Uma análise sobre a violação da soberania, os interesses geopolíticos e a gritante hipocrisia nas relações internacionais.

Foto: Hector Vivas – FIFA/FIFA via Getty Images
Em um cenário geopolítico cada vez mais complexo, a postura agressiva dos Estados Unidos em relação à Venezuela nos obriga a uma reflexão crítica, que deve transcender simpatias ou antipatias pelo governo de Nicolás Maduro. A questão fundamental não é sobre apoiar ou se opor a um regime político específico, mas sim sobre defender um princípio basilar do direito internacional: a soberania de uma nação.
O pretexto da “Democracia” e os interesses reais
A narrativa de que uma intervenção militar, com a possível deposição e sequestro de um presidente eleito, serviria para “levar a democracia” a um país latino-americano é, no mínimo, falaciosa. A história está repleta de exemplos que demonstram que tais ações raramente são motivadas por altruísmo. Quando uma potência global alega intenções democráticas para justificar uma invasão, é nosso dever questionar: a quem essa “democracia” realmente serve?
Todos sabem que os interesses por trás dessa hostilidade são, em grande parte, políticos e financeiros. A Venezuela detém uma das maiores reservas de petróleo do mundo, um recurso estratégico que sempre esteve no centro de disputas globais. Controlar ou, no mínimo, garantir acesso privilegiado a essa fonte de riqueza é um objetivo geopolítico poderoso, que se sobrepõe a qualquer discurso sobre liberdade e direitos humanos.
O Silêncio Ensurdecedor e o Paradoxo das Punições
O que mais espanta é a passividade de grande parte da comunidade internacional. Por que nações que se posicionam firmemente em outras situações de conflito permanecem em silêncio diante de uma ameaça tão explícita à soberania de um país? Onde estão as ameaças de sanções e a mobilização diplomática que vemos em outros contextos?
A comparação com a reação à invasão da Ucrânia pela Rússia é inevitável e dolorosamente reveladora. A Rússia foi alvo de uma avalanche de sanções econômicas, políticas e, notavelmente, esportivas. Atletas foram banidos, federações cancelaram eventos e o país foi isolado do esporte global.
Agora, a pergunta que paira no ar é: alguém consegue imaginar o mesmo rigor sendo aplicado aos Estados Unidos? Alguém consegue vislumbrar federações esportivas cancelando eventos em solo americano ou barrando a participação de seus atletas em competições internacionais?
A FIFA, a Copa e o Prêmio da Paz
A hipocrisia atinge seu ápice quando lembramos que estamos em ano de Copa do Mundo, um evento que, em tese, celebra a união dos povos. E onde uma parte significativa deste torneio será realizada? Nos Estados Unidos. Quem o realiza? A FIFA.
A mesma FIFA que, há menos de um mês, não hesitou em conceder um “Prêmio da Paz” a Donald Trump, uma figura política controversa e diretamente ligada a políticas de pressão contra nações como a Venezuela. A mensagem que fica é a de uma conivência perturbadora, onde os princípios são flexíveis e aplicados seletivamente, dependendo de quem é o agressor.
A verdadeira questão não é se gostamos ou não de Maduro. A questão é se aceitamos um mundo onde um país possa, unilateralmente, decidir o destino de outro, invadir seu território e derrubar seu governo em nome de interesses próprios, disfarçados de uma cruzada democrática. A soberania venezuelana é um teste para a coerência e a justiça de toda a ordem internacional. Até agora, o resultado é reprovador.


