Espetáculo de Marcos Ferreira e Ruan Wills investiga raiva, ancestralidade e masculinidades a partir das experiências de homens negros, gays, candomblecistas e periféricos

O que fazer com uma cabeça que tem todos os motivos para estar quente? É a partir dessa pergunta que os artistas Marcos Ferreira e Ruan Wills constroem “Cabeça Quente”, espetáculo de dança que estreia em Salvador no dia 1º de outubro. A montagem parte da força de Oyá para investigar a raiva, a ancestralidade e as masculinidades, tendo como referência as experiências dos próprios artistas.
A temporada de estreia acontece no Espaço Xisto Bahia, nos dias 1º, 2 e 3 de outubro, sempre às 20h. Após a apresentação do dia 3, haverá um bate-papo com o público. Em seguida, a montagem será apresentada no Cine Lauro de Freitas, no dia 16 de outubro, às 19h, e no Espaço Cultural Alagados, em Salvador, no dia 22, às 17h. As duas últimas sessões também terão bate-papo.
Todas as apresentações são gratuitas, com ingressos disponíveis pelo Sympla.
Em “Cabeça Quente”, a raiva é entendida pelos artistas como uma força que pode produzir movimento e transformação. A proposta é deslocar a ideia de raiva como sinônimo de ódio ou descontrole e investigá-la a partir da consciência diante das violências que atravessam corpos negros, gays e periféricos.
“A raiva aparece como energia condutora da criação. Uma raiva que não nasce simplesmente do ódio, mas da consciência que surge quando a violência deixa de ser aceita como destino. Buscamos escutar essa força, perceber o que ela movimenta e no que pode se transformar quando encontra o corpo, a ancestralidade e o desejo de continuar”, afirmam Marcos e Ruan.
A montagem dá continuidade à pesquisa iniciada pelos artistas em “Dembwa”, espetáculo em que investigavam a ancestralidade a partir da pergunta sobre a pessoa mais antiga da família que cada um conhecia. Agora, a pesquisa se volta para as referências que formaram os próprios artistas e para aquilo que pode ser transformado como forma de continuar existindo com dignidade.
Oyá e o movimento
A pesquisa coreográfica tem como um dos fundamentos o Daró de Oyá, ritmo tocado para a yabá. A partir dos movimentos ternários, a dança estabelece diálogos com funk, frevo, maracatu, samba, arrocha, pagodão baiano, capoeira e os movimentos presentes nas festas populares e no Carnaval.
A montagem trabalha com a circularidade e a sinuosidade, colocando os corpos em situações de encontro e confronto. Em determinados momentos, os intérpretes incorporam a força da búfala, com movimentos que exploram chifres, braços e musculatura. A imagem também se relaciona com as brincadeiras de infância e, ao longo da cena, transforma-se em vento.
O percurso passa ainda pela ginga da capoeira e pelo eruexim, ferramenta associada a Oyá, que também ganha novas formas na coreografia, tornando-se gesto, força e punho cerrado.
A presença de Oyá também conduz a uma reflexão sobre as masculinidades. A partir de um trecho de “O Sagrado Masculino”, de Mateus Aleluia, o espetáculo recupera a ideia de que “o sagrado masculino é gestado e parido pelo sagrado feminino”. A partir disso, os artistas questionam as referências de masculinidade que receberam e reconhecem o papel de mulheres, como mães, avós, tias e irmãs, em suas formações.
“Nossa experiência enquanto homens negros, gays, candomblecistas e periféricos nos coloca diante da necessidade de questionar essas aprendizagens e imaginar outras formas de existência. Estamos aprendendo com Oyá a força de uma cabeça quente: de passear pelos planos, fluir na chama e saber medir os graus a menos ou a mais, conforme nossas necessidades”, afirmam.
Para os artistas, levar para a cena ritmos e movimentos presentes no cotidiano também é uma maneira de manter a ancestralidade em movimento. A ideia não é abandonar as referências herdadas, mas transformá-las a partir das experiências do presente.
No espetáculo, o próprio Ori, a cabeça, torna-se território de investigação. É a cabeça que ferve, pensa, aprende e muda de temperatura. A imagem se relaciona à proposta central da montagem: reconhecer a raiva, escutá-la e compreender para onde ela pode conduzir.
“Cabeça Quente” foi contemplado pelos Editais da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura na Bahia, realizados com recursos do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura, e executados pelo Governo do Estado da Bahia, através da Secretaria de Cultura do Estado.
Serviço
“Cabeça Quente”
Artistas: Marcos Ferreira e Ruan Wills
Espaço Xisto Bahia, Salvador
1º, 2 e 3 de outubro, às 20h
Bate-papo: 3 de outubro
Cine Lauro de Freitas
16 de outubro, às 19h
Espetáculo + bate-papo
Espaço Cultural Alagados
22 de outubro, às 17h
Espetáculo + bate-papo
Entrada: gratuita
Ingressos: disponíveis pelo Sympla ou pelo perfil @dembwa_.


