento de trios, e muita dor de cabeça para os agentes públicos resolverem.
Vale lembrar que a maior concentração destas áreas com espaços de graduação para quem é importante, quem é muito mais importante e quem é mais do que importante ficam, em sua maioria, no circuito Barra-Ondina onde rola o Carnaval que se aproxima do modelo de festival com uma profusão do que estiver na crista da onda da música nacional. Assim, além de axé music, rola sertanejo funk, música eletrônica e mais.
A indústria da moda tem também lugar central nestes espaços com a disputa de quem aparece com a melhor customização da camiseta de acesso. É tanto corte, brilho, adereço que o nome do empreendimento quase desaparece. E os looks? São de deixar a corte de Maria Antonieta no chinelo do salto Luís XV para subir em um estiloso, mesmo que seja meio esquisito, mas vale o quanto custa e não o que aparenta, Balenciaga 3 XL Sneaker, um clássico Bottega Veneta Sneaker Sawyer ou um Hermès Sneaker Get. É ter o “pisante” no estilo leve que pede o Carnaval ou a Festa de Camisa, mas sem deixar de lado o luxo da ostentação.

E anotem aí: Encontros Negros com Michel Alcoforado será no dia 7, às 16 horas. Confira se ainda há ingressos disponíveis no Sympla.
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