
Cercada da alegria no olhar de seus moradores e com cânticos ancestrais, a cidade de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, amanheceu com uma alvorada de fogos no Largo do Mercado dando início aos festejos do “Bembé do Mercado”, neste terça-feira, 13 de maio. Ao longo de 136 anos de existência e resistência e combate à intolerância religiosa , o já consagrado “Maior Candomblé de Rua do Mundo”, tem em sua programação cerca de 70 ações culturais e religiosas.
A Lavagem do Busto de João de Obá deu início das atividades deste evento que já é reconhecido, desde 2012, como Patrimônio Imaterial da Bahia, desde 2019 como Patrimônio Cultural Nacional e já aguarda para se tornar Patrimônio da Humanidade junto à UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura).
Pai de santo de origem africana, João de Obá, fundou o Bembé do Mercado em 13 de maio de 1889. O busto em sua homenagem foi instalado no Largo do Mercado, na região central. A obra passa a fazer parte do circuito turístico do município baiano, com visitação gratuita. O monumento faz coro à resistência da população negra contra o racismo e o combate à intolerância religiosa no país, assim como defende a preservação da cultura e das tradições de matriz africana no Brasil.
Para Maria Rita Câmara, bacharel em Cultura pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), o maior candomblé de rua do mundo é um lembrete da necessidade respeitar e acolher as diferenças. Católica, ela conta que não participa do Bembé, mas diz que não há motivos para distinção. “Eu respeito todas as religiões. Todas acreditam em Deus. Cada uma tem o seu segmento e a gente tem que respeitar e abraçar a todas”.
A escultura de João de Obá foi produzida pela artista plástica soteropolitana Annia Rízia, mede 56 cm de altura e 40 cm de comprimento e foi confeccionada com resina revestida com pó de mármore e grafite, matérias-primas compatíveis com a manutenção da obra em espaço aberto. O projeto foi idealizado pelo Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), de Salvador, e realizado em parceria com a Associação Beneficente Bembé do Mercado, o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) vinculado ao Governo da Bahia e a Prefeitura de Santo Amaro.
Visitando o Recôncavo da Bahia pela primeira vez, a brasiliense Ana Caroline Brito, conhecida como “Ana Poney”, é bacharel em cinema e mídias digitais, diretora, roteirista, fotógrafa, dançarina e produtora cultural desde 2016, tem pesquisa e produção de filmes com temáticas voltadas a questões de gênero, raça e LGBTQIA+. “É a minha primeira vez aqui. Eu estou animada porque também sou macumbeira. Acho que é um momento assim para além de ser cultural, mas também conhecer um pouco da espiritualidade aqui no Recôncavo”, afirmou a analista de conteúdo da plataforma de streaming Todesplay, voltada para o Cinema Negro. Para ela, ser de Terreiro e pisar na cidade de Santo Amaro é sentir a energia da história das religiões de matriz africana.
Durante a Lavagem do busto de João de Obá, os adeptos de Candomblé reafirmaram a memória deste babalorixá que foi um negro escravizado de origem Malê, termo usado para designar os africanos de origem muçulmana. Ele dominava a arte do Ifá, jogo de búzios, e era filho do Orixá Xangô (Obá). O Bembé se caracteriza como uma obrigação religiosa destinada às divindades das Águas para agradecer e propiciar o bem-estar da coletividade.
Quem também está na cidade de Santo Amaro é a belenense e produtora audiovisual Taiana Pinheiro, que participa pela primeira vez do Bembé do Mercado e busca expandir o seu conhecimento em políticas públicas e gestão cultural. Em sua cidade natal, Pinheiro atua como Conselheira Municipal de Cultura e foi através dessa função que ela percebeu a importância em se aprofundar nas políticas de cultura para além do seu próprio estado de origem.
“O Bembé do Mercado já começou e já estou tendo várias trocas de saberes bacanas. Já encontrei muita gente de várias áreas de atuação. Estou com expectativas muito altas nessa espécie de ‘imersão’. É um momento estratégico também estar aqui no Recôncavo da Bahia.”
Para David Sol, comunicador popular e pesquisador de Culturas Brasileira, o mercado, nesse contexto, não é apenas o cenário da celebração. Ele é parte da narrativa. Espaço de trocas, memórias e afetos, o Mercado Público de Santo Amaro é protagonista junto ao povo-de-santo. É nele que se constroem as camadas simbólicas e afetivas que transformam um espaço comercial em santuário coletivo.
A cidade, seus rios e ruas, vibram com essa festa que não se esgota no passado, mas afirma um projeto de futuro, onde as encruzilhadas não são fim, mas passagem. O Bembé do Mercado é, assim, herança e reexistência. Uma celebração onde o tempo se dobra e os ancestrais caminham entre os vivos. Um gesto político e espiritual que, ano após ano, transforma Santo Amaro em solo sagrado de memória e liberdade.
O Bembé do Mercado segue com programação cultural e religiosa até domingo (18) reafirmando o protagonismo dos povos de axé, dos saberes tradicionais e da cultura afro-brasileira.
Serviço :
Terça-feira, 13 de maio:
- 05h – Alvorada e hasteamento da bandeira
Local: Largo do Mercado - 6h – Lavagem do busto de João de Obá
Local: Largo do Mercado - 15h30 – Cerimônia de abertura oficial das celebrações civis do Bembé do mercado
Local: Largo do Mercado - 10h às 18h – Exposição: Sabejé Ojú Onirê, de babá Geri
Local: Largo do Mercado - 19h – Xirê de abertura
Local: Largo do Mercado
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Escrito por Patrícia Bernardes Sousa, jornalista, redatora, mobilizadora de projetos de Impacto Social em Educação e Cultura Identitária e repórter do Portal UMBU




