
Ao celebrar os 110 anos do samba e seu nascimento na Bahia, o dirigente e fundador do bloco carnavalesco Alvorada, Vadinho França, defende que a homenagem ao gênero precisa ir além do reconhecimento simbólico no Carnaval e se traduza em respeito permanente, políticas públicas e presença ao longo de todo o ano. Para ele, o samba é parte estruturante da história da festa e da identidade cultural do povo negro baiano.
Segundo Vadinho, os blocos de samba foram fundamentais na construção do Carnaval de Salvador desde os seus primórdios. “Os blocos sempre fizeram samba. Alguns ficaram pelo caminho, outros resistiram, mas o samba nunca deixou de existir. Hoje ele vive um outro momento: é de segunda a segunda, faz parte do vocabulário da juventude”, afirma.
Apesar da diversidade de ritmos que compõem a festa, o dirigente avalia que o samba ainda disputa espaço e visibilidade institucional. “O Carnaval da Bahia é muito rico, mas o samba precisa estar para além do Carnaval. Se hoje ele está visível, em rádios online e eventos, foi muito mais pela resistência de quem faz samba do que por incentivo estruturado”, analisa.

Para Vadinho França, o samba também é uma poderosa ferramenta de afirmação identitária e de resistência social. Ele destaca que, durante os dias de festa, o gênero é um dos mais executados, especialmente em territórios tradicionais como o Circuito Osmar (Campo Grande), além de bairros como Nordeste de Amaralina e o Garcia, com o circuito Riachão. “O samba é forte porque leva o povo para a rua”, resume.
No Carnaval de Salvador 2026, o bloco Alvorada desfila na próxima sexta-feira (13) com o tema “Nengua Guanguacese: 100 anos de mar, folha e fé”, em homenagem ao centenário de Nengua Guanguacesse (Dona Olga Conceição Cruz), uma das grandes matriarcas do Terreiro do Bate Folha e referência histórica do Candomblé de origem Congo-Angola. A escolha reforça o diálogo entre samba, espiritualidade e ancestralidade, marcas centrais da trajetória do bloco. Para Vadinho França, a homenagem reconhece uma mulher que, ao longo de quase um século de vida, guiou sua comunidade com sabedoria, afeto e firmeza, tornando-se elo entre tradição, resistência e fé. “Dedicar o Carnaval de 2026 à memória de Nengua Guanguacesse é reafirmar nosso compromisso com as raízes afro-brasileiras e com as mulheres que sustentam nossa história”, afirma.

Fundado em 1º de janeiro de 1975, por um grupo de estudantes do Colégio Estadual Severino Vieira, o Bloco Alvorada marcou o início de uma tradição que ajudou a transformar o Carnaval de Salvador. Pioneiro no desfile da sexta-feira, quando ainda não havia programação oficial nesse dia da folia, o Alvorada consolidou-se como referência do samba no circuito Osmar. Com sede na Rua da Independência, no coração da capital baiana, a agremiação, hoje Instituto Cultural Alvorada Bahia, é reconhecida como o bloco de samba mais antigo em atividade no Carnaval da cidade e celebra, em 2026, 51 anos de história, reunindo mais de meio século de música, cultura, resistência e compromisso com o samba.
Ao falar sobre renovação e futuro, Vadinho França chama atenção para o impacto social e econômico do samba. “Hoje ele gera emprego, renda e movimenta uma cadeia enorme: músicos, técnicos de som, iluminação, segurança, limpeza, bares, designers, redes sociais. Muita gente se mantém financeiramente graças ao samba”, pontua. Segundo ele, o Alvorada atravessou momentos difíceis sem abrir mão da tradição. “Aqui o samba não é opção, é regra”, diz, citando um lema que sintetiza a trajetória do bloco.

Vadinho também classifica a celebração do samba no Carnaval como um ato político. Para ele, a homenagem aos 110 anos do gênero deve ser “afetiva e construtora”, refletindo-se em maior integração do samba nas programações oficiais da cidade, como festas de fim de ano e grandes eventos promovidos pelo poder público. “É bonito lembrar do samba no Carnaval, mas ele pode e deve ser melhor contemplado o ano inteiro”, defende.
Sobre as expectativas para o Carnaval deste ano, o dirigente afirma que os blocos de samba seguem como uma das maiores forças populares da festa. “Os próprios dados dos organizadores mostram que, quando os blocos de samba desfilam no Circuito Osmar, é onde se concentra mais público. O samba tem essa capacidade de mobilizar”, conclui.



Uma bela explanando do quê é realmente a nossa raiz, sou um dos fundadores e sei o quanto foi difícil manter essa agremiação.
Desejo aqui meus parabéns pelos 51 anos de resistência dessa agremiação.