Terceira edição do festival acontece de 8 a 16 de setembro, reúne mais de 18 filmes, homenageia o Bando de Teatro Olodum e amplia ações de formação, acessibilidade e interiorização

O cinema baiano será colocado em diálogo com sua própria história, seu presente e as possibilidades de futuro durante a terceira edição do Cine SESI, que acontece entre os dias 8 e 16 de setembro e adota como tema “Cinema, Memória e Legado”. A programação reúne mais de 18 filmes, oficinas, debates, painéis e atividades lúdico-pedagógicas, além de ações de circulação e acessibilidade. Neste ano, o festival também chega pela primeira vez a Cachoeira, no Recôncavo Baiano, ampliando a proposta de interiorização do audiovisual.
As atividades do Cine SESI 2026 são gratuitas, com vagas limitadas. As inscrições estão disponíveis pelo site do festival.
Realizado pelo SESI Cultura Bahia, com apoio do Departamento Nacional do SESI, por meio do Programa Nacional de Cultura, o Cine SESI integra as ações da plataforma de difusão cultural CineModaLab, com produção da Movida. Para a gerente do SESI Cultura Bahia, Joana Fialho, a escolha do tema parte da compreensão de que o cinema é, ao mesmo tempo, registro e construção de memória. “O cinema registra o seu tempo, preserva histórias, personagens, modos de vida e diferentes formas de olhar para o mundo. E quando a gente fala de memória e legado, estamos olhando para aquilo que recebemos, mas também para aquilo que queremos deixar para as próximas gerações”, afirma.
A curadoria, assinada por Dayse Porto, Rubian Melo e Heraldo de Deus, aproxima produções de diferentes períodos e gerações do cinema baiano. O objetivo é apresentar ao público uma cinematografia que permanece viva e, simultaneamente, reconhecer os realizadores que ajudaram a construir essa trajetória. “É muito importante que o público possa se ver e se reconhecer na tela e, ao mesmo tempo, perceber que é possível também ocupar esse lugar de quem faz cinema”, explica Dayse.

A curadora destaca que o diálogo entre passado e presente está no centro da seleção. As sessões “Memórias do Agora” e “Memória e Legado” reúnem obras que evidenciam como o audiovisual contemporâneo também produz os registros que serão acessados pelas próximas gerações. Entre os filmes estão “Sonhos de Arrocha”, “Bregueragem” e “Quem é Essa Mulher”, realizados por nomes que ajudam a registrar modos de viver, falar, criar e ocupar os territórios baianos. Já a sessão “Memória e Legado” também reúne trabalhos recentes de realizadores veteranos, como Antonio Pitanga, Sérgio Machado e o já falecido Orlando Senna.
“O cinema tem essa capacidade muito poderosa de registrar um tempo, mas também de construir a maneira como esse tempo será visto e lembrado no futuro. Quando um filme é feito hoje, ele já está produzindo memória”, afirma Dayse. Para a curadora, colocar lado a lado produções como “Sonhos de Arrocha”, “Três Obás de Xangô” e “Malês” permite compreender a memória como algo múltiplo, atravessado por diferentes tempos, linguagens, territórios e perspectivas sobre a Bahia.
Um dos principais destaques da edição é a homenagem ao Bando de Teatro Olodum, cuja trajetória ultrapassa o campo teatral e alcança o cinema, o audiovisual, a literatura e outras linguagens. Para Dayse, o grupo teve papel decisivo na projeção de artistas negros e negras e na transformação das perspectivas sobre quem ocupa o centro das narrativas. Um exemplo é “Ó Paí, Ó”, história criada a partir de um processo colaborativo do Bando que chegou ao cinema e posteriormente à televisão.

