
Está chegando o dia da romaria mais festiva dentre as muitas que acontecem pelo país. Andar em nome da fé é muito comum nas devoções brasileiras, mas em meio ao balançar de quadris, seja na percussão, samba-reggae, piseiro ou o que der na telha, só mesmo na Lavagem do Bonfim. Este que é apenas um rito dentre as celebrações ao Senhor da Boa Morte, em uma das muitas invocações a Jesus Crucificado, é tão potente que se confunde com a própria festa, cujo ponto alto – missa e procissão- só acontece no domingo. Mas este é apenas um detalhe para muita gente que festeja o Senhor do Bonfim caminhando e unindo a fé ao forte tempero de alegria. A Lavagem é extremamente potente e guarda muitas histórias com base na insubmissão política. Então, como já é de costume neste espaço, pega a pipoca que já vamos começar a bater esse acaçá, afinal é dia também de lembrar do Grande Oxalá.

1. A lavagem proibida virou o elemento mais visível da festa
No ano da Proclamação da República no Brasil, 1889, o então titular da Diocese de Salvador, Dom Luís Antônio dos Santos tomou uma atitude que podemos considerar no espírito dos novos tempos. Com a República foi Estado para um lado e religião para o outro, ou seja, estavam estabelecidos os princípios da laicidade. No caso de Dom Luís Antônio, a ideia era separar religião de diversão. Não temos muitos detalhes, mas dá para imaginar o que andava acontecendo no interior do templo de devoção ao Senhor do Bonfim. Antes de festas de santos e ainda mais uma de devoção tão ampla e com ampla adesão das classes mais abastadas daquela Salvador do século XIX, se lavava as igrejas.
Mas imagine se, mesmo depois da abolição, trabalho manual era coisa para mãos delicadas de senhoras consideradas de elite ou das suas rebentas. Homens, então, iam lá pegar em baldes e outros apetrechos mesmo que fosse para deixar a igreja do Senhor do Bonfim pronta para os festejos? Nada. Era gente do povo que fazia o esforço mesmo. E, “povo”, leia-se naquele momento os recém-libertos, que não tinham mudado tanto de vida, afinal a tal da Lei Áurea só tem dois parágrafos e não deu nenhum caminho para reparação e inclusão de quem era explorado à exaustão.
Para o arcebispo tomar uma atitude tão peremptória e ampla- ficou proibida a lavagem do interior de todas as igrejas da cidade- é sinal de que andava acontecendo algo que ia de encontro ao comportamento esperado dentro da igreja. Vai que um jogava água no outro, alguém simulava um passinho de dança, fazia-se um som a partir dos apetrechos de faxina e estava formada a muvuca que deveria ter ressoado para além da colina sagrada e chegado ao palácio episcopal. Pois bem. Proibição oficial e igreja fechada, quem disse que o povo sossegou? Estava proibido? “Ok, a gente respeita senhor arcebispo, mas vamos encontrar um jeito”. E encontraram.

O resultado é este que conhecemos: a lavagem seguiu com restrições indo até a escadaria, depois até o adro, com introdução de novos elementos, como as baianas. E ganhamos este espetáculo de encontro de culturas religiosas: tem a devoção de base católica a Jesus Crucificado, mas em outra dimensão que a celebração em Bom Jesus da Lapa; tem imitação do rito das Águas de Oxalá do candomblé, com as baianas de branco levando as quartinhas com água de cheiro para purificar o espaço da outra fé, mas nem por isso com menos respeito e reverência, e tem as outras formas de respeitar, mesmo que se bolindo e entre um gole e outro de cerveja, afinal alegria também é devoção.
Tem dúvidas? Pode consultar a Bíblica, o livro sagrado de católicos e de outros adeptos do cristianismo, em passagens como a do segundo livro de Samuel, no capítulo 6, versículos de 14 a 16, que descreve a performance da saudação do rei Davi quando acompanhava a arca da aliança. Sagrado e profano andam sempre juntos e misturados e a Lavagem do Bonfim é uma prova contundente.
2. A festa já era tão grande que foi considerada a ocasião ideal para uma revolta
O levante preparado pelos africanos malês é uma das mais fortes memórias de insubordinação contra a escravidão. Livros, filmes e muitos estudos acadêmicos dão conta da engenhosidade de mulheres e homens que estavam buscando formas de acabar com a trágica, violenta e indecente escravidão. O levante de 25 de janeiro de 1835 abalou as estruturas escravistas não apenas de Salvador, mas de toda a América mergulhada na perversidade de transformar pessoas em mercadorias com todos os desdobramentos escandalosos e ainda persistentes deste sistema, como o racismo.
A grandeza do que planejaram os malês é minuciosamente contada, sobretudo, no trabalho monumental e impactante de João José Reis intitulado Rebelião Escrava no Brasil e que inspirou o mais recente filme sobre a revolta: Malês, dirigido por Antônio Pitanga. Mas o que tem a ver os Malês com a Festa do Bonfim? Muito.

