Mais antigo bloco de samba da folia transformou a avenida em ato contra o racismo e uniu tradição e juventude com o grupo Banjo Novo

Foto: Divulgação
Quando o galo do Alvorada desponta no Campo Grande, a Sexta-feira de Carnaval ganha um significado que vai além da festa. Em 2026, o bloco mais antigo de samba de Salvador transformou o Circuito Osmar em um templo a céu aberto para celebrar Nengua Guanguacese.
O tema “100 anos de mar, folha e fé” homenageou o centenário de Dona Olga Conceição Cruz, matriarca do Terreiro Bate Folha. Mais do que um tributo, o desfile foi um ato político contra o racismo religioso e a intolerância.
“O tema faz parte das nossas pautas do ano inteiro. É sobre a vida e a resistência de uma mulher preta de candomblé, reafirmando nosso compromisso histórico com as religiões de matriz africana”, definiu Vadinho França, presidente da agremiação.
Encontro de Gerações
Fundado em 1975, o Alvorada mostrou que tradição não significa paralisia. A ala de canto, recheada de bambas como Bira (Negros de Fé), Arnaldo Rafael e convidados como Renato da Rocinha e Roberto Mendes, ganhou o reforço da juventude.
A presença do grupo Banjo Novo simbolizou essa renovação. “Estar no Alvorada é uma honra. Não existe futuro sem quem abriu caminho. Chegamos para somar e mostrar que o samba também é linguagem da juventude”, afirmou Samora Lopes, um dos idealizadores do movimento.
Orgulho na Avenida
Para os foliões, desfilar no Alvorada é reafirmar identidade. A enfermeira Kátia, de 52 anos, voltou ao Carnaval graças ao bloco. “O Alvorada resgatou meu gosto pela folia. É gente preta, gente bonita. Precisamos acabar com esse paradigma de que beleza é só branca”, desabafou.
Já a estudante de biomedicina Ayanna Trinchão, de apenas 19 anos, resumiu o sentimento de quem pisa no chão sagrado do Campo Grande: “É maravilhoso porque o samba é nossa raiz. É uma sensação única, porque a gente cultua também os nossos ancestrais”.


