
O cinema não é apenas uma arte contemplativa ou uma forma de entretenimento. É também um reflexo do tempo em que é produzido, uma maneira de interpretar o mundo e, sobretudo, uma ferramenta para discutir as questões que atravessam a sociedade. Mesmo a mais ingênua comédia romântica fala sobre sonhos, desejos e padrões de amor e realização pessoal. As histórias que contamos e as imagens que projetamos nas telas revelam muito sobre quem somos, o que valorizamos e a maneira como enxergamos o mundo.
Não por acaso, na década de 1960, em meio às tensões políticas e ideológicas que atravessavam a América Latina, ganhou força o conceito de cinema político, que compreendia a produção audiovisual também como instrumento de reflexão, denúncia e transformação social. O cinema podia falar diretamente ao povo sobre as questões de seu tempo, questionar estruturas de poder e estimular a consciência crítica. Mas essa relação entre cinema e sociedade também se manifesta em outra direção: Hollywood ajudou a difundir mundialmente o “American Way of Life”, consolidando o chamado sonho americano e contribuindo para ampliar a influência cultural e ideológica dos Estados Unidos. Mais recentemente, a expansão da chamada onda coreana, com seus filmes, séries e produções musicais, vem modificando o olhar de diferentes públicos sobre a Coreia do Sul e, de maneira mais ampla, sobre as culturas do Oriente, especialmente entre as novas gerações.
O cinema, portanto, não apenas reflete o mundo: ele também participa da construção do nosso imaginário, influencia percepções e nos ajuda a compreender ou, em alguns casos, a naturalizar determinadas ideias. É justamente por essa capacidade de dialogar com o presente que algumas obras ultrapassam seu próprio tempo. Filmes que pareciam falar de acontecimentos distantes passam a lançar luz sobre o que estamos vivendo agora. É o caso de “A Onda”, uma obra que parte de um experimento real para nos confrontar com uma pergunta incômoda: como pessoas comuns podem ser levadas a aderir a movimentos autoritários, mesmo quando conhecem as consequências históricas desse tipo de experiência?
Lançado em 2008, o filme alemão dirigido por Dennis Gansel é inspirado no livro de Todd Strasser, publicado sob o pseudônimo Morton Rhue, que também deu origem a um telefilme norte-americano de 1981. A história remonta a 1967, quando o professor de História, Ron Jones, de uma escola na Califórnia, foi questionado por seus alunos sobre a ascensão do nazismo. Como os alemães puderam permitir que aquilo acontecesse? Como tantas pessoas não perceberam o que estava diante de seus olhos? E como uma sociedade inteira pôde aderir a um regime tão violento?
Diante das perguntas dos estudantes, Jones decidiu realizar um experimento. Na aula seguinte, mudou sua postura e passou a exigir dos alunos disciplina, obediência e uma conduta rigorosamente padronizada. Em seguida, introduziu a ideia de pertencimento a um grupo, fazendo com que se sentissem parte de algo especial. Vieram, então, o nome, os símbolos, as saudações e os sinais de reconhecimento coletivo. A cada nova etapa, o experimento ganhava força. Em pouco tempo, os estudantes demonstravam um entusiasmo crescente, sentiam-se mais fortes por fazer parte daquele coletivo e passaram a hostilizar aqueles que não pertenciam ao grupo.

