O mais belo dos belos tomou mais uma vez as ruas do circuito Osmar, no Campo Grande, em Salvador. O desfile do Ilê Aiyê reuniu música, estética afro-brasileira e mensagens de valorização da identidade negra nesta segunda-feira (16).

Entre os foliões, Sthefany Kelly, de 29 anos, trouxe a filha para desfilar no bloco afro e, junto, alimentar o sonho da menina de, um dia, tornar-se a Deusa do Ébano.
“Minha filha sai no Ilê desde o ano passado, principalmente pela representatividade. Ela ama o bloco. Quando vê a Rainha, os olhos chegam a brilhar; quando recebe um aceno, até se emociona”, contou a moradora do bairro da Liberdade.
Sthefany destaca a importância simbólica dessa vivência. “Acho muito importante que ela cresça sabendo de onde veio e onde quer chegar. Ela já diz que quer se candidatar futuramente à Beleza Negra.”
A pequena Valentina Vitória confirma a inspiração. “Eles passam uma mensagem muito legal. Representa respeito e também o não ao racismo”, disse a foliã. “Eu amo a Rainha do Ilê, ela é muito linda.” Questionada se pretende continuar a sair no bloco, ela respondeu com convicção: “Com certeza. Um dia quero me tornar a Rainha”, encerrou.
Ilê é história, Ilê é referência
Mais do que estética e moda, o Ilê Aiyê reafirma sua trajetória como símbolo de história, identidade e resistência cultural no Carnaval baiano.
Responsável pela estamparia do bloco, o designer Raimundo Santos destacou que a criação nasce da intensa pesquisa e do aprendizado contínuo sobre a cultura negra. Com 56 anos de Carnaval, ele afirma que cada tema amplia seu conhecimento e o desafia a transformar referências históricas em identidade visual.
“A gente sempre pensa que sabe tudo sobre a África, que sabe tudo sobre o povo negro, mas a gente não sabe uma gota do oceano que é a cultura negra. Então eu sempre estou aprendendo alguma coisa. Existe cultura negra espalhada por todo o Brasil, existe cultura negra espalhada por todo o mundo. E, nos temas do Ilê Aiyê, eu aprendo muito, porque tenho que pesquisar, tenho que ler para criar as estampas. Então, sempre é um aprendizado muito grande”, contou o artista.
Neste ano, o tema aborda Maricá, com foco na presença afro-indígena e nos povos Tupinambás que habitaram a região. Segundo Raimundo, a proposta trouxe uma perspectiva inédita ao desfile e reforçou a riqueza e a diversidade das matrizes culturais negras e indígenas.
“Pela primeira vez estamos falando de povos indígenas, como os Tupinambás que viviam em Maricá. Havia ocas, aldeias e quilombos na região, e isso trouxe um olhar diferente para o nosso trabalho. Estive lá realizando a pesquisa, e conhecer a cultura daquele povo foi um grande aprendizado. Para mim, cada tema é uma descoberta. Eu me divirto com o Carnaval há 56 anos”, afirmou.
Além de designer do Ilê Aiyê, Raimundo é dançarino e compositor, com músicas gravadas pelo próprio bloco e pelo Muzenza. “Fui um dos fundadores do Muzenza e também já passei pelo Olodum. A gente pensa que sabe muita coisa, mas, a cada tema, percebe o quanto ainda há para aprender. A cultura negra é imensa, muito mais rica do que se imagina”, concluiu.


