
A dirigente do bloco Carnavalesco Pagode Total, Ariane Barreto, destaca o samba como patrimônio cultural do povo negro baiano e como instrumento permanente de resistência social, política e identitária. Ao refletir sobre os 110 anos do samba e sua origem na Bahia, ela relaciona sua trajetória pessoal ao papel histórico desempenhado pelos blocos de samba no Carnaval de Salvador e nas comunidades onde atuam.
O primeiro contato de Ariane com o samba aconteceu ainda na infância, em um ambiente familiar profundamente marcado pela música e pela ancestralidade. “Meu primeiro contato com o samba aconteceu ainda muito cedo, dentro de casa e com os meus tios que foram os criadores do Gera Samba. O samba sempre esteve presente como linguagem de afeto, identidade e resistência, algo que eu absorvi naturalmente antes mesmo de pensar nele como caminho de trabalho”, afirma.
Com 16 anos de bloco, Ariane acompanha de perto a construção coletiva do Pagode Total, que tem sua história ligada ao engajamento comunitário e à valorização do samba de rua. Fundado no bairro do Engenho Velho da Federação, o bloco surgiu a partir de um grupo de amigos que saiu às ruas de forma espontânea, arrastando foliões com samba, alegria e irreverência. Com o tempo, o Pagode Total consolidou-se como uma das referências do samba no Circuito Osmar, mantendo um desfile marcado pela participação popular e pela preservação da tradição sambista no Carnaval de Salvador.

Para Ariane, compreender o samba como patrimônio passa pelo reconhecimento de seus territórios de origem e de seus protagonistas históricos. “O samba, nesses 110 anos, é patrimônio do povo negro baiano. Ele nasce da memória, da resistência e da vivência do nosso povo. Vem do Recôncavo Baiano, dos terreiros de candomblé e dos bairros populares de Salvador, onde o samba sempre foi vivido no dia a dia, no quintal, na rua e na festa”. Ela ressalta ainda a importância de personagens fundamentais dessa trajetória: “Personagens como Tia Ciata, Batatinha, Riachão, entre tantos outros, são parte dessa história que mantém o samba vivo até hoje”.
Mesmo após mais de um século de existência, o samba segue sendo, segundo a dirigente, uma ferramenta de afirmação identitária e de luta cotidiana nas comunidades onde os blocos atuam. “Ele fortalece a identidade negra, reafirma pertencimento e mantém viva a memória dos ancestrais”. Ariane destaca que os blocos de samba cumprem também uma função social e política, ao ocuparem o território, criarem alternativas culturais para a juventude e denunciarem o racismo, a violência e as desigualdades. “Transformamos alegria em resistência”, resume.
Ela chama atenção ainda para os símbolos e valores ancestrais presentes na essência do samba. “O samba carrega símbolos e valores ancestrais africanos como a roda, o tambor, o canto coletivo, o gingado do corpo e a ancestralidade. Ele traz a ideia de comunidade, respeito aos mais velhos, memória e espiritualidade”. No Carnaval de Salvador, esses elementos, segundo ela, são preservados quando os blocos transformam o desfile em ritual, a avenida em roda e o samba em ferramenta de afirmação negra.

Ao avaliar o papel institucional dos blocos de samba, Ariane destaca a atuação conjunta com a Unesamba na luta por reconhecimento e políticas públicas. “Os blocos de samba e a Unesamba cumprem um papel fundamental de resistência e articulação política no Carnaval de Salvador. A gente é quem garante a visibilidade do samba, enfrentando a lógica que prioriza gêneros mais midiáticos e comerciais”. Ela reforça: “Juntos afirmamos que o samba não é passado nem coadjuvante, é a base do Carnaval, patrimônio cultural e expressão legítima da cultura negra soteropolitana”.

Para Ariane Barreto, celebrar os 110 anos do samba no Carnaval é, também, um ato político. “Celebrar os 110 anos do samba no Carnaval é afirmar que ele não é só música, é memória, identidade e muita luta”. Segundo ela, a homenagem reforça o reconhecimento da Bahia como base do samba e do próprio Carnaval, além de lançar um chamado ao país. “Para o Brasil, é um convite a corrigir apagamentos históricos e valorizar quem construiu essa cultura com resistência e ancestralidade”. E conclui: “Para as futuras gerações, essa homenagem diz que o samba segue vivo, atual e necessário. Que cantar, tocar e desfilar também são formas de lutar, ocupar espaços e contar a própria história. Tradição não é passado, é futuro em construção”.


