Tem arte, tem fé, tem comida e o preconceito estrutural insiste!

A pressa do julgamento não é acaso: é estratégia de alienação
O abate de animais nas religiões de matriz africana, constantemente exposto ao olhar apressado e ao julgamento moral, é uma delas. Reduzido ao choque ou à caricatura, esse gesto milenar, inerente também a outras religiões, carrega na verdade, uma complexa engrenagem onde se articulam estética, espiritualidade, economia e justiça.
Não se trata apenas de um rito. Trata-se de um sistema de mundo e da cosmogonia afro-brasileira. Nas tradições das Comunidades-terreiro, o alimento não é um fim, é meio, é ponte e circulação. Oferecer às divindades não é desperdiçar: é ativar uma lógica de reciprocidade onde o que se entrega retorna transformado. O alimento, carregado de axé, atravessa o campo sagrado e volta à comunidade como partilha, nesse contexto, o abate de animais não é eliminar e sim religar! E é justamente na partilha que essa prática encontra sua dimensão mais concreta.
Uma estética apurada que alimenta
Uma dimensão frequentemente ignorada nesse debate, e talvez uma das mais sofisticadas: a estética. A cozinha dos terreiros é também um espaço de criação. Um ateliê vivo onde cores, texturas, formas e gestos obedecem a fundamentos precisos. Cada prato é composição. Cada preparo, linguagem. Cozinhar, ali, é mais do que técnica; é interpretação de códigos sagrados transmitidos por gerações; no terreiro, cozinhar é performar. É um gesto de chamamento. É uma instalação viva, efêmera, coletiva.
Em um país onde, apesar de avanços, segundo o IBGE, milhões ainda enfrentam insegurança alimentar grave como os 6,48 milhões registrados em 2024, o alimento ritual ultrapassa o campo simbólico. Ele circula entre filhos de santo, visitantes e comunidades do entorno.
Os terreiros operam como redes de redistribuição. Alimentam corpos, fortalecem vínculos ancestrais e produzem dignidade.

Economia do Sagrado
Há também uma economia em movimento e pulsante, gerada pelo conjunto dessa sociedade religiosa, que extrapola os momentos litúrgicos. Cada ritual aciona uma cadeia produtiva local: feiras livres, pequenos agricultores, criadores de animais em escala familiar e comerciantes de insumos tradicionais.
O contraste com o modelo dominante é inevitável.
O Brasil abate bilhões de aves e suínos e dezenas de milhões de bovinos e outros animais de menor porte anualmente em sistemas industriais. Ainda assim, a indignação pública recai com mais força sobre práticas comunitárias.
Há, ainda, o extrativismo cultural! A culinária afro-brasileira é apropriada pelo mercado, transformada em produto e dissociada de seus fundamentos.
Racismo religioso e disputas de poder
Os ataques às religiões de matriz africana não podem ser dissociados de um fenômeno mais amplo: o racismo religioso. Historicamente, práticas negras foram marginalizadas, criminalizadas e perseguidas pelo Estado brasileiro.
Na atualidade, esse processo ganha novos contornos com a atuação de setores do neopentescostalismo e de bancadas religiosas no legislativo, que buscam impor uma visão única de mundo, frequentemente desconsiderando a diversidade cultural e religiosa garantida pela Constituição.

Decisões como o julgamento do Recurso Extraordinário 494601 em 2019 pelo Supremo Tribunal Federal, que reconheceu a constitucionalidade do sacrifício ritual, evidenciam que essa disputa se fortaleceu no campo jurídico, com a participação efetiva dos praticantes e lideranças religiosas e do apoio de setores progressistas e antirracistas.
O abate de animais nas religiões afro-brasileiras é alimento, estética, economia e política.
Em tempos de fome e intolerância, as Comunidades-terreiro seguem ensinando que alimentar é mais do que consumir!
É criação, é compartilhar e retroalimar o mundo.
Ajeum! Ajeumbó.