O que começara como uma experiência pedagógica rapidamente revelou seu lado mais perturbador. A disciplina transformou-se em obediência; o sentimento de pertencimento, em exclusão; e a identificação com o grupo, em hostilidade contra quem estava de fora. Quando percebeu que a situação havia saído do controle, Jones encerrou o experimento e revelou aos estudantes a lógica autoritária que os havia envolvido, confrontando-os com a relação entre o comportamento que haviam adotado e os mecanismos de mobilização do nazismo.
No filme de Gansel, o experimento é transportado para a própria Alemanha, em uma escola de ensino médio, onde um professor propõe aos alunos uma experiência prática sobre autocracia. A pergunta que orienta a atividade é semelhante àquela que mobilizou o experimento original: seria possível o retorno de um movimento fascista na Alemanha contemporânea? Afinal, depois de tudo o que o país viveu, o nazismo poderia encontrar novamente terreno fértil entre os jovens?
As etapas são semelhantes: disciplina, uniformidade, identidade coletiva, símbolos, slogans e a construção progressiva de uma comunidade que se acredita superior às demais. Entretanto, no filme, o processo assume proporções ainda mais dramáticas, e o desfecho evidencia a gravidade das consequências quando ninguém consegue ou quer interromper a escalada autoritária.
A conclusão é tão simples quanto assustadora: não precisamos nos reconhecer como autoritários para reproduzir comportamentos autoritários. Muitas vezes, tudo começa com uma necessidade humana legítima: pertencer, ser aceito, encontrar propósito, sentir-se parte de algo maior. O problema surge quando esse pertencimento passa a depender da obediência cega, quando a identidade coletiva se constrói pela desumanização do outro e quando a lealdade ao grupo se sobrepõe à capacidade de questionar, duvidar e pensar por conta própria.
É assim que se fortalece a lógica do “nós contra eles”. Aos poucos, as diferenças deixam de ser apenas diferenças e passam a ser tratadas como ameaças. Quem está dentro do grupo sente-se protegido, especial e, por vezes, superior. Quem está fora torna-se suspeito, inferior ou inimigo. Nesse processo, atitudes que antes pareceriam inaceitáveis começam a ser justificadas em nome de uma causa, de um líder ou de uma suposta ameaça externa.

O mais inquietante é que essa transformação nem sempre acontece de maneira explícita ou abrupta. Ela pode se instalar gradualmente, por meio de gestos aparentemente inofensivos, discursos repetidos, pequenas concessões e justificativas que, isoladamente, parecem não representar um grande perigo. Quando percebemos, os limites já foram deslocados. E aquilo que antes provocaríamos com indignação passa a ser tolerado, defendido ou até celebrado.
Olhando de fora, os sinais podem parecer evidentes. De dentro, porém, a dinâmica do grupo, a pressão por conformidade e o medo de ser excluído podem comprometer nossa capacidade de julgamento. Não se trata de afirmar que as pessoas perdem completamente a razão, mas de reconhecer como nossas convicções podem ser distorcidas quando a necessidade de pertencimento se torna mais forte do que a disposição para questionar.
Rever “A Onda” em 2026 é, portanto, um exercício de reflexão que ultrapassa os limites da sala de aula e da história alemã. Em um cenário internacional no qual movimentos de extrema direita ganham força em diferentes países, discursos autoritários se normalizam e a intolerância encontra novas formas de circulação, o filme funciona como um alerta sobre os mecanismos que tornam possíveis a adesão coletiva e a reprodução de ideias que julgávamos superadas.
A história não se repete necessariamente da mesma maneira, com os mesmos símbolos, personagens ou acontecimentos. Mas determinados mecanismos sociais e psicológicos podem reaparecer sob novas formas, adaptados às circunstâncias de cada época. É por isso que conhecer o passado não basta: precisamos reconhecer seus sinais no presente, inclusive quando eles surgem em discursos com os quais simpatizamos ou em grupos dos quais gostamos de fazer parte.
Talvez essa seja uma das grandes contribuições do cinema: criar uma distância que nos permita enxergar aquilo que, na vida cotidiana, temos dificuldade de perceber. Ao acompanhar a transformação dos estudantes de “A Onda”, somos convidados a olhar para eles, mas também para nós mesmos. Que discursos aceitamos sem questionar? Que comportamentos justificamos porque vêm de pessoas com quem concordamos? Até que ponto estamos dispostos a abrir mão do pensamento crítico para preservar nossa sensação de pertencimento?

Mais do que perguntar por que a história parece não nos ensinar, talvez seja necessário perguntar o que fazemos com aquilo que ela nos ensina. Porque reconhecer os erros do passado só tem valor quando esse reconhecimento se transforma em vigilância crítica, responsabilidade e disposição para agir diante das injustiças do presente.
Que possamos, como os estudantes diante da revelação do experimento, interromper o fluxo da onda e recuperar a capacidade de pensar para além dela. Que o desejo de pertencer não nos faça esquecer a empatia, que a lealdade a um grupo não silencie nossas dúvidas e que nenhuma causa nos pareça tão grandiosa a ponto de justificar a desumanização do outro.
Em tempos de radicalização e intolerância, assistir a “A Onda” é mais do que revisitar um filme importante. É aceitar o desconforto de olhar para o mundo e para nós mesmos com um pouco mais de atenção. Afinal, a melhor maneira de evitar que os erros do passado se repitam talvez seja aprender a reconhecer, enquanto ainda há tempo, quando a onda começa a se formar.


