Episódio se soma a uma série de remoções arbitrárias que atingem jornalistas e veículos independentes, especialmente no Norte e Nordeste, e acirra o debate sobre o poder das big techs na distribuição da informação às vésperas das eleições

A decisão da Meta de desativar, sem justificativa detalhada, o perfil da Rede Cajueira no Instagram ganhou repercussão pública poucos dias após a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) divulgar uma nota de repúdio sobre casos de remoção de conteúdos e perfis de jornalistas nas plataformas digitais. Tornado público pela Cajueira em 22 de junho, o episódio reacendeu o debate sobre o poder das big techs na distribuição da informação e os impactos dessas decisões para iniciativas independentes.
Criada em 2020 pelas jornalistas nordestinas Mariama Correia, Mariana Ceci, Nayara Felizardo e Joana Suarez para fortalecer o jornalismo produzido na região, a Rede Cajueira afirma que perdeu um de seus principais canais de comunicação com o público. A conta foi retirada do ar no fim de 2025 e, desde então, a organização não conseguiu obter esclarecimentos sobre os motivos.
“Aconteceu no final do ano passado, sem explicações. Tentamos recorrer por várias vias, inclusive pela plataforma, mas nunca nos informaram os motivos que levaram à exclusão da conta. O Instagram informou que violamos as diretrizes de uso da rede, mas sem dizer como. Não publicamos conteúdo sensível. Nossos posts são 100% dedicados ao jornalismo no Nordeste e à valorização dos territórios nordestinos”, afirma Mariama Correia, cofundadora da iniciativa e repórter da Agência Pública.
A Cajueira surgiu como uma newsletter quinzenal e gratuita de curadoria dos nove estados nordestinos e, ao longo de cinco anos, expandiu sua atuação com o Cajuzap, uma mini curadoria em áudio distribuída pelo WhatsApp, um podcast, um site e o primeiro banco de fontes nordestinas do Brasil. Atualmente, o projeto conta com quase 8 mil assinantes.
Para Mariama, a retirada da conta representa muito mais do que a perda de um perfil em uma rede social. “Quando você silencia uma iniciativa independente nordestina, você está silenciando também vozes que defendem a diversidade regional, a luta contra preconceitos em relação à nossa região e nossas populações. E isso às vésperas de uma eleição tem efeitos ainda maiores. Para nós, é uma forma de censurar vozes que lutam pelo jornalismo nordestino”.
Na avaliação da jornalista, o episódio evidencia a assimetria profunda entre iniciativas independentes e as grandes empresas de tecnologia que concentram a distribuição de conteúdo jornalístico na internet. Além do Instagram, a Meta é proprietária das redes sociais Facebook, Whatsapp e Threads.
“Infelizmente sabemos que nosso caso não é isolado. Acreditamos que isso revela uma relação desproporcional. De um lado você tem grandes empresas que controlam essas plataformas e que não são transparentes quanto a seus critérios, ao funcionamento dos seus algoritmos. As iniciativas jornalísticas se tornaram dependentes dessas plataformas. Então, estamos navegando de olhos vendados, tentando sobreviver nessa tempestade”, diz ela.
A ausência de estrutura jurídica, financeira e institucional que caracteriza boa parte dos veículos independentes os coloca em posição ainda mais frágil diante de decisões unilaterais das plataformas. “Para nós, que somos uma iniciativa pequena, é uma luta de Davi contra Golias”, resume Mariama.
Casos semelhantes no Norte e Nordeste
O caso da Cajueira não é isolado. A FENAJ destacou as suspensões das contas do jornalista Adriano Wilkson, do portal Tapajós de Fato, em Santarém (PA), e da jornalista Mary Tupiassu, do projeto Amazônia no Ar, profissionais que afirmam terem sido punidos sem transparência e sem acesso efetivo a mecanismos de recurso. Em todos os casos, as plataformas da Meta são apontadas como operando sob uma lógica de punir antes de investigar. A entidade também denunciou a derrubada do site do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP), com quase 90 anos de história.
Em nota publicada em 22 de junho, a FENAJ classificou essas medidas como “censura privada das plataformas” e alertou que o fenômeno pode se intensificar com a proximidade do período eleitoral, uma vez que grupos organizados têm explorado fragilidades algorítmicas para derrubar perfis críticos por meio de campanhas massivas de denúncias falsas.
Dias antes, em carta aberta assinada por 31 sindicatos de jornalistas de todo o país, a federação já havia defendido a regulamentação das grandes plataformas digitