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Carnaval de Salvador 2026: expansão territorial, disputas simbólicas e a urgência de estruturar o futuro

Da força dos bairros aos recordes de público, do crescimento do Ouro Negro às tensões políticas da avenida, a festa reafirma sua potência e aponta para a necessidade de um novo modelo de desenvolvimento permanente.

Foto: Feijão Almeida/GOVBA

O Carnaval de Salvador 2026 foi construído muito antes da abertura oficial dos circuitos. Ele começou nas festas de largo, nos ensaios de verão, nas ocupações culturais dos bairros, na consolidação de novos polos de circulação e na ampliação da presença midiática e turística da cidade.

Entre 2019 e 2025, a festa atravessou interrupções, retomadas e crescimento exponencial. Em 2025, a Bahia recebeu cerca de 3,5 milhões de turistas no período carnavalesco, movimentando aproximadamente R$7 bilhões na economia estadual. Em 2026, o fluxo voltou a atingir patamares históricos, com dias em que o circuito Barra-Ondina se aproximou de 1 milhão de foliões.

Os números impressionam. Mas o Carnaval não é apenas estatística, é território, política, economia simbólica e disputa de narrativas.

O fortalecimento dos bairros e o Circuito Mestre Bimba

O crescimento do Carnaval de Itapuã e o êxito do Circuito Mestre Bimba confirmam uma tendência consistente: a descentralização territorial da festa.

O circuito atraiu grande mídia, blocos afros de relevância histórica e um número expressivo de foliões locais e turistas que se encantaram com a proximidade comunitária e a identidade cultural pulsante.

A força dos bairros demonstra que o Carnaval pode ser mais equilibrado, menos concentrado e mais integrado à vida cotidiana da cidade. No entanto, essa expansão exige governança e investimento contínuo.

Ouro Negro: crescimento histórico e necessidade de reestruturação

O Programa Ouro Negro atingiu em 2026 o maior investimento de sua história: R$ 17 milhões, beneficiando 95 entidades de matriz africana. O crescimento nos últimos anos é evidente, saindo de R$7,6 milhões em 2023 para R$15 milhões em 2024 e 2025.

Ainda assim, algumas agremiações históricas como Olodum, Filhos de Gandhy e Cortejo Afro apresentaram maior presença de marcas patrocinadoras, sinalizando relativo equilíbrio financeiro.

O avanço financeiro é relevante e simbolicamente importante. No entanto, permanece o desafio estrutural: transformar apoio sazonal em sustentabilidade anual.

Sem formação continuada, profissionalização da gestão e inteligência de mercado, as agremiações permanecem dependentes de editais e ciclos emergenciais.

O ponto central: estruturar a indústria do Carnaval

Se Salvador recebe reconhecimento internacional, inclusive com novo registro no Guinness Book Records, é preciso que esse protagonismo venha acompanhado de planejamento estrutural.

A criação de um Pólo Industrial, Tecnológico e Criativo do Carnaval Cultural e Afro torna-se urgente.

O Carnaval movimenta bilhões, mas sua cadeia produtiva permanece sazonal. Um polo estruturado poderia integrar formação técnica, inovação, incubação de startups criativas, inteligência de dados, internacionalização das marcas afro-baianas e governança cultural permanente.

Sem essa estrutura, a festa continuará crescendo em números, mas limitada à sustentabilidade.

Mercado, patrocínio, polaridades e disputas na avenida

A política de patrocínios master da Prefeitura de Salvador, especialmente com grandes cervejarias, tem concentrado ganhos econômicos nas marcas enquanto mantém ambulantes majoritariamente mulheres negras em condições extremamente desiguais. Expostos ao sol, à sobrecarga de trabalho e a margens mínimas de lucro, esses trabalhadores acabam inseridos em um modelo que reproduz uma lógica de exploração análoga à escravidão contemporânea, onde há visibilidade pública do evento, mas invisibilidade social de quem sustenta sua economia real. Parte dessa volumosa verba deveria, necessariamente, ser destinada ao fomento direto das entidades culturais carnavalescas. Além disso, a construção dos termos de referência das licitações de patrocínio precisa contar com a anuência e participação efetiva do Conselho Municipal do Carnaval e das representações de artistas independentes e blocos, garantindo transparência, equidade e democratização das decisões.

Ficamos assistindo a cidade se transformar em “templos de mercadoria”, perante a aridez estética e esquecemos que outra cidade já foi possível com decorações, adereços e alegorias criadas e pensadas pela nata de grandes artistas visuais e populares.

No campo artístico, manteve-se a hegemonia de nomes consolidados e pouca renovação estrutural. A participação do BaianaSystem em um dos camarotes de maior impacto econômico reacendeu os debates sobre mercado e rua. Dias depois, ao recepcionar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Campo Grande, a banda mobilizou uma multidão em uma manifestação política vibrante.

As disputas por posição na fila envolvendo o bloco Camaleão, liderado por Bell Marques, o tradicional Filhos de Gandhy, e a reivindicação pública de Daniela Mercury evidenciaram que o Carnaval segue sendo um campo de negociação “simbólica” e afirmação de poder financeiro., diante dos valores fundantes.

A síntese da quarta-feira: o Arrastão e o Padê

O encerramento oficial com o Arrastão na Barra-Ondina reafirmou uma tradição que devolve a festa à sua dimensão popular. Sem cordas, sem camarotes, sem mediações exclusivas, apenas artistas e multidão.

O Arrastão operou como rito de passagem: da euforia organizada ao reencontro direto entre povo e música. É nesse momento que o Carnaval se despe da lógica comercial e retoma sua essência de celebração coletiva.

Exú Raimundo Bouzanfraim no Pelourinho: ancestralidade e afirmação simbólica

No Pelourinho, o desfile de Exú Raimundo Bouzanfraim, liderado pelo ativista e carnavalesco Albino Apolinário, trouxe outro tipo de encerramento: espiritual, simbólico e ancestral.

Exú, mensageiro e senhor dos caminhos, encerra e abre ciclos. Sua presença na quarta-feira de cinzas reafirma que o Carnaval não é apenas espetáculo, é rito, memória e território afro-diaspórico.

O cortejo que já virou tradição no Centro Histórico desloca o eixo da festa do entretenimento para a dimensão cosmológica, lembrando que a matriz afro-brasileira não é adereço da festa: é fundamento.

Com o Arrastão da Quarta-feira de Cinzas e o cortejo de Exú Bozanfraim no Pelourinho, Salvador encerra um Carnaval histórico, que cresceu em números e simbolismos, mas que exige agora um planejamento estrutural para 2027.

O Carnaval de Salvador 2026 foi gigante em público, intenso em disputas e simbólico em seus desfechos.

Do fortalecimento dos bairros ao crescimento do Ouro Negro, das polaridades da avenida à ancestralidade do Pelourinho, a festa reafirma sua potência.

Agora, a cidade precisa transformar potência em política permanente.

O Carnaval se despede ao som do Arrastão e sob os caminhos abertos por Exú, Laroiê!.

Até breve.

O carnaval de 2027 já começou.

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