Artistas alegaram problemas com a produtora e comunicaram ao público quase ao mesmo tempo

Na manhã desta quarta-feira (15), as cantoras Ivete Sangalo e Ludmilla anunciaram o cancelamento das mega turnês com a produtora 30e. As artistas alegaram problemas com a produtora e comunicaram ao público, quase ao mesmo tempo, a respeito da decisão.
A empresa também foi responsável por organizar eventos de grande porte de outros artistas como o cantor Jão, cujo show em Salvador foi cancelado a poucos dias de acontecer.
“A decisão, embora dolorosa, revelou-se necessária a partir da constatação de que a produtora responsável pela realização dos shows não conseguiria garantir as condições necessárias para que as apresentações acontecessem da forma como foram concebidas, com a excelência e segurança prometidas e acordadas”, afirmou Ivete.
“Sempre tive grande preocupação em levar grandes experiências para o meu público. É o que tenho feito nesses últimos anos. [..] Espero conseguir me apresentar o quanto antes nas diversas cidades anunciadas”, escreveu Ludmilla.
Segundo informações do F5, da Folha de S. Paulo, a produtora não cumpriu prazos de entrega e não apresentou a logística para as artistas. No caso de Ivete Sangalo, a 30e não mostrou como seria a apresentação que abriria a turnê, em Manaus (AM). A produtora organiza toda a turnê sozinha, mas a prática é incomum, uma vez que, por questões logísticas, produtoras locais são procuradas para auxiliar em shows de artistas nacionais.
Na turnê ‘A Festa’, que celebraria os 30 anos de carreira de Ivete Sangalo, as vendas não estavam boas. O mesmo ocorreu com Ludmilla que, desde abril, já havia recebido sinalizações de produtores de algumas capitais informando que os shows da ‘In The House’ não iriam ocorrer. Ainda de acordo com o F5, em Aracaju (SE), houve baixo retorno de vendas para Ludmilla.
Apesar de ser especializada em produzir grandes eventos, a 30e revelou às artistas que estava sobrecarregada. Dos 14 eventos promovidos pela produtora, sete são grandes turnês. Em nota, a produtora se manifestou sobre os cancelamentos das turnês. Confira:
“A produtora lamenta, mas respeita a decisão unilateral das artistas e esclarece que, em nenhum momento, avaliou o cancelamento das duas turnês.
Em relação à turnê ‘Festa’, por questões de demanda, a empresa propôs à artista e sua equipe uma readequação da estrutura e produção e foi surpreendida com o comunicado publicado.
Em relação à turnê ‘Ludmilla in the house tour’, não houve nenhuma negociação anterior à decisão exclusiva da artista, e seu comunicado.
A 30e divulgará o mais breve possível os procedimentos relacionados ao reembolso para os fãs que já haviam adquirido ingresso.
Com mais de três milhões de pessoas impactadas anualmente pelos eventos que promove, realiza e produz, a 30e pode afirmar sua integral capacidade para cumprir seus compromissos com seus clientes, parceiros e patrocinadores, e informa que as demais turnês anunciadas estão confirmadas e ocorrerão”.
Até o momento, não foram divulgadas informações sobre reembolso para clientes que compraram ingressos para os shows de Ivete Sangalo e Ludmilla.
A 30e, produtora das turnês canceladas de Ivete e Ludmilla, citou falta de negociação e uma "questão de demanda". Já as duas cantoras falam que a empresa não cumpriu o contrato. Seja como for, hoje ficou claro que a megalomania do showbiz nacional tá com os dias contados.
— Carol Prado (@pradocrl) May 15, 2024
Valores
O cancelamento das turnês de Ivete e Ludmilla reacendeu o debate sobre a falta de acessibilidade a eventos grandes. “Depois do cancelamento de vários festivais, se juntam também turnês milionárias de duas das maiores artistas do país. a gente tá vendo um mercado em crise, quebrado, que teve um boom pós pandemia e agora não tem mais retorno nos investimentos. bora aguardar notícias da 30e…”, escreveu um usuário do X.
“Salário mínimo: 1.400,00. Ingresso do show: 400,00 … complicado mesmo”, disse uma usuária do instagram sobre o cancelamento dos shows.
