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Bloco Alvorada reúne fé, samba e ancestralidade na 42ª Lavagem da Fonte do Gravatá

Celebração em Nazaré marcou o último ensaio antes do Carnaval e reafirmou a tradição religiosa e cultural do bloco pioneiro da Sexta-feira de folia em Salvador

Foto: Mirtes Fernanda

A Rua da Independência, no bairro de Nazaré, foi tomada por fé, samba e tradição no último dia 1º de fevereiro, durante a 42ª Lavagem da Fonte do Gravatá, promovida pelo Bloco Alvorada, a mais antiga do gênero no Carnaval de Salvador. O evento reuniu moradores, foliões e admiradores do samba baiano em uma celebração que reafirma a ligação histórica, cultural e religiosa do bloco com o território onde nasceu.

A programação teve início pela manhã, com missa na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, seguida do rito religioso no monumento da Fonte do Gravatá e do cortejo que percorreu o trajeto até o palco principal. O público acompanhou o desfile ao som da Banda Swing do Pelô, em um clima de devoção e alegria que marcou o último ensaio do Alvorada antes do Carnaval.

A partir do meio-dia, o evento ganhou contornos de grande encontro musical com shows gratuitos da ala de canto do Alvorada, além das participações de Ilê Aiyê, Roberto Mendes e Morango, reunindo diferentes gerações e estilos do samba e da música de matriz africana. A festa seguiu ao longo da tarde, fortalecendo o caráter popular da lavagem e sua importância no calendário cultural da cidade.

Realizada desde a década de 1970, a Lavagem da Fonte do Gravatá acontece no monumento instalado na esquina das ruas do Gravatá e da Independência e integra oficialmente o Calendário de Festas Populares de Salvador desde 2015. Neste ano, a celebração teve um significado especial ao consolidar o tema que o Alvorada levará para a avenida no Carnaval de 2026: “Nengua Guanguacese: 100 anos de mar, folha e fé”.

O tema presta tributo à sacerdotisa Dona Olga Conceição Cruz, conhecida como Nengua Guanguacese, uma das mais importantes lideranças espirituais da nação Angola e referência do Terreiro Bate Folha – Manso Banduquenqué, primeiro terreiro tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Figura central na história das religiões de matriz africana na Bahia, Nengua Guanguacese encantou-se em abril de 2023, aos 98 anos, deixando um legado de fé, acolhimento e resistência cultural.

A tradição religiosa da lavagem também evidencia a relevância histórica do monumento do século XVIII, situado ao lado da sede do bloco, fundada em 1975, na casa de número 55 da Rua do Gravatá. O local está entre a fonte dedicada ao orixá Nanã e a Igreja de Nossa Senhora de Santana, santa católica associada à divindade africana que rege a vida, a morte, a saúde e a maternidade.

Foto: Mirtes Fernanda

Patrocinada pelo Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria Estadual do Turismo (Setur), a Lavagem da Fonte do Gravatá reafirma o papel do Bloco Alvorada como guardião de uma tradição que une religiosidade afro-baiana, samba e identidade comunitária. Para o Carnaval de 2026, o desfile da Sexta-feira contará novamente com grandes nomes do samba baiano. A ala de canto reunirá Bira (Negros de Fé), Arnaldo Rafael, Romilson (Partido Popular), Marco Poca Olho, Valdélio França, Tiago Dantas (Representa) e Rogério Bambeia, além das participações especiais de Marquinho Sensação, Renato da Rocinha e Roberto Mendes.

Histórico

Fundado em 1º de janeiro de 1975 por jovens estudantes do Colégio Severino Vieira — entre eles Vadinho França, também fundador da Unesamba —, o Bloco Alvorada nasceu no Gravatá e foi responsável por inaugurar a Sexta-feira de Carnaval, abrindo oficialmente o primeiro dia da festa em Salvador. Seu nome simboliza esse papel histórico: anunciar o amanhecer do Carnaval e o despertar da alegria popular.

Ao longo de cinco décadas, o Alvorada preserva sua essência com repertório próprio, ala de canto formada por artistas da terra, ala das baianas, passistas e o tradicional galo de três metros, que abre o cortejo carnavalesco. Durante todo o ano, a agremiação também desenvolve ações sociais e culturais junto à comunidade, como a Feira de Empreendedores Negros, o caruru que marca o início dos ensaios e a própria Lavagem da Fonte do Gravatá, reforçando sua ligação espiritual com o Terreiro Bate Folha e com a religiosidade afro-baiana.

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