...

Portal UMBU

Bloco Alvorada celebra 100 anos de Nengua Guanguacese e promove encontro de gerações no Carnaval de Salvador 2026

Bloco mais antigo de samba da folia baiana desfila na Sexta-feira de Carnaval com grandes nomes do gênero, homenagem ao Terreiro Bate Folha e participação do Banjo Novo, símbolo da renovação do ritmo

Foto: Divulgação

O Carnaval de Salvador 2026 será marcado por um encontro potente entre passado, presente e futuro do samba. O Bloco Alvorada, mais antigo bloco de samba da folia baiana, realiza seu tradicional desfile da Sexta-feira de Carnaval reafirmando sua vocação histórica: preservar a tradição sem abrir mão do diálogo com as novas gerações.

Com o tema “Nengua Guanguacese: 100 anos de mar, folha e fé”, o Alvorada presta homenagem à sacerdotisa Dona Olga Conceição Cruz, referência maior do candomblé Angola e do Terreiro Bate Folha — o Manso Banduquenqué, primeiro terreiro tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A escolha do tema atravessa gerações e conecta o sagrado ao popular, o terreiro à avenida, a ancestralidade ao samba que pulsa no presente.

A homenagem celebra o centenário da líder religiosa nascida em 17 de março de 1925 e iniciada aos 24 anos por Pai Bandanguame. Detentora da dijina do nkisi Kukueto, divindade das águas profundas, ela dedicou 74 anos ao sacerdócio, guiando centenas de filhos e filhas de santo e consolidando o Bate Folha como espaço fundamental de resistência das religiões de matriz africana. Encantada em abril de 2023, deixou um legado de fé, cuidado e partilha que segue inspirando novas gerações.

No desfile, o Alvorada propõe um verdadeiro rito de reverência estruturado em três forças que marcaram a trajetória da sacerdotisa: o mar, símbolo da criação e do movimento da vida; a folha, expressão da cura e do axé; e a fé, fio condutor que une espiritualidade, samba e identidade negra. O branco que toma a avenida traduz esse elo entre o sagrado e o profano, entre o tambor e o coração do povo. O Carnaval 2026 do bloco Alvorada conta com o patrocínio do governo do estado através da Bahiagás e do Programa Ouro Negro gerenciado e mantido pelas secretarias de Cultura do Estado da Bahia e Promoção da Igualdade Racial.

A ala de canto reunirá grandes nomes do samba baiano, reforçando a tradição musical do bloco: Bira (Negros de Fé), Arnaldo Rafael, Romilson (Partido Popular), Marco Poca Olho, Valdélio França, Tiago Dantas (Representa) e Rogério Bambeia, com participações especiais de Marquinho Sensação, Renato da Rocinha e Roberto Mendes.

Como expressão do diálogo entre gerações, o desfile de 2026 contará também com a participação do Banjo Novo, movimento que representa a renovação da linguagem do samba e a conexão direta com a juventude. Ao integrar o cortejo do bloco mais antigo do samba no Carnaval de Salvador, o Banjo Novo simboliza a continuidade da tradição por meio da reinvenção, colocando o banjo no centro da cena e aproximando novas linguagens, rodas de samba e públicos urbanos.

Para o presidente do Alvorada, Vadinho França, o encontro traduz o próprio sentido do samba. “O samba só existe porque passa de mão em mão, de geração em geração. Quando a juventude chega, ela não apaga a história — ela amplia”, afirma.

Fundado em 1º de janeiro de 1975 por jovens estudantes do Colégio Severino Vieira, entre eles o próprio Vadinho França — também fundador da Unesamba, que reúne os blocos de samba da folia baiana —, o Alvorada nasceu no bairro do Gravatá e foi responsável por inaugurar a Sexta-feira de Carnaval, abrindo oficialmente a festa na capital. Seu nome simboliza esse papel histórico: anunciar o nascer do Carnaval e o despertar do samba na avenida.

Ao longo de cinco décadas, o bloco manteve características que o tornam único: repertório próprio, ala de canto com artistas da terra, ala das baianas e de passistas, além do tradicional galo de três metros que abre o cortejo. Fora da avenida, o Alvorada segue atuando durante todo o ano com ações sociais e culturais, como a Feira de Empreendedores Negros, o caruru que marca o início dos ensaios e a Lavagem da Fonte de Nanã, rituais que reforçam sua ligação com o Terreiro Bate Folha e com a religiosidade afro-baiana.

Mais do que um desfile, o Alvorada propõe, em 2026, uma celebração do tempo. Um samba que honra quem veio antes, acolhe quem chega agora e aponta para o futuro — mostrando que tradição e renovação não se opõem, mas caminham juntas na batida do tambor e do banjo.

Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado

POSTS RELACIONADOS