Após uma semana de atividades culturais, formativas e de cuidado, programação será encerrada neste sábado (1º), em São João do Cabrito e Nova Brasília

O Circuito Mulheres Negras em Movimento 2026 chega ao último fim de semana de programação com novas ações gratuitas de cidadania, cuidado, identidade, memória e fortalecimento comunitário. Neste sábado (1º), as atividades serão realizadas em São João do Cabrito e Nova Brasília, ampliando a presença da iniciativa nos territórios de Salvador.
Das 8h às 13h, São João do Cabrito receberá uma edição especial do Viver Salvador nos Bairros. A ação reunirá atendimentos gratuitos nas áreas de saúde e assistência social, emissão de documentos, orientações, atividades culturais, lazer e promoção da cidadania, aproximando os serviços municipais da população.
À tarde, a partir das 13h, a Associação Mulheres Notáveis, localizada na Avenida Aliomar Baleeiro, em Nova Brasília, sediará o projeto “Raízes que Empoderam”. A programação contará com a roda de conversa “Quem Sou Eu na Minha História?”, a dinâmica “Minha Beleza Tem História”, oficina de tranças e autocuidado, momento cultural e atividade de confraternização.
Promovido pela Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult), no âmbito do programa Salvador Capital Afro, o Circuito Mulheres Negras em Movimento encerra sua segunda edição após uma semana marcada por ações de formação, empreendedorismo, esporte, literatura, audiovisual, música, ancestralidade e cuidado. Com o conceito “Do Corre à Plenitude”, a iniciativa reafirma o direito das mulheres negras ao descanso, ao lazer, à prosperidade, ao autocuidado e à realização pessoal.
Ao longo dos últimos dias, equipamentos culturais, espaços públicos e organizações comunitárias receberam atividades orientadas pelos eixos Prosperidade, Cuidado, Proteção e Celebração. A programação passou pelo Comércio, Cajazeiras, Barroquinha e outros territórios da capital, reunindo mulheres negras, empreendedoras, artistas, intelectuais, estudantes, agentes culturais e comunidades.
Dia da Mulher Negra reúne formação, cinema e empreendedorismo
No último sábado (25), data em que se celebra o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela, a Casa das Histórias de Salvador, o Arquivo Público Municipal e a Praça da Cruz Caída receberam uma programação especial. Formação, empreendedorismo, cinema, culinária e valorização dos saberes tradicionais estiveram entre as ações realizadas no bairro do Comércio.
Mulheres negras na construção da história do Brasil
Com o tema “O Brasil é uma Mulher Negra”, o Auditório Makota Valdina, na Casa das Histórias, recebeu uma formação conduzida pela historiadora Mel Nascimento, mestra e doutoranda em História pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). A atividade promoveu reflexões sobre a história do Brasil a partir das contribuições teóricas, literárias, políticas e sociais de mulheres negras como Beatriz Nascimento, Conceição Evaristo, Lélia Gonzalez, Marielle Franco e Mãe Stella de Oxóssi.
Dedicada à pesquisa sobre a intelectualidade de mulheres negras, especialmente entre as décadas de 1970 e 2000, Mel Nascimento abordou a necessidade de observar a historiografia brasileira a partir da perspectiva daquelas que tiveram participação central na construção social, política e cultural do país.
Para a psicóloga Clara Magalhães Chamusca, a gratuidade das atividades contribui para democratizar o acesso à cultura e consolidar a atenção as mulheres negras no calendário da cidade. “Eu acho muito importante quando pensamos a cultura e o acesso à cultura de maneira gratuita. O Julho é um momento fundamental para deixar essa pauta marcada na agenda anual de Salvador. Sempre que posso, participo das atividades culturais da cidade, porque eventos gratuitos agregam valor de muitas maneiras”, afirmou.
Empreendedorismo, prosperidade e transformação dos territórios
Simultaneamente, o Mirante do Arquivo Público recebeu a roda de conversa “Q Pretas – Diálogos Mulheres Negras em Movimento”, com Juliana de Jesus, Marta Carvalho e Loo Nascimento. O encontro abordou empreendedorismo, prosperidade, identidade, comunicação e transformação dos territórios.
“Provamos a relevância de Salvador ser a cidade mais negra do Brasil e de termos tantas mulheres empreendedoras, criativas e revolucionárias. Nada mais justo do que homenagear essas mulheres e fortalecer a presença delas”, declarou Loo Nascimento, influenciadora de estilo e comportamento.
Para a publicitária e empreendedora Marta Carvalho, ampliar conexões e comunicar os avanços construídos pelas mulheres negras também é parte do processo de desenvolvimento dos negócios. Expandir territórios, criar relações com comunidades diversas e comunicar os avanços que temos construído em projetos na Bahia é de extrema relevância. É também uma forma de celebrar a existência de mulheres negras que, ao longo do tempo, vêm criando e instituindo novos modelos de negócio”, destacou.
Cinema e representatividade
Na Casa das Histórias, o cineclube reuniu produções audiovisuais baianas e promoveu um diálogo sobre a presença das mulheres negras na cadeia criativa e produtiva do cinema.
