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Nunes Marques impõe novas restrições ao “Exército do Lula” e determina monitoramento do canal pelo TSE

Em meio a decisões que beneficiam pedidos de Flávio Bolsonaro e provocam divergências na Corte, presidente do tribunal volta a restringir ferramenta de mobilização de apoiadores de Lula

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, voltou a impor restrições ao canal “Exército do Lula”, ligado à mobilização de apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no WhatsApp. Em nova decisão, nesta terça-feira (13), o ministro condicionou o funcionamento da ferramenta a exigências formais e determinou que a área técnica do tribunal acompanhe as publicações. A medida ocorre após uma sequência de decisões sobre o canal que provocou divergências dentro da Justiça Eleitoral.

A decisão mais recente é mais um episódio de uma série de determinações de Nunes Marques relacionadas à disputa eleitoral de 2026 que têm sido questionadas por seus efeitos políticos. Entre elas estão a suspensão temporária do canal de apoiadores de Lula e a interrupção da circulação de um jornal sindical que fazia críticas ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), responsável pela indicação de Nunes Marques ao Supremo Tribunal Federal (STF). Os episódios levantaram questionamentos nas redes sociais sobre a isonomia no tratamento das campanhas e sobre os critérios utilizados pela Justiça Eleitoral para decidir a respeito de conteúdos políticos.

O “Exército do Lula” foi criado pelo deputado federal André Janones (Avante-MG) como uma ferramenta de mobilização de apoiadores do presidente no WhatsApp. A iniciativa passou a ser alvo de questionamentos na Justiça Eleitoral, que analisa possíveis irregularidades relacionadas ao uso de canais digitais durante a campanha.

Nunes Marques havia determinado a suspensão do canal. Posteriormente, o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, suspendeu os efeitos dessa decisão e permitiu a retomada da ferramenta, ao menos provisoriamente, enquanto o caso aguarda uma definição posterior.

A disputa ganhou novo capítulo quando Nunes Marques voltou a impor condições ao funcionamento do canal e determinou o acompanhamento das publicações pelo setor técnico do TSE responsável pelo enfrentamento à desinformação. A determinação não significa que a Meta, empresa responsável pelo WhatsApp, tenha recebido uma ordem para supervisionar diretamente o conteúdo. O monitoramento determinado pelo ministro é atribuição da estrutura técnica da própria Justiça Eleitoral.

A sucessão de decisões expôs divergências dentro do tribunal sobre a condução do caso e sobre os limites da atuação da Justiça Eleitoral diante de ferramentas de mobilização política. Também colocou em evidência a necessidade de critérios transparentes e uniformes para a fiscalização de conteúdos e canais utilizados pelas diferentes candidaturas.

Outro episódio que provocou questionamentos envolveu a circulação de um jornal do Sindicato Unificado dos Petroleiros do Estado de São Paulo, o Sindipetro Unificado. A publicação, que teria tiragem de aproximadamente 30 mil exemplares, continha material crítico a Flávio Bolsonaro.

A circulação foi suspensa após uma iniciativa judicial ligada à campanha do senador. A medida ampliou o debate sobre os limites da intervenção eleitoral em materiais impressos e sobre a diferença entre propaganda irregular e manifestação política de sindicatos e outras organizações da sociedade civil.

A controvérsia envolve um ponto central da disputa eleitoral: a Justiça pode intervir para coibir irregularidades, mas as restrições precisam observar a legislação, a liberdade de expressão e a igualdade de condições entre candidaturas. A aplicação desses critérios exige fundamentação consistente, sobretudo quando a medida impede a distribuição de material político.

A decisão também passou a integrar o conjunto de episódios usados por críticos para questionar a atuação de Nunes Marques em casos com repercussão direta sobre a campanha de Flávio Bolsonaro.

Decisões sobre conteúdos políticos ampliam questionamentos

As controvérsias envolvendo o canal de Janones e o jornal sindical se somam a outras decisões relacionadas à circulação de conteúdos políticos na internet durante o período eleitoral.

Entre os casos que entraram no debate estão medidas referentes a publicações sobre o Banco Master e Daniel Vorcaro, além de conteúdos envolvendo familiares de Lula. Em decisões dessa natureza, é necessário distinguir a retirada de material potencialmente irregular de uma restrição ampla à crítica política, especialmente quando o conteúdo envolve assuntos de interesse público.

