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Com homenagem a Dias Gomes, Flipelô atrai leitores para o Pelourinho

Evento gratuito acontece entre 6 e 10 de agosto, no Centro Histórico de Salvador

Silvana Oliveira, Clarindo Silva e Ana Elisa Ribeiro | Foto: Patrícia Bernardes

A Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) 2025 começou na quarta-feira (6) e segue até domingo (10) com uma programação completamente gratuita no Centro Histórico de Salvador. Esse ano, o evento homenageia o escritor e dramaturgo baiano Dias Gomes e contou, nesta sexta-feira (8), com a participação do ator e escritor baiano Lázaro Ramos, do jornalista e escritor Clarindo Silva e dos escritores Thalita Rebouças (RJ), Felipe Cabral (RJ), Cássia Valle, Ana Elisa Ribeiro (MG), tendo como mediadores nomes como jornalistas Silvana Oliveira (MG), Val Benvindo e Bruno Machado, entre outros.

“Estou muito feliz. A Flipelô é nada mais, nada a menos do que uma verdadeira declaração de amor ao nosso Pelourinho, que é o coração nessa nação chamada Brasil”, disse o jornalista, agitador cultural e escritor Clarindo Silva, durante a sua participação na mesa Caminhos da crônica: olhares cotidianos, nas instalações do Teatro Sesc-Senac Pelourinho.

Mestre Calá, como é conhecido o empresário da Cantina da Lua, no Pelourinho, lançou, em 2021, o livro Conversa de Buzú, contando o que já viu e viveu dentro de um ônibus. O livro foi viabilizado através de apoio financeiro do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia), via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo do Governo Federal. Na primeira edição, a obra teve uma tiragem de 1.000 exemplares, sendo uma parte doada para o acervo de bibliotecas e escolas públicas de Salvador. São cinquenta crônicas, apresentadas em textos curtos, destacando diálogos que trazem a privacidade de histórias pessoais e íntimas para o ambiente coletivo e comum do interior dos “buzús”, como são chamados os ônibus pelos soteropolitanos.

Com mais de onze espaços espalhados pelo Pelourinho, as atividades acontecem no Largo do Pelourinho, com o Palco Flipelô; no Largo Tereza Batista, com o espaço Vila Literária; e na Praça Terreiro de Jesus.

Silvana Oliveira, Clarindo Silva e Ana Elisa Ribeiro | Foto: Patrícia Bernardes

“Essa Flipelô está sendo histórica pra mim. Eu acabei de sair do Espaço Mabel Veloso, onde a gente recebe Lázaro Ramos pela primeira vez, que é um conterrâneo e, ao mesmo tempo, de visibilidade nacional. A Vila Literária também está sendo um abraço, com pessoas querendo vir ver as outras pessoas que estão na programação, sempre com muita gente assistindo e prestigiando os autores convidados nesta edição em 2025. É algo que tem dado a ignição para que nós continuemos a fomentar a literatura, alimentando as pessoas com a literatura desde a infância até a vida adulta”, afirmou o escritor e publicitário Deko Lipe, curador da Vila Literária 2025 na Flipelô. Para Deko, a literatura é essa arte que perpassa as diversas idades, identidades, gêneros: a pluralidade enquanto ser humano.

Bate-papos, saraus de poesia e apresentações musicais foram algumas das atividades nesta sexta-feira de discussões e mesas em diversos espaços onde ocorre a Flipelô 2025.

“É sempre bom ter espaços para a gente falar do nosso trabalho, mostrar que a gente tem produzido literatura nessa cidade. Uma literatura com um marcador racial, uma literatura negra feita nessa cidade. É importante ter a celebração da palavra, é importantíssimo ter o fomento para a manutenção da produção literária. Livro e leitura são como o pão e o feijão com arroz que todos nós precisamos. Dada a crescente perda de leitores, ter um evento que fomente a literatura, que fale de literatura e que o livro circule será sempre importante, como é a Flipelô”, afirmou a escritora e poeta baiana Anajara Tavares.

Para Anajara, ainda não é o cenário ideal. “Precisamos estar cada vez mais em espaços como estes, com condições mínimas, com espaços para que tenhamos a nossa palavra ampliada”. Enquanto escritora, ela afirma que continua fazendo parte das programações paralelas, que são construídas na irmandade e no compromisso coletivo.

A organização do evento espera que cerca de 250 mil pessoas transitem pelos mais de 150 espaços públicos e privados ativados no Centro Histórico, desde a Praça Municipal até o Santo Antônio Além do Carmo. Esses locais abrigam a programação oficial da festa e a Flipelô Mais, programação alternativa criada pelos espaços.

