
Brasil e Estados Unidos passam por um momento delicado em sua relações políticas, contudo o histórico desses países revela uma conexão: as suas origens. Revisitando as raízes africanas e os frutos dessa herança ao longo do tempo, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) reúne no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB) a exposição “Ancestral: Afro-Américas”, que será inaugurada nesta sexta-feira (26), em Salvador, depois de passagem por Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Artistas negros dos dois países como Abdias Nascimento, Simone Leigh, Emanuel Araújo, Sonia Gomes, Leonard Drew, Mestre Didi, Melvin Edwards, Lorna Simpson, Kara Walker, Bispo do Rosário, Carrie Mae Weems, Mônica Ventura e Julie Mehretu estão entre os autores das mais de 130 obras expostas.
Com direção artística de Marcello Dantas e curadoria de Ana Beatriz Almeida, a mostra está dividida em três núcleos temáticos – Corpo, Sonho e Espaço -, nos quais o público é convidado a refletir, questionar e pensar a respeito da afirmação do corpo, a dimensão reflexiva dos sonhos e a reivindicação de espaço. Há ainda uma seção dedicada à arte africana tradicional, montada com a curadoria de Renato Araújo da Silva.



Durante visita guiada nesta quinta-feira (25), a curadora abordou temas como diáspora, identidade, lazer e fé, tópicos inerentes ao debate da negritude. “O tema da diáspora começou a ser incorporado no discurso de alguns pan-africanistas. [Édouard] Glissant, quando vai pensar sobre o conceito de negritude, percebe que o mundo ficou muito chocado com a Segunda Guerra porque as pessoas estavam sendo mandadas para campos de concentração e isso foi considerado crime contra a humanidade”.
“Eles [os pan-africanistas] falam: ‘E a gente aqui? 300 anos nessa desgraça? Isso não é crime contra a humanidade?’. Então, a primeira geração de panafricanistas começa a acolher esses termos usados pelos judeus. ‘Diáspora’ é um termo que, inicialmente, descrevia o movimento de dispersão dos povos judaicos. E é assim que eles vão justificar que aquela região de Israel é deles. Só que, em sua origem, a noção de “judeu” tem a ver com o Antigo Testamento na Etiópia e também com a cabala. Então, é muito doido porque, ao mesmo tempo que você tem uma sensibilização da branquitude para termos como ‘gueto’ e ‘diáspora’, que são usados para reivindicar o território de Israel, originalmente, essa história tem raízes etíopes”, explicou Ana Beatriz Almeida.
Citando Cheikh Anta Diop, a curadora falou ainda sobre a proximidade do povo etíope com o povo do Egito Antigo, o que resulta nos conhecimentos da cabala, que vêm originalmente dos povos etíopes e também derivam dos povos keméticos, desçam pela bacia do sul, chegando até Congo e Angola, iniciando “todas as tradições banto que a gente tem”.

“E ele navega até a África Ocidental, a Nigéria, que vai dar no nosso famoso Exu. Então a gente vê como os conhecimentos vão conversando. E o três é justamente o número da realização. No Ifá, o três é quando muitas entidades masculinas abrem caminho. Exu responde no três, Ogum responde no três. O três é o número do desenvolvimento. E isso também aparece na cabala.”

”O três é quando a gente começa a entrar num sistema mais próximo dos planetas, que se vê daqui. Três: você sai de Saturno e começa a entrar em um sistema solar simbólico. E aí vem a questão: será que os judeus estão mesmo tão longe dos povos africanos? Esse lugar do três tem a ver com a manifestação do que é visível. Isso no Ifá, na cabala, no Merimdilogum, no candomblé. O três sempre aponta para uma escolha. E a gente pensou nisso sem querer, mas faz sentido, porque a gente vive hoje num mundo em que a democracia está sendo questionada diretamente. Esse lugar do ‘três’, da opção, da escolha, é hoje um privilégio”, explicou.
Sobre a disposição das obras e as diferentes perspectivas, a curadora comentou como as experiências particulares de cada país influenciam a compreensão de cada obra de forma individual e coletiva. “Usamos essa noção dos ângulos espalhados: de cada ângulo, você tem um tipo de negociação. Isso parte da nossa própria história de resistência. O ângulo afro-americano é totalmente diferente do ângulo brasileiro. Então, cada ângulo que você olhar na disposição também vai dialogar, de alguma forma, com um eixo político e conceitual de encontro ou divergência dessas duas culturas”.

A exposição “Ancestral: Afro-Américas” será aberta nesta sexta-feira (26), e segue no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB) até fevereiro. Os ingressos custam R$20 (inteira) e R$10 (meia), com entrada gratuita para todos os visitantes nas quartas-feiras e domingos.
Serviço:
O que: Exposição “Ancestral: Afro-Américas”
Quando: 26 de setembro de 2025 a 1º de fevereiro de 2026
Onde: Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB) – Rua das Vassouras, 25, Centro Histórico, Salvador-BA
Classificação: Livre
Funcionamento: Terça a domingo, às 10h às 17h (acesso até às 16h30)
Entrada: R$20 inteira e R$10 meia (clientes do Banco do Brasil pagam meia entrada)
*As vendas de ingressos acontecem na bilheteria do local e no site do Museu (http://museuafrobrasileiro.com.br ). A entrada é gratuita para todos os visitantes nas quartas-feiras e domingos.


