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Portal UMBU

À Frente do IPAC, historiador Marcelo Lemos combina gestão, história e resposta firme ao racismo

0 diretor-geral do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), Marcelo Lemos, une sua formação como historiador e sua experiência em gestão pública para implementar uma administração focada na salvaguarda da memória baiana e em ações afirmativas contundentes. Recentemente, sua atuação foi alvo de ataques racistas, aos quais ele respondeu não apenas com uma denúncia formal, mas com o fortalecimento de políticas que combatem o racismo estrutural a partir da cultura.

Foto: Fernando Barbosa/IPAC

Para Marcelo Lemos, um dos maiores desafios à frente do IPAC é desmistificar a imagem do órgão como um empecilho ao progresso. Em entrevista ao Portal Umbu, ele defende que o verdadeiro papel da instituição é garantir que o desenvolvimento não apague a história. “O papel do IPAC não é o de atrapalhar, e sim de salvaguardar a nossa história. Que a gente não atrapalhe o desenvolvimento, que a gente não atrapalhe a modernização, e sim que a gente conserve a nossa história para que ela não se perca”, afirma o diretor.

Para isso, a gestão aposta em programas de educação patrimonial, como o “Estudantes nos Museus”, e no financiamento de manifestações culturais para manter vivos os patrimônios imateriais da Bahia.

Uma Visão para Além dos Muros

Com a perspectiva de quem compreende a profundidade dos símbolos, Lemos destaca como sua formação é crucial para a função que ocupa. “Ser historiador me dá todo esse arcabouço para que saiba que não é uma simples edificação, mas que aquela edificação carrega consigo uma história”, explica. Ele ressalta que tanto a arquitetura dos prédios quanto os saberes do patrimônio imaterial narram a formação da sociedade baiana.

Essa visão de historiador é complementada por sua experiência na máquina pública, onde chefiou a Secretaria Especial de Articulação Institucional (Seai) da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e atuou como assessor parlamentar. “Minha experiência em gestão e como assessor político é fundamental para compreender a máquina pública e acelerar processos”, pontua. Segundo ele, esse conhecimento permite uma articulação eficiente que tira projetos do papel com agilidade, sem abrir mão da transparência.

A Gestão Antirracista na Prática

Marcelo Lemos é enfático ao afirmar que sua gestão está alinhada à política antirracista do governo estadual, que busca recontar a história sob a perspectiva popular, como visto nas celebrações dos 200 anos da Independência da Bahia. No IPAC, essa diretriz se materializa em ações concretas.

Como exemplos práticos desse compromisso, o diretor destaca a criação do Memorial das Matriarcas do Candomblé, um projeto que visa contar a história de grandes líderes religiosas de matriz africana, começando por Mãe Stella de Oxóssi. A essa iniciativa se soma a aprovação da Praça das Artes Neguinho do Samba, que homenageia e reconhece a importância do criador do Samba Reggae como um dos maiores expoentes da cultura negra no estado.

Por fim, Lemos menciona a emblemática reabertura do Museu do Recôncavo, onde o espaço de um antigo engenho foi ressignificado para narrar a história a partir da resistência dos povos indígenas e negros, transformando um local de opressão em um palco para a arte e a memória da população negra.

“A gente tem feito trabalhos de ações afirmativas a todo momento nos nossos museus”, reforça.

Conectando Patrimônio e Sociedade

Para o diretor, a valorização dos patrimônios imateriais — em sua maioria, de origem negra — é uma das principais ferramentas de combate à desigualdade. “A Irmandade da Boa Morte, o Rosário dos Pretos, a Marujada, a Capoeira, a Baiana de Acarajé… tudo isso é uma forma da gente assegurar e fortalecer a história do povo preto, do povo negro da Bahia”, detalha.

Ao dar suporte a essas manifestações, o IPAC não apenas preserva a cultura, mas também promove o reconhecimento e o fortalecimento da identidade negra, essencial para a construção de uma sociedade mais justa.

Um Recado Direto contra o Racismo

A importância desse trabalho se tornou ainda mais evidente após Marcelo Lemos ser alvo de ataques racistas em suas redes sociais. A resposta foi imediata e firme: um boletim de ocorrência e a exposição do caso.

“Esse ataque que eu sofri de forma deliberada mostra isso: que por mais que as políticas públicas tenham avançado, os racistas também continuam avançando e, com as redes sociais, eles acham que estão protegidos”, desabafa.

Para o diretor, a decisão de levar o caso à justiça é um passo pedagógico. “Foi por isso que eu decidi entrar com a queixa. A gente não pode deixar isso passar impune. Para construir uma nova sociedade antirracista, a gente precisa enfrentar de frente esses racistas e fazer com que eles entendam que os ataques deliberados que eles fazem nas redes sociais também terão consequências”, finaliza.

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