“A maior dificuldade aqui é a falta de acesso. Hoje não conseguimos vender muitos peixes porque tiraram os trens e os ônibus daqui”, afirma o vendedor Gildásio Júnior
Localizado no Subúrbio Ferroviário de Salvador, especificamente no bairro de São João do Cabrito, fica o Porto das Sardinhas. É dele que centenas de famílias tiram seu sustento, com o trabalho árduo de pescar, tratar e vender sardinhas. Trabalho este que atravessa anos de existência e resistência, mesmo diante das dificuldades do dia a dia.
Todos os dias a movimentação é intensa no Porto das Sardinhas. Ainda de madrugada dezenas de pescadores saem de suas casas para ganhar o dia por meio da pesca. Quando chegam ao porto com os barcos cheios, a missão é tratar para oferecer o melhor para os clientes. A compra e venda das sardinhas é muito simples e o quilo custa em média de R$1 a R$5.
Tratadoras, pescadores, vendedores e clientes são as pessoas que fazem parte do Porto das Sardinhas que, anos atrás, já foi bastante movimentado. Segundo os vendedores, os dias de maior fluxo são de quinta a domingo e durante o ano, a Semana Santa é o período que mais enche de clientes.
Sentada num banquinho, com mãos ágeis e tendo como ferramenta uma tesoura simples estava Roqueline de Oliveira (31) tratando várias Pititingas frescas. Há quase 4 anos ela trabalha tratando e vendendo peixes. Roqueline revela alguns valores dos pescados e fala da importância do trabalho.
“Quando tem, geralmente eu trato uns 100kg a 150kg de sardinha por dia. O quilo da Pititinga já tratada está saindo a R$7. Eu trabalho mais com os pacotinhos que saem 3 por R$10. Esse trabalho aqui é o sustento da família. O que nos afetou muito foi a retirada do trem. Muitas tratadeiras e pescadores são de bairros vizinhos como Paripe e Periperi, que o sustento era única e exclusivamente daqui, muitos pararam de vir”, falou.
Se há algum tempo o Porto das Sardinhas tinha um fluxo intenso, atualmente o cenário é diferente. O vendedor Gildásio Júnior (49), confessa que hoje ainda tem clientela, mas não está como antes. Ele, que atua há 10 anos no porto, conta qual é a principal dificuldade dos trabalhadores, que tiram o sustento para a família da venda de peixes.
“A maior dificuldade hoje aqui é o acesso. Hoje não conseguimos vender muitos peixes porque tiraram os trens e os ônibus. A mobilidade aqui é horrível. Os ubers não querem pegar quem compra peixe, o povo que vem de outros lugares para comprar peixe não vêm mais. E a gente está ficando com peixe aqui porque não tem quem compre”, desabafou.
Além da questão da mobilidade, vendedores e clientes relatam outras dificuldades como falta de manutenção da estrutura. No Porto das Sardinhas em busca de produtos frescos, de qualidade e por um preço baixo, estava Caroline Silva (28). Ela que estava pela primeira vez no local conta a experiência e aponta melhorias.
“Estou aqui pela primeira vez e gostei. Os preços são bons, são acessíveis. As pessoas são limpas, organizadas. A única coisa que não gostei foi da questão da sujeira. Sei que é inevitável, mas acho que a prefeitura poderia vir ajudar um pouco. Na questão de como armazenar tudo bonitinho e também na questão do mar, que deveria ter uma limpeza apropriada”, pontuou.
História do Porto das Sardinhas
Pescados frescos, tratados e de qualidade é o que se pode encontrar no Porto das Sardinhas. Mas, para além disso, o que se encontra nesse lugar são histórias. O vendedor Gildásio Júnior conta que o porto teve início há muito tempo quando os pescadores saiam para pegar o peixe com suas canoas a remo e vendiam ali mesmo na beira da canoa. E essa cultura permanece até os dias atuais.
“Isso aqui é do tempo dos nossos bisavôs. Eles pescavam por aqui mesmo jogando as redes. Pescavam e vendiam aqui mesmo. Só que o tempo foi passando e a demanda aumentou, então eles foram pescar em outros lugares. Eles saiam nos barcos a remo, depois começou a vir barco com motor e hoje fazemos pescaria dentro da Baía de Todos-os-Santos”, relembrou.
Além dos percalços da venda de pescados, a atividade que é totalmente manual tem seus benefícios. Um deles é a certeza de levar o alimento para casa.
“Esse porto aqui é a vida da gente. Diretamente e indiretamente, graças a Deus nós damos trabalho a muitas pessoas. Aí tem elas que tratam os peixes, tem os meninos que vendem na canoa, tem outros que eu já vendem no balde na rua, enfim. Isso aqui é tudo pra gente”, finalizou Gildásio Júnior.
Fonte: Portal A Tarde
Foto: Uendel Galter



