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A arte como medicina para curar o mundo: Edgard Gouveia Jr. fala sobre o poder transformador do artivismo

Arquiteto e mobilizador social defende que artistas são agentes centrais da transformação global e explica por que Salvador é o palco ideal para o encontro internacional Global Artivism 2025

Foto: Marlena Waldhausen/NPR

De 3 a 5 de novembro, Salvador se transforma em um grande palco global de diálogo entre arte, cultura e transformação social. A capital baiana sedia o Global Artivism 2025, conferência internacional que reúne mais de 800 artistas, ativistas e líderes culturais de 60 países. O evento propõe usar a arte como força mobilizadora diante dos desafios contemporâneos, das crises ambientais e guerras à desigualdade social e à descrença no futuro.

Entre os nomes que participam do encontro está o arquiteto e urbanista Edgard Gouveia Jr., referência em mobilização social, bioarquitetura e jogos cooperativos. Fundador do Instituto Elos e do movimento Play The Call, ele acredita que a arte é a chave para reacender a esperança e mover pessoas em tempos de paralisia coletiva.

Em entrevista ao Portal Umbu, Gouveia conta que vivemos um momento de virada civilizatória em que a arte se reafirma como força política e espiritual. “A gente acabou de ver no Brasil o que é o artivismo em ação”, diz, lembrando a mobilização popular liderada por artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Djavan e Anitta contra a anistia de políticos envolvidos em crimes. “Os políticos falam à mente, mas os artistas falam ao coração, e é do coração que nasce a ação coletiva.”

Concentração no Morro do Cristo, em Salvador, integrou onda de protestos contra a anistia para golpistas. Mobilização teve trio puxado por Daniela Mercury | Foto: Reprodução/X/@fsmcruz

Para o arquiteto, o Global Artivism surge da necessidade de conectar artistas que atuam nas “fronteiras da dor”, em campos de refugiados, prisões, zonas de guerra e comunidades marginalizadas, e criar um movimento global de ação conjunta. “Não se trata apenas de um evento, mas de um movimento de artistas que têm o poder de tocar os corações das pessoas e inspirar outro mundo possível. Precisamos de gente que cante, filme e dance esse novo mundo, porque é assim que ele começa a existir”.

Após a primeira edição na África do Sul, a escolha de Salvador como sede do encontro reflete esse propósito. Gouveia destaca que a decisão da ministra da Cultura, Margareth Menezes, de trazer o evento para a Bahia foi determinante. “O futuro é ancestral”, afirma. “Quando olhamos para os desafios atuais com guerras, racismo, feminicídios, mudanças climáticas, parece impossível superá-los. Mas nossos ancestrais já enfrentaram horrores semelhantes e sobreviveram. Salvador é o berço dessa força”.

Ele lembra que a cidade, reconhecida como a mais negra do Brasil e uma das mais negras fora da África, é também território de invenção e resistência. “As nossas avós e bisavós decidiram que nós íamos sobreviver, mesmo quando o projeto era o contrário. E criaram estratégias para isso. O tabuleiro da baiana, a capoeira, o carnaval, as tranças, tudo isso são linguagens de resistência, medicinas da diáspora negra criadas para curar corpo, espírito e emoção”.

Para Edgard, essas manifestações vão além da estética: são ferramentas de cura coletiva. “O mundo precisa dessas medicinas agora. Depois da pandemia, das guerras e dos traumas, a arte afro-brasileira, a música, a percussão, o canto, tem o poder de nos religar à vida. Aqui, arte é política, é espiritualidade, é cura”.

Primeira edição do Global Artivism aconteceu na África do Sul | Foto: Divulgação

Com formação em arquitetura e urbanismo, ele amplia o conceito de arte para outras dimensões. “A arte está em tudo: na culinária, na arquitetura, na economia. As baianas de acarajé não vendem só comida, vendem cor, beleza, encantamento. Elas sabem que a estética toca o coração e transforma o olhar das pessoas”.

Gouveia defende que a arquitetura também pode exercer esse papel. “Imagina se as comunidades do Rio pudessem aplicar nos morros a criatividade dos desfiles de carnaval? Seriam montanhas de dignidade e arte. É esse olhar artístico que pode transformar a realidade”.

Rememorando exemplos históricos de como gestos simbólicos evocavam dignidade, ele menciona o uso dos sapatos por escravizados libertos como forma de assegurar mais oportunidades. “A diferença de quem era livre e quem não era, era ter um sapato. Mesmo quem comprava alforria não tinha dinheiro para comprar sapato, que era caro. A primeira coisa que se buscava era dignidade e isso estava ligado a ter um sapato, símbolo de cidadania. A partir do momento que o cara tinha sapato, ele pegava melhores empregos e ele mesmo resolvia a própria situação”.

“Então esse olhar mais artístico, mais cuidadoso, mais romântico, mais delicado pra nossa realidade, faz com que a gente tenha ideias elevadas”, explica.

Para o arquiteto, o Global Artivism é mais que um festival. “O encontro é só uma desculpa para criar relações, confiança e projetos comuns. Trouxemos artistas locais para criar junto com estrangeiros e eles estão nas ruas, compondo, gravando, dançando. Esse é o verdadeiro legado”.

Além dos impactos simbólicos, o evento também movimenta a economia local e amplia a visibilidade internacional da cultura baiana. Mas, para Gouveia Jr., o maior resultado é imaterial. “As pessoas estão encantadas com Salvador e com a energia. É um reencontro com a autoestima e com o poder da arte como força de transformação.”

Primeira edição do Global Artivism aconteceu na África do Sul | Foto: Divulgação

Ele acredita que o próximo passo é consolidar um hub de artivismo no Brasil, articulado com o Ministério da Cultura, para manter o trabalho iniciado. “Precisamos nos conectar como uma rede global, como a extrema-direita faz, mas movidos pela beleza, não pelo medo. Se ainda há uma chance de transformação no planeta, ela virá pela arte: pela capacidade de sonharmos juntos e cantarmos o futuro antes que ele exista”.

Após um primeiro dia voltado “O presente”, o evento tem o segundo dia, nesta terça-feira (4), voltado para “O passado e o saber ancestral”, dedicado às raízes afro-brasileiras e às tradições de resistência cultural, com oficinas imersivas e atividades comunitárias realizadas no Pelourinho, marco da cultura negra e símbolo das lutas pela liberdade no Brasil.

No último dia do evento, nesta quarta-feira (5), o tema será “O futuro”, voltado para a construção de alianças e estratégias coletivas. Os participantes se reunirão para imaginar e propor novas formas de mobilização global em um dia dedicado à cocriação de manifestos e compromissos compartilhados.

A programação para todos os dias pode ser conferida clicando aqui.

Serviço

Global Artivism – Salvador 2025 Datas: De 3 a 5 de novembro de 2025

Locais: Hotel da Bahia by Wish e Diversos espaços culturais de Salvador (BA) Av. Sete de Setembro, 1537 – Dois de Julho, Salvador

Horários: 9h às 18h, com eventos culturais noturnos Inscrições: no site do evento

Mais informações: @globalartivism

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