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A cidade que faz aniversário e a representação que não mora onde pede voto

No aniversário de Salvador, o mapa eleitoral de 2024 revela distância entre o discurso do “vereador de bairro” e a realidade de uma política moldada por capital e pulverização, onde a abstenção periférica ecoa a exclusão estrutural.

Salvador celebra mais um ano de sua rica história, mas a festa é também um convite à reflexão sobre a complexa teia de sua representação política. Há muito se cultiva o imaginário do “vereador de bairro”, aquele líder nascido e criado na comunidade, eleito para defender os interesses de sua microrregião na Câmara Municipal. Contudo, a análise fria dos dados eleitorais de 2024 desmistifica essa narrativa, revelando uma política onde a geografia do voto é ditada mais pelo capital e pela pulverização do que pelo pertencimento territorial.

A falácia da representação territorial

A ideia de que as maiores concentrações populacionais da capital baiana — como o Subúrbio Ferroviário, Cajazeiras, Cabula e Pau da Lima, elegem seus próprios moradores é, em grande parte, uma falácia. O que o sistema eleitoral soteropolitano demonstra é uma transferência massiva de capital político da base da pirâmide social para o topo. Os bairros periféricos, com sua vasta população, funcionam hoje como verdadeiros “mercados abertos” de votos, onde políticos com capital financeiro, midiático ou religioso extraem apoio de áreas onde, muitas vezes, não residem e com as quais não compartilham a mesma realidade social.

O poder do capital: midiático, institucional e religioso

Os números do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de 2024 são eloquentes. Jorge Araújo (PP), o vereador mais votado da cidade com expressivos 36.065 votos, demonstrou uma capacidade de penetração eleitoral impressionante, sendo escolhido em 458 dos 473 locais de votação de Salvador, o que representa uma presença em 96% das urnas. Apenas na Zona Eleitoral 004, que abrange áreas do Subúrbio Ferroviário como Periperi e Coutos, ele obteve mais de 2.500 votos. Sua base não é territorial, mas sim construída sobre o alcance de seu capital midiático.

O cenário se repete com outros nomes de destaque. Carlos Muniz (PSDB), atual presidente da Câmara, alcançou 24.040 votos. Sua reeleição não se deu por uma fidelidade exclusiva à Fazenda Grande do Retiro, seu bairro de origem, mas pela articulação de alianças e influência institucional que a cadeira da presidência lhe confere, permitindo-lhe consolidar apoio em dezenas de bairros. Luiz Carlos (Republicanos), o terceiro mais votado com 19.358 votos, sequer é baiano de nascimento, sendo natural de Bezerros, Pernambuco. Sua força eleitoral não reside em um reduto geográfico, mas na estrutura institucional da Igreja Universal, que possui forte atuação nas zonas periféricas da cidade.

A desconexão entre votantes e eleitos

Esses exemplos ilustram como o perfil do candidato eleito com os votos da periferia raramente é o líder comunitário sem recursos. É, na maioria das vezes, o político de classe média ou alta que possui a estrutura necessária para pulverizar sua campanha, financiar cabos eleitorais e inundar as ruas com material de propaganda. A periferia vota, mas quem ocupa as cadeiras do legislativo, decide o orçamento da cidade e legisla sobre o **Plano Diretor** pertence a outra classe social e, frequentemente, a outra geografia.

Abstenção em Salvador: um grito silencioso da periferia

Essa desconexão profunda entre quem vota e quem é eleito ajuda a explicar o dado mais alarmante e silencioso das eleições de 2024: a abstenção. Foram 460.890 soteropolitanos que simplesmente não compareceram às urnas, representando 23,4% do eleitorado. Esse número, que supera a votação de muitos candidatos majoritários, não pode ser interpretado de forma homogênea.

Em Salvador, a abstenção é um fenômeno com duas faces. Nos bairros centrais e de classe média-alta (como Itaigara, Pituba ou Barra), não votar pode ser uma escolha motivada por alienação política ou conveniência, facilmente resolvida com o pagamento de uma multa irrisória. Contudo, nas zonas de maior adensamento eleitoral da periferia, a ausência nas urnas é, em muitos casos, imposta. É o resultado direto de um trabalhador do setor de serviços operando em escala 6×1 que não tem folga no domingo de eleição. É o reflexo de um sistema de transporte público ineficiente que dificulta o deslocamento, e da exaustão de um eleitorado majoritariamente negro e pobre que, ao olhar para o painel da Câmara Municipal, não reconhece ali suas demandas, suas dores ou sua própria identidade.

Salvador em aniversário: um chamado à reflexão

No aniversário de Salvador, é imperativo que a cidade reflita sobre a verdadeira natureza de sua representação política. Enquanto os bairros periféricos continuarem sendo tratados como meras fontes de votos a cada quatro anos por candidatos que não conhecem sua realidade e não vivem suas lutas, a promessa de uma representação política genuína e territorialmente enraizada permanecerá uma ficção. A festa da cidade deve ser também um momento de questionamento sobre quem de fato é representado e quem, apesar de votar, permanece à margem das decisões.

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