“A minha percepção da Flipelô 2025 é de bastante abrangência e diversidade na escolha dos temas para o público infantil e o público adulto, mas quero ressaltar aqui que eu gostei muito do tema, que é a homenagem ao escritor Dias Gomes, que traz obras que envolvem e destacam a nossa terra, a Bahia. São tantos escritores e artistas bons que a gente não sabe quem vai assistir primeiro”, ressaltou Adelaide Rosa, secretária executiva em Salvador. Para Adelaide, todos deveriam conhecer a Flipelô por ser um local imperdível em manifestações de nossa cultura baiana e expansão da divulgação não só de autores nacionais como também de escritores baianos.

Também presente na Flipelô 2025, o escritor, gestor educacional, vereador e professor Sílvio Humberto falou para o Portal Umbu sobre a importância da democracia e da diversidade literária colocada de forma gratuita durante a programação da Festa Literária Internacional do Pelourinho. O ativista negro, fundador e presidente do Instituto Cultural Steve Biko, destacou os eventos transversais que acontecem dentro da programação, dando ênfase à roda de conversa que tratou sobre a tecnologia ancestral do historiador e escritor Jaime Sodré.

“Estou achando excelente esse formato do evento, colocando aqui, no largo principal do Pelourinho, no Palco Pelô, a palestra do Prof. Simas contando a história do samba. Ainda não tive a oportunidade de assistir a outras mesas do evento, mas essa troca de saberes, feita dessa forma, está bacana”, afirmou o autor da obra Retrato Fiel da Bahia, lançada no mês de maio, na capital baiana. Para Sílvio Humberto, mesmo diante desse momento de tanta instantaneidade, onde tudo é “pra ontem”, esse retorno ao convívio público entre o leitor e o escritor, ocupando espaços com a leitura, é muito bom. Gestor da Steve Biko há 33 anos, ele acredita que as redes sociais são importantes, difundem a informação, mas que não pode colocar tudo apenas no campo da virtualidade.

“Livro e leitura são os motivos reais das feiras literárias, mas você tem também gastronomia, tem o encontro com as pessoas e o retorno do contato humano. São feiras e festas literárias como essa que geram vínculos reais. Agora, é evidente que tem que se criar condições para que o povo baiano esteja presente cada vez mais nestes espaços”, finalizou.

Bruno Machado, Cássia Valle e Felipe Cabral | Foto: Patrícia Bernardes

Com o bate-papo com o tema Da literatura aos palcos, a Vila Literária contou com a presença da escritora, diretora de teatro e atriz Cássia Valle, ganhadora do “Prêmio Nacional de Afroliteratura Juvenil – Erê Dendê 2025”, por conta da sua obra Zeferina. O prêmio é uma realização do Ministério da Igualdade Racial e da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, em uma iniciativa inédita que valoriza e preserva as tradições dos povos e comunidades de matriz africana e dos terreiros. A mesa teve também a participação do escritor carioca Felipe Cabral e mediação do baiano Bruno Machado.

“Nada mais de nós, sem nós”, afirmou Cássia Valle, escritora, atriz, diretora teatral e membro do Bando de Teatro Olodum.

Também participando do bate-papo, o escritor carioca Felipe Cabral falou da importância de se ter eventos como a Flipelô para proporcionar encontros literários entre autores, escritores e leitores no lugar maravilhoso para ele, que é Salvador.

“Estou amando participar da Flipelô 2025. Que venham mais edições com cada vez mais gente, mais público e com muito axé”, vibrou Cabral.

Também na Vila Literária e dialogando sobre Literatura, séries e filmes, durante a programação da mesa literária mediada pela jornalista Val Benvindo, a escritora carioca Thalita Rebouças falou, em primeira mão para os seus leitores baianos, que o seu livro Diário de uma garota esquisita, novo título da autora, vai virar uma série live-action produzida em Hollywood. O livro foi vendido para ser adaptado por um serviço de streaming.

Thalita Rebouças e Val Benvindo | Foto: Patrícia Bernardes

Para a jornalista e relações públicas Val Benvindo, eventos como a Flipelô são de extrema importância para a expansão da divulgação não só de escritoras como Thalita Rebouças, dona de best-sellers, como também de escritores iniciantes.

Para o professor e escritor baiano Jocevaldo Santiago, atuante da educação há mais de vinte anos e gestor do projeto Cri’Ativa – Talentos Literários, que promove formação para que estudantes da rede pública façam a primeira publicação do seu livro, eventos literários são importantes, principalmente quando oferece espaços de destaque para autores locais.

“A literatura nos salva. Ela conta outras histórias nossas e é importante cada vez mais privilegiar a literatura escrita por pessoas pretas de cidades da Bahia. É preciso valorizar a literatura local, pondo-a em destaque sem, no entanto, deixar de apreciar as produções de outros lugares”, comentou Joceval.

A Flipelô vai até domingo (10), no Centro Histórico de Salvador, com programação inteiramente gratuita. Mais informações sobre a festa literária e toda sua programação podem ser obtidas no site flipelo.com.br.

Texto por: Patrícia Bernardes Sousa – jornalista, redatora, colunista, mobilizadora de projetos de Impacto Social em Educação, Letramento e Cultura Identitária e repórter colaboradora do Portal Umbu.

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