“O grupo não apenas abriu espaço para esses artistas: ajudou a transformar o olhar sobre quem pode ocupar o centro da narrativa, quais histórias merecem ser contadas e a partir de quais perspectivas elas podem ser construídas”, ressalta a curadora. Para ela, o Bando representa um patrimônio vivo, cuja trajetória continua formando artistas e produzindo novas possibilidades. “O legado do Bando não está apenas nos artistas que integram o grupo atualmente, mas também em todas as pessoas que passaram por ele e hoje estão brilhando no cinema, no audiovisual e em outras artes”, acrescenta.
A programação também amplia a compreensão do audiovisual como um campo conectado à educação, à moda, à tecnologia e à economia criativa. Segundo Joana Fialho, a produção cinematográfica movimenta profissionais de diversas áreas e pode contribuir para a geração de trabalho, renda, conhecimento e desenvolvimento territorial. “Não estamos falando apenas de quem vai fazer cinema. Estamos falando de um ecossistema criativo, que pode gerar trabalho, conhecimento, renda, identidade e desenvolvimento”, afirma.

Outro eixo do festival é a formação de público. Oficinas, encontros com realizadores, debates e atividades destinadas a diferentes faixas etárias criam diferentes possibilidades de aproximação com o cinema. “Para algumas pessoas, é o filme que desperta o interesse. Para outras, é uma oficina, uma conversa com um realizador, uma atividade para crianças ou um debate. Quando a gente combina essas experiências, cria diferentes portas de entrada para o audiovisual”, explica Joana. Para ela, democratizar o cinema também significa garantir formação, circulação, acessibilidade e presença no ambiente on-line.
Cine SESI chega a Cachoeira
A terceira edição marca ainda a chegada do Cine SESI a Cachoeira, com uma programação que reúne a exibição de “Três Obás de Xangô”, um painel sobre cinema, memória e legado e uma experiência de live cinema em praça pública. A iniciativa faz parte da proposta de descentralização do festival e busca estabelecer uma relação direta com a produção cultural do território.
A escolha de “Três Obás de Xangô” tem relação direta com a identidade da cidade. O filme, que ainda não havia sido exibido em Cachoeira, dialoga com o território por abordar memória, patrimônio imaterial e imaginários ligados à cultura afro-brasileira. A sessão terá a participação do diretor Sérgio Machado, que retorna ao município onde filmou parte de “Cidade Baixa”, e de Mameto Kamurici, que integra o filme. O painel também reunirá representantes da UFRB e de instituições locais ligadas à cultura e ao conhecimento.
Para Dayse, a programação em Cachoeira representa uma oportunidade de aproximar cinema, território e comunidade. “Cachoeira é uma cidade histórica, detentora de diversos títulos, mas, sobretudo, é berço e território de resistência da cultura baiana”, afirma. Nascida e criada no município, a curadora destaca a relação pessoal com a cidade e considera que suas diversas camadas culturais foram fundamentais para sua formação.

Depois da exibição e dos debates, o público poderá acompanhar uma experiência de live cinema em praça pública. A proposta, segundo Joana, é fazer com que o território participe ativamente da programação. “Não queremos simplesmente levar uma programação pronta para uma cidade. Queremos chegar ao território e estabelecer uma relação de troca”, afirma.
A interiorização também reforça uma perspectiva estratégica do SESI Cultura Bahia. “A Bahia não termina em Salvador. E se a gente realmente acredita na democratização da cultura, precisamos fazer com que ela circule e chegue a diferentes territórios”, destaca Joana. Para ela, levar o Cine SESI a outros municípios significa reconhecer e dialogar com manifestações culturais que já existem e são produzidas nesses locais.
Ao reunir memória, produção contemporânea, formação, acessibilidade, homenagem e circulação territorial, o Cine SESI 2026 transforma o audiovisual em ponto de encontro entre diferentes gerações. A proposta é olhar para aquilo que já foi construído sem perder de vista o que ainda pode ser criado. Como resume Dayse Porto, “o que foi feito ontem sustenta o que fazemos hoje, e aquilo que está sendo produzido hoje já está construindo a memória que ficará para quem vem depois”.



