Programação da 14ª edição reúne autores de diferentes territórios, aborda saberes da Caatinga e educação decolonial e apresenta livros artesanais produzidos na Bahia

A diversidade da produção literária baiana ganhou destaque na programação da 14ª Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), nesta sexta-feira (6). Com escritores do interior, editoras independentes e diferentes perspectivas sobre educação, memória e identidade, a feira abriu espaço para obras que refletem a pluralidade cultural do estado e buscam ampliar a circulação da literatura produzida fora dos grandes centros.
Entre os destaques estão histórias inspiradas na memória de Canudos, reflexões sobre a valorização dos conhecimentos afro-brasileiros e indígenas e publicações artesanais que exploram texturas, tecidos e costuras. As atividades integram iniciativas como a Casa dos Autores e Autoras Baianos e o projeto Vozes da Bahia, que selecionou 30 escritores de diferentes territórios para participar da programação.
A iniciativa Vozes da Bahia, promovida pela Fundação Pedro Calmon (FPC), teve início na Bienal do Livro, onde mais de 200 escritores baianos apresentaram suas produções. Na Flica, o projeto busca aproximar autores de diferentes gerações e trajetórias do público leitor, criando oportunidades para divulgar obras e fortalecer a literatura produzida no estado.
Memória de Canudos e saberes da Caatinga
Natural de Euclides da Cunha, o dramaturgo, diretor teatral e escritor Carlos Carneiro levou à Flica duas obras relacionadas à memória da Guerra de Canudos e aos conhecimentos populares do sertão.
Em “Mané Vermei, um sertanejo de Canudos”, o autor apresenta um personagem descendente dos sobreviventes do conflito histórico, inspirado em uma pessoa real. A narrativa acompanha um sertanejo que consegue interpretar sinais da natureza, como o comportamento dos animais e a direção dos ventos, para prever a chegada das chuvas.
Já “Entre a Cruz e a Espada” mistura história e ficção ao construir um romance entre Maria Rosa, seguidora de Antônio Conselheiro, e um capitão do Exército, personagens posicionados em lados opostos da Guerra de Canudos.
Ao comentar a importância de apresentar essas histórias, Carneiro destacou a necessidade de dar visibilidade a personagens e conhecimentos historicamente marginalizados pela produção acadêmica e literária.
“Mané Vermei traz várias vozes e vozes que permaneciam no anonimato, que não eram ouvidas, porque o sertanejo quase não é ouvido, está à margem da academia, à margem desse campo literário”, afirmou.
Educação decolonial e valorização dos saberes do Sul
A programação também recebeu a escritora, jornalista e professora Joalva Menezes de Moraes, que participou pela primeira vez da Flica como autora, depois de acompanhar a festa durante anos na condição de jornalista.
Ela apresentou o livro “Como tornar uma Escola Decolonial? Reflexões sobre possibilidades e caminhos”, resultado de sua pesquisa de doutorado na Universidade Aberta de Portugal. A publicação questiona a predominância de referências europeias nos modelos educacionais e propõe uma valorização dos conhecimentos produzidos no Brasil, especialmente aqueles relacionados às matrizes afro-brasileiras e indígenas.
Entre as reflexões apresentadas pela autora está a necessidade de repensar a própria linguagem utilizada para definir as referências geográficas e culturais do conhecimento. Como exemplo, Joalva defende a substituição do verbo “nortear” por “sulear”, em uma perspectiva que valoriza as produções intelectuais e culturais do Sul global.
“Eu não quero mais falar que eu vou nortear, eu quero sulear, que é olhar pra aqui pra baixo, porque a gente produz muito e com sabedoria”, declarou.
Livros artesanais e experiências sensoriais
A produção independente também encontrou espaço na feira por meio da editora Arpillera, de Arembepe, em Camaçari, comandada pela escritora e editora Yara Fers. A iniciativa apresenta publicações artesanais que exploram diferentes materiais e técnicas, com costuras aparentes, tecidos, relevos, recortes e papéis de variadas texturas.
Cada exemplar é numerado e produzido manualmente, transformando os livros em peças singulares. Desde 2022, a editora já lançou mais de 100 títulos e participa pela primeira vez da Flica, após tentativas de integrar edições anteriores.
Para Yara, a presença em eventos literários permite que os leitores tenham contato direto com características das publicações que nem sempre podem ser percebidas em ambientes digitais.
“É diferente eu colocar esse livro numa foto no Instagram e a pessoa chegar e pegar e sentir o papel, o material. Estar em eventos literários para nós é decisivo”, afirmou.
Circulação de obras e políticas públicas de leitura
Além de abrir espaço para diferentes formatos de publicação e trajetórias literárias, a programação também coloca em discussão os desafios enfrentados por escritores para fazer seus trabalhos chegarem ao público.
O diretor-geral da Fundação Pedro Calmon, Sandro Magalhães, destacou que, embora as possibilidades de publicação tenham aumentado, a circulação das obras continua sendo um dos principais obstáculos para autores independentes e escritores que vivem fora dos grandes centros.
“Hoje já existe uma possibilidade maior de publicar seu livro, mas ainda há um grande problema: a circulação dessa obra”, afirmou.
Segundo Magalhães, a Fundação apoia a publicação de 100 obras por ano e trabalha na implantação de 300 espaços de leitura em diferentes territórios da Bahia. A instituição também prepara um novo Plano Estadual do Livro, da Leitura e da Memória, com diretrizes para os próximos dez anos.
O diretor-geral defendeu que as iniciativas de incentivo à literatura sejam incorporadas às políticas permanentes do estado, independentemente das gestões governamentais. “Essas ações precisam se transformar em ações de Estado, em política de Estado, não apenas uma política da nossa gestão”, reforçou.
Criada em 2023, a Casa dos Autores e Autoras Baianos também integra as estratégias de valorização da produção literária local na Flica. De acordo com a curadora Dinalva Melo, a seleção dos participantes considera a trajetória dos escritores, a relação das obras com a temática da festa e, principalmente, a oportunidade de dar visibilidade a trabalhos ainda pouco conhecidos.
Os autores selecionados têm dez minutos para apresentar suas publicações e despertar o interesse dos visitantes. O espaço também recebe exposições, apresentações musicais e debates.
“Eu diria que esse ambiente traduz as feiras no seu sentido mais original e pleno. Aqui é como se fosse o espaço guardião da literatura no contexto de feiras que tendem a ser festa”, avaliou a curadora.
A 14ª edição da Flica é realizada pelo Ministério da Cultura, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), com patrocínio da Petrobras e apoio da Embasa, Sebrae, Prefeitura de Cachoeira e Governo da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura (SecultBA) e da Secretaria da Fazenda (Sefaz).
O evento também integra o projeto Bahia Literária, iniciativa da Fundação Pedro Calmon, vinculada à SecultBA, em parceria com a Secretaria da Educação do Estado (SEC). A produção é da Schommer Produções.