O cineasta, escritor, ator e dramaturgo Daniel Arcades destacou que a data também representa um momento de afirmação da presença das mulheres negras em diferentes campos da produção cultural. “Pensar a linguagem a partir dos diversos espaços que as mulheres negras ocupam dentro da cadeia produtiva do cinema é compreender como esse processo de criação impacta todas as outras etapas. O 25 de julho também representa a demarcação dessa presença nos espaços artísticos e industriais do audiovisual brasileiro”, afirmou.
A produtora audiovisual e roteirista Ili Cavalcante Lima Santos ressaltou a importância de exibir filmes protagonizados por mulheres em equipamentos culturais como a Casa das Histórias. “O público se sente representado e pode conhecer diferentes versões e histórias por meio de mulheres completamente diferentes, mas que compartilham um mesmo espaço: a cidade. Isso está presente em ‘Soteropolitanas’, um dos curtas-metragens exibidos”, explicou.
Festival do Acarajé celebra tradição e empreendedorismo
Na Praça Maria Felipa, baianos e turistas acompanharam o VIII Festival do Acarajé, realizado pela Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivos e Similares da Bahia (ABAM). A programação contou com oficinas de Flores de Dendê e Sabão de Dendê, rodas de conversa e distribuição gratuita de 10 mil acarajés em quatro tabuleiros. As atividades tiveram apoio da Secretaria Municipal de Sustentabilidade, Resiliência, Bem-Estar e Proteção Animal (Secis).
“Estamos apoiando esse evento por compreender a importância do fomento à cultura e da representatividade que essas mulheres carregam em suas tradições e em suas histórias empreendedoras em Salvador”, afirmou Vanessa Luz, gerente de programas e projetos da Diretoria de Cidadania Cultural da Secult.
Corrida, samba e conexões entre África e Bahia
No domingo (26), a programação continuou no Comércio com a segunda edição da Corrida Viva o Samba, promovida pelo Bloco Pagode Total. A atividade reuniu esporte, bem-estar, convivência e samba, reafirmando o direito das mulheres negras ao cuidado com a saúde física e emocional.
“Este ano, estamos evidenciando que as mulheres não precisam valorizar apenas ‘o corre’ e o trabalho. Elas também precisam cuidar da saúde e do bem-estar. Nossas ações são focadas no cuidado, na atenção, nas atividades culturais e no incentivo à corrida ao ar livre, por ser uma prática de baixo custo e acessível”, ressaltou Isaura Genoveva, secretária municipal da Reparação.
A empreendedora Amanda, de 29 anos, proprietária da Amanda Fit Store e primeira colocada na corrida, compartilhou sua experiência com a prática esportiva. “A corrida me salvou do sedentarismo, da ansiedade e do álcool. É um exercício que representa superação, independentemente do pódio. Mulheres, não desistam. Caminhando, andando ou correndo, de qualquer forma, superem-se”, declarou.
A programação também promoveu conexões entre África e Bahia por meio da participação da Associação AFRIBA, do Grupo Tukina – Danças e Ritmos de Angola e dos grupos Maku ma Kixikano e Ngoma Móvel. Ritmos como Rebita, Kizomba e Semba ocuparam o Mirante do Arquivo Público e a Praça Maria Felipa.
Audiovisual, literatura e ancestralidade
Na terça-feira (28), o Espaço Boca de Brasa Cajazeiras recebeu uma sessão gratuita do Cine Tem Dendê. A atividade reuniu a diretora Vânia Lima, a poeta portuguesa Raquel Lima e estudantes da Educação de Jovens e Adultos do Colégio Estadual Nelson Barros para a exibição do documentário.
A produção aborda oralidade, memória, poesia e as experiências de mulheres negras de Angola, Brasil e Portugal. “Estou muito feliz por nosso documentário alcançar outros públicos e por conseguirmos conversar com este público em específico. Que a arte possa coabitar lugares diversos. É muito importante que o direito à cultura esteja permanentemente em debate”, afirmou Vânia Lima.
Na quinta-feira (30), a escritora, pesquisadora, professora e yalorixá Lívia Natália conduziu, na Casa das Histórias, a aula aberta “Bença, Mãe? – Reescrevendo a história das mães negras na literatura”. A atividade discutiu as representações da maternidade negra nas obras literárias brasileiras. “A literatura branca e canônica não nos representa, principalmente no que diz respeito à mãe negra e à maternidade negra. Não somos representadas de maneira digna e respeitosa. Muitas vezes, somos apresentadas de forma vulgarizada e minorada”, refletiu Lívia Natália.
No Espaço Boca de Brasa, na Barroquinha, o Aulão IFÁ reuniu canto, dança e percussão em uma vivência orientada pela ancestralidade e pela filosofia iorubá. “Canto, dança e percussão estão sendo disponibilizados de forma democrática e gratuita para todas as mulheres que buscam a arte como forma de expressão”, destacou Gisele Soares, professora do Projeto Mulheres Negras Periféricas, dançarina e Deusa do Ébano do Ilê Aiyê.


