Do feminicídio à violência política, mulheres seguem sendo alvo de agressões e assassinatos em todo o país

O Dia Internacional da Mulher costuma ser marcado por homenagens e campanhas de valorização. No Brasil, porém, a data também impõe uma pergunta inevitável: como celebrar quando milhares de mulheres ainda lutam pelo direito básico de permanecer vivas?
Na Bahia, conforme dados da Rede de Observatórios da Segurança publicados em 2025, foram registrados 257 eventos de violência contra a mulher em 2024 — uma redução de 30,2% em relação aos 368 casos contabilizados no ano anterior. Apesar da queda, os números indicam que a violência permanece como um problema grave no estado, com 46 vítimas de feminicídio no período e 68 ocorrências concentradas em Salvador.
O levantamento também aponta fragilidades nos registros oficiais: 73,9% das vítimas não tiveram raça ou cor identificadas. Entre os casos em que essa informação foi registrada, 19,6% eram mulheres negras, evidenciando a intersecção entre violência de gênero e racismo estrutural. O relatório destaca ainda que armas cortantes foram utilizadas em 21 dos assassinatos registrados e que a maioria das vítimas tinha entre 30 e 39 anos, faixa etária que concentrou 43,4% dos casos.
Para além das estatísticas de violência doméstica, o país convive com outro fenômeno preocupante: mulheres que ocupam a linha de frente na defesa de direitos humanos frequentemente se tornam alvo de ameaças, perseguições e violência. Em muitos casos, mesmo após os crimes, famílias e comunidades enfrentam anos de espera até que os processos avancem na Justiça.
Em 2018, o assassinato da vereadora Marielle Franco marcou o debate público sobre violência política no país. Mulher negra, criada no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, Marielle denunciava abusos policiais e violações de direitos nas periferias. Sua execução evidenciou o risco enfrentado por mulheres que desafiam estruturas de poder, especialmente quando são negras e oriundas das periferias.
O júri dos executores ocorreu apenas em outubro de 2024, mais de seis anos depois do crime. Já o processo contra os acusados de serem os mandantes começou a avançar na Justiça quase oito anos após o assassinato. Durante todo esse período, familiares, movimentos sociais e organizações de direitos humanos mantiveram mobilizações constantes para cobrar respostas e evitar que o caso caísse no esquecimento.
Na Bahia, outro crime expôs a vulnerabilidade de lideranças comunitárias. A líder quilombola Bernadete Pacífico, conhecida como Mãe Bernadete, foi assassinada em agosto de 2023 dentro do Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho. Bernadete atuava há décadas na defesa dos territórios quilombolas e da liberdade religiosa. Dois anos antes, seu filho também havia sido assassinado.
A morte de Bernadete provocou repercussão nacional e internacional, mas, como ocorre em muitos casos de violência contra mulheres e lideranças comunitárias, a expectativa por respostas rápidas da Justiça nem sempre se concretiza. Investigações longas, etapas processuais demoradas e adiamentos frequentes fazem com que famílias e comunidades convivam por anos com a ausência de respostas definitivas.
Esse cenário se repete em diferentes partes do país. Para familiares das vítimas, o sofrimento não termina com o crime. Ele se prolonga na espera por investigações completas, pela identificação dos responsáveis e pelo julgamento dos casos. Enquanto os processos se arrastam, cresce também a sensação de impunidade, especialmente quando as vítimas eram mulheres que denunciavam injustiças ou disputavam espaços de poder.
A luta para continuar vivas começa dentro das próprias casas
Se os assassinatos de lideranças provocam grande repercussão pública, a violência que ocorre dentro de casa segue sendo a forma mais comum de agressão contra mulheres no país.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que o Brasil registrou 1.467 feminicídios em 2023, o maior número desde que o crime passou a ser tipificado. Na prática, isso significa que quatro mulheres são assassinadas por dia no país em crimes motivados por gênero.
O perfil das vítimas revela um padrão já apontado por organizações de mulheres negras:
- cerca de 63% das vítimas são mulheres negras;
- a maioria tem entre 18 e 44 anos;
- em mais de 70% dos casos, o autor é companheiro ou ex-companheiro;
- grande parte dos crimes acontece dentro da própria casa.
Em muitos casos, o feminicídio é o ponto final de uma sequência de violências anteriores: agressões, ameaças e tentativas de controle que se acumulam ao longo do tempo.
Na Bahia, os dados seguem elevados. O estado aparece com frequência entre os que registram maior número absoluto de assassinatos de mulheres no país.
Informações da Secretaria de Segurança Pública da Bahia indicam que mais de 100 mulheres foram vítimas de feminicídio no estado em 2024, além de centenas de tentativas registradas no mesmo período. Entre 2017 e 2024, a pasta contabilizou quase 800 feminicídios. Na prática, isso significa que uma mulher é assassinada por violência de gênero no estado a cada poucos dias.
Sem direito à vida, há o que comemorar?
Os números mostram que a violência contra mulheres no Brasil não é episódica. Ela está ligada a desigualdades estruturais de gênero, raça e renda que atravessam a sociedade.
A memória de mulheres como Marielle Franco e Mãe Bernadete também revela que essa violência tem alvos mais expostos. Mulheres negras, lideranças comunitárias e defensoras de direitos humanos seguem entre as mais vulneráveis.
Por isso, no Brasil, o 8 de março continua sendo menos um dia de celebração e mais um dia de cobrança: enquanto mulheres seguem sendo assassinadas, a luta por direitos começa pelo mais básico: o direito de permanecer viva.


