Atividades realizadas na Casa das Histórias e no Espaço Boca de Brasa reuniram formação, reflexão, dança, canto e percussão

A escritora, pesquisadora e yalorixá Lívia Natália e integrantes do projeto IFÁ participaram, na tarde desta quinta-feira (30), de duas atividades gratuitas do Circuito Mulheres Negras em Movimento, em Salvador. A programação promoveu reflexões sobre a representação das mães negras na literatura e experiências artísticas ligadas à ancestralidade e à filosofia iorubá.
Na Casa das Histórias de Salvador, no bairro do Comércio, Lívia Natália conduziu a aula aberta “Bença, Mãe? – Reescrevendo a história das mães negras na literatura”. Poeta e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), ela abordou a forma como as mulheres negras, especialmente as mães, foram historicamente representadas nas obras literárias brasileiras.
“A literatura branca e canônica não nos representa, principalmente no que diz respeito à mãe negra e à maternidade negra. Não somos representadas de uma maneira digna e respeitosa. Sempre somos apresentadas de forma vulgarizada e minorada”, refletiu Lívia Natália.

A atividade discutiu a construção das personagens negras na literatura e apontou caminhos para a elaboração de narrativas comprometidas com as experiências, memórias e subjetividades das mulheres negras. Ancestralidade, maternidade e negritude estiveram entre os temas abordados durante o encontro.
Para a assistente social Georgia Jesus de Carvalho, moradora do bairro de Areia Branca, a gratuidade e a representatividade da programação contribuíram para ampliar o acesso das mulheres a espaços de formação.
“Mais do que importante, é necessário promover um debate como esse. Por conta das nossas dificuldades diárias, muitas de nós não conseguimos acessar gratuitamente eventos com essa representatividade e com o conhecimento tão vasto que a escritora Lívia Natália nos oferece”, afirmou.
Realizada no terceiro andar da Casa das Histórias, a aula aberta integrou as ações promovidas pela Organização de Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), parceira institucional e executora de atividades do Circuito Mulheres Negras em Movimento 2026. A atuação da organização tem como base a cooperação entre os países ibero-americanos nos campos da educação, da ciência e da cultura.
Nell Araújo destacou a relação entre a proposta da atividade e o trabalho educativo desenvolvido no equipamento cultural.
“Estar aqui, em uma atividade do Mulheres Negras em Movimento, recebendo Lívia Natália, representa a consagração da proposta defendida pelo Programa Educativo da Casa das Histórias. Homenagear mulheres notáveis que contribuem para o desenvolvimento da nossa cultura, por meio da literatura, não poderia acontecer de outra forma: com uma aula aberta conduzida por uma mulher que reúne em si muitas mulheres — docente, poeta, escritora e yalorixá”, disse.
Música, corpo e ancestralidade
A programação da tarde também contou com o Aulão IFÁ, realizado no Espaço Boca de Brasa, na Ladeira da Barroquinha. A atividade reuniu mulheres em uma vivência gratuita de multilinguagens, articulando canto, dança e percussão a partir de referências da ancestralidade e da filosofia iorubá.
“É uma alegria ministrar este curso de multilinguagens durante o Circuito Mulheres Negras em Movimento, em um equipamento cultural construído também a partir da atuação de mulheres negras das artes. Canto, dança e percussão estão sendo disponibilizados de forma democrática e gratuita para todas as mulheres que buscam a arte como forma de expressão”, afirmou Gisele Soares, professora do Projeto Mulheres Negras Periféricas, dançarina e Deusa do Ébano do Ilê Aiyê.

Criado em 1986, o Boca de Brasa tem como objetivo descentralizar os processos de criação, difusão, fomento e qualificação das atividades artístico-culturais de Salvador. O programa é desenvolvido pela Fundação Gregório de Mattos (FGM), vinculada à Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult).
Entre as participantes estava a terapeuta e podóloga Roma Loiola, de 56 anos, moradora do bairro de Pituaçu. Ela contou que, durante muito tempo, acreditou que não poderia construir uma trajetória diferente daquela determinada pelo ex-marido. Na arte, encontrou um caminho de retomada da própria identidade.
“Eu me reencontrei tocando instrumentos de percussão, dançando e cantando dentro desse projeto lindo chamado IFÁ”, relatou.
Em sua segunda edição, o Circuito Mulheres Negras em Movimento adota o conceito “Do Corre à Plenitude” e propõe uma reflexão sobre o direito das mulheres negras ao descanso, ao lazer, ao autocuidado, à prosperidade e à realização pessoal.
Realizado pela primeira vez em 2025, o circuito impactou cerca de 18 mil pessoas, alcançou 20 bairros, ocupou mais de 25 espaços da capital baiana e reuniu aproximadamente 250 afroempreendedores. Em 2026, a programação busca ampliar esse alcance e consolidar a iniciativa como uma política pública de valorização, cuidado e fortalecimento das mulheres negras em Salvador.