“Ingressos, comida, bebida sendo vendidas por valores surreais de absurdos. Taxas absurdas de 20% pra comprar ingresso online, ausência de compra de ingresso de forma física. SEMPRE os mesmos artistas nos festivais… E enquanto isso, a galera de graxa, bares, portais, limpeza, todo tipo de freelance recebendo uma merreca por hoooras de trabalho em pé. Não está justo de diversas formas”, explicou outra usuária ainda no instagram.
O Portal Umbu fez um levantamento na plataforma de venda de ingressos, Eventim com os principais shows de artistas nacionais que serão realizados em Salvador este ano. Os ingressos para o show da turnê que Caetano Veloso e Maria Bethânia vão realizar em Salvador, por exemplo, custavam, em março, R$ 280 (inteira) / R$ 140 (meia-entrada).
O show de Jão, em 24 de agosto na Arena Fonte Nova, tem ingressos a partir de R$ 175, sendo que a inteira custa R$ 350. Já o show de Natiruts, previsto para acontecer em 7 de setembro deste ano na Arena Fonte Nova,
Atualmente, o salário mínimo está reajustado em R$ 1.412,00. De acordo com dados do Dieese, em fevereiro de 2024, o salário mínimo necessário para a manutenção de uma família de quatro pessoas deveria ter sido R$ 6.996,36.
O Mapa dos Festivais, uma plataforma voltada para o universo dos festivais, realizou, em 2023, uma pesquisa sobre esse segmento. De acordo com o relatório produzido, 71 festivais realizaram suas primeiras edições em 2023. R$ 329 é o valor médio de ingressos de festivais, foram ainda 32 festivais gratuitos. A plataforma mapeou para a pesquisa 298 festivais.
Quando olhamos para as regiões do Brasil, o sudeste é a região com o maior número de festivais do país, enquanto o norte, recebe o menor número de eventos deste porte, com apenas 9.
A produtora executiva e artística, Ana GB, analisou o cenário atual do mercado de entretenimento no Brasil. Para a profissional, o segmento está retornando ao estágio pré-pandemia.
“No pós [pandemia], a gente teve o boom de eventos, todo mundo queria trabalhar e recuperar a grana que se perdeu na pandemia. Tinha projetos que estavam passados e precisavam ser concluídos, tinha o público com saudade de viver todas as experiências possíveis, afinal a gente não sabia se a qualquer momento tudo fecharia de novo, né? Então compramos muitos eventos, consumimos tudo que estivesse dentro do nosso alcance e, muitas vezes, sem pensar. Agora que as coisas estão normalizando, as pessoas voltam a ser mais seletivas, pensando melhor no que e como gastar, isso impacta no mercado. Não acredito que chegue a ser uma crise, mas que é o momento de produtores repensarem seus eventos e a experiência que oferecem para o público”, comentou.
“Nos últimos dois anos tivemos um crescimento absurdo de novos eventos e festivais, muitos projetos pagos e gratuitos também. E com o detalhe de que, na maioria das vezes, as line-ups [lista de atrações] estão com artistas repetidos, o que acaba cansando e fazendo com que o público escolha melhor suas saídas”, continua Ana.
Sobre os valores de ingressos serem um fator que atrapalha a democratização de acessos a grandes shows, a produtora diz: “Valores de ingresso sempre foram uma questão impeditiva para a população acessar a cultura em geral. Nesses levantamentos [feitos pela reportagem], por exemplo, não são apenas shows, são turnês nacionais de grandes artistas. Por trás desse custo final, que vai para o consumidor, tem cachês de banda, estrutura, mão de obra, comunicação, entre tantos outros pontos. Alguns têm patrocínio, outros, não. Cada caso é um caso e, infelizmente, não temos acesso a essas planilhas milionárias”, explicou.
Para Ana GB, é necessário pensar novas ações para superar esses desafios. “Um dos caminhos é através da própria produção desses eventos, em pensar ações que democratizem esses acessos, sem prejudicar o negócio. Existe a Lei da Meia-Entrada para pessoas com baixa renda; entrada social que é um valor menor que o ingresso inteiro, mas tem uma doação envolvida; pode-se criar cupons de descontos para grupos específicos; hoje temos também as listas gratuitas ou com desconto para pessoas trans e já vi, em alguns lugares, para pessoas imigrantes. Enfim, existem muitos caminhos, acho que a gente precisa começar a agir mais do que falar”, finalizou.