A escolha da data – 25 de janeiro – como aponta o professor João Reis no seu, repito, fantástico livro, não foi por acaso. Naquele ano, o Ramadã, que é um mês sagrado no calendário islâmico, marcado por jejum diário – do amanhecer ao pôr do sol – orações intensificadas e prática da caridade, caiu em janeiro. A festa é móvel, pois o calendário islâmico é lunar e, por isso, tem menos dias que o ocidental, baseado na interação entre a Terra com o Sol.
Mas além do Ramadã, os malês viram o mês de janeiro como ideal por conta do Ciclo do Bonfim. A península de Itapagipe era o local preferido das classes mais ricas para passar o período de verão, ou seja, não é de hoje que a gente procura algum tipo de alívio para estes dias de aumento de temperatura. Se a tendência atual é ir para o Litoral Norte e, no caso de quem precisa economizar, a Ilha, as pessoas endinheiradas do período usavam a hashtag #partiuItapagipe, com o pacote do Bonfim incluído. Assim, as festas, na região já começavam no Natal e iam emendando com terno de reis, festa da lenha, a lavagem dentro da igreja e celebrações também para Nossa Senhora da Guia e São Gonçalo.

Desta forma, os inteligentes malês viram a conexão perfeita: fortalecer o espírito de liberdade na oração, jejum e solidariedade previstas no Ramadã e aproveitar que a cidade estava naquele compasso que até hoje a gente fica até depois do Carnaval. As coisas funcionam, mas apenas do que é essencial, ou seja, com a elite fora da cidade até o poder de polícia estava mais concentrado na Cidade Baixa e havia um certo clima de relaxar um pouco. O plano, portanto, em tese, era perfeito, mas vieram aqueles pequenos entraves do acaso. Ainda assim, um levante ter durado quase um dia inteiro e ter dado tanto trabalho ao poder instituído para ser sufocado, além de outros desdobramentos posteriores, mostra o quão grandioso ele foi.
3. A gente prega a paz, mas o hino mais popular do Bonfim lembra a guerra
Glória a Ti neste dia de glória/glória a Ti , Redentor que há cem anos/ Nossos pais conduzistes à vitória/ Pelos mares e campos baianos.
Glória a Ti desta altura sagrada/És o eterno Farol/És o Guia/ És Senhor, Sentinela Avançada/ És a Guarda Imortal da Bahia.
Os versos cantados, geralmente de forma emocionada, não deixam patente a sua ligação com uma guerra. Neste caso, a Guerra da Independência do Brasil na Bahia. Este hino não é o oficial, que costuma ser entoado na missa solene da Festa do Bonfim, mas uma versão composta pelo poeta Arthur de Salles e João Antônio Wanderley, que era maestro da banda da Polícia Militar da Bahia.
O hino mais conhecido ao Senhor do Bonfim fez parte, em 1923, da grande preparação para a celebração do Centenário da Independência do Brasil na Bahia. Em 1968, no disco Tropicália ou Panis et Circensis, Caetano Veloso trouxe uma versão do hino que estourou. Ela passou a ser usada nas rádios, ao meio-dia, como um complemento à tradição da Ave Maria às 18 horas. Virou a música de encerramento do Carnaval de Salvador, na Praça Castro Alves, e das micaretas tão populares no interior do Estado até o final da década de 1980. A aura que cerca estas exibições do hino são sempre como um apelo à devoção e à paz, mas a letra se conecta a eventos ocorridos durante as batalhas que culminaram com a expulsão portuguesa de Salvador em 2 de Julho de 1823.

O professor Cid Teixeira costumava dar a seguinte versão: o comandante do lado baiano, Pedro Labatut escolheu a estratégia de sufocar a ocupação portuguesa de Salvador pela fome. A escolha foi perfeita. As tropas baianas formaram barricadas no hoje subúrbio ferroviário; nas imediações de Itapuã; e no perímetro que envolve a Barra. No mar estava a esquadra comandada por Thomas Cochrane. Como Salvador só comia o que vinha do Recôncavo especialmente pelas águas da Baía de Todos-os-Santos quem ficou na cidade, especialmente as tropas portuguesas não tinham o que comer. Com o avançar da guerra, foram feitas duas tentativas de romper esta estratégia: a Batalha de Pirajá, em 8 de novembro de 1822, e a Batalha de Itaparica, em 7 de janeiro de 1823. Em ambas o objetivo português era conseguir liberar a entrada de comida. Nenhuma das duas deu certo e a vitória baiana veio.
Segundo o professor Cid Teixeira em uma ação para irritar o lado baiano, os portugueses chegaram a trazer a imagem do Bonfim para uma das igrejas do Terreiro de Jesus, aprisionando o já considerado protetor supremo da cidade para quem se apelava, imagine, para uma boa morte e outras situações muito difíceis. A devoção já estava consolidada. Quando as tropas do chamado Exército Libertador entraram em Salvador após a saída portuguesa, ainda citando o historiador, uma das primeiras providências foi levar a imagem do Senhor do Bonfim de volta para a sua colina em meio a grande festa e como desagravo.

Vou ressaltar que, em pesquisa nos jornais de 1923 sobre a celebração do Centenário da Independência, uma das atividades mais impressionantes, nos relatos sobre a festa, foi a que cercou a vinda da imagem do Senhor do Bonfim para a Igreja da Vitória onde ficou durante alguns dias. Este trajeto foi feito em procissão marítima. O retorno foi por terra com a imagem sendo acompanhada por milhares de pessoas em algo que o jornal A Tarde, por exemplo, definiu como impressionante.
Isso é para que a gente compreenda um pouco porque esta festa, especialmente a Lavagem, mexe tão profundamente com o imaginário da cidade que consegue transmitir de várias formas este sentimento para além das suas fronteiras. Portanto, para quem tem fôlego é hora de separar a roupa branca, a alfazema, mas lembrar, sobretudo, que não é apenas uma festa, mas uma experiência que vai bem além de saracotear ao som do seu ritmo preferido.