Também houve questionamentos sobre a condução de processos e pedidos de intervenção relacionados a publicações favoráveis ou contrárias aos candidatos. A comparação entre decisões exige atenção ao contexto, aos fundamentos jurídicos e ao alcance de cada medida. A existência de decisões com efeitos políticos distintos não demonstra, isoladamente, que houve tratamento desigual, mas torna legítima a cobrança por transparência e coerência nos critérios adotados.

A atuação da Justiça Eleitoral é especialmente sensível em um segundo turno, quando decisões sobre conteúdos digitais, jornais e ferramentas de mobilização podem afetar a capacidade de as campanhas divulgarem informações e alcançarem eleitores.

Mensagens sobre pagamentos e hospedagem colocam entorno de Nunes Marques sob escrutínio

As decisões eleitorais também passaram a ser discutidas em meio a notícias sobre possíveis vínculos entre pessoas do entorno de Nunes Marques e o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Mensagens extraídas do celular de Vorcaro pela Polícia Federal, divulgadas pela imprensa, mencionam pagamentos associados a Kevin Marques, filho do ministro, e uma possível hospedagem de luxo que teria sido reservada para alguém identificado pelas iniciais “KN”. Os registros, contudo, não comprovam por si sós que os valores tenham sido pagos ou que o ministro tenha utilizado a hospedagem.

Em uma das conversas, ocorrida em 2025, Vorcaro e Luiz Rennó, então ligado ao departamento jurídico do Banco Master, mencionam um pagamento mensal de R$ 500 mil associado à empresa Consult Inteligência Tributária. Em outro trecho, há referência a pagamentos considerados essenciais e à Consult. As mensagens suscitaram suspeitas sobre a natureza da relação financeira, mas não constituem prova de que Kevin tenha recebido mensalmente R$ 500 mil de Vorcaro.

Segundo informações divulgadas pela imprensa, a assessoria de Kevin Marques afirmou que ele não prestou serviços ao Banco Master nem recebeu dinheiro de Vorcaro. A defesa informou que Kevin recebeu R$ 281,6 mil da Consult por serviços jurídicos especializados na área tributária. O gabinete de Nunes Marques também negou que o filho tenha recebido dinheiro de Vorcaro e afirmou que o ministro nunca manteve comunicação com o empresário.

As mensagens também foram relacionadas a um julgamento no STF envolvendo a destilaria Alcídia, empresa com créditos judiciais de grande valor. Nunes Marques havia declarado impedimento no caso, mas posteriormente mudou de posição e participou da análise, sustentando que a controvérsia envolvia uma questão jurídica mais ampla. A existência de registros sobre o julgamento e sobre contatos entre pessoas ligadas ao caso motivou questionamentos, mas não comprova, por si só, que a atuação do ministro tenha sido comprada ou influenciada por Vorcaro.

Outro conjunto de mensagens trata de uma possível reserva de uma mansão no Joá, no Rio de Janeiro, durante o Carnaval de 2025. O imóvel teria custo semanal estimado em R$ 1,45 milhão, e as conversas mencionam as iniciais “KN”, interpretadas por investigadores como uma possível referência a Kassio Nunes Marques. A identificação, no entanto, não é conclusiva. A advogada Camila Ramos, mulher do juiz Newton Ramos, confirmou que se hospedou no imóvel com o marido e os filhos, mas afirmou que a estadia não envolveu contrapartida, vínculo comercial ou interesse profissional. Nunes Marques negou ter solicitado qualquer benefício a Vorcaro.

O nome de Vorcaro também apareceu em reportagens sobre a relação do empresário com Flávio Bolsonaro. Segundo informações publicadas pela imprensa, o senador pediu recursos para financiar o filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro. O valor de R$ 61 milhões foi apontado em reportagens como um repasse atribuído a Vorcaro, e Flávio teria solicitado mais recursos. O senador confirmou ter pedido patrocínio, mas negou ter recebido ou oferecido vantagens em troca. A produtora do filme, por sua vez, negou ter recebido recursos de Vorcaro e afirmou que o financiamento veio do exterior.

Esses episódios envolvem relações distintas e não demonstram, até o momento, a existência de um acordo entre Vorcaro, Flávio Bolsonaro e Nunes Marques para influenciar decisões judiciais ou eleitorais. As negativas apresentadas pelos envolvidos também precisam ser consideradas. As suspeitas e os pedidos de apuração divulgados pela imprensa não equivalem a uma conclusão judicial sobre a ocorrência de irregularidades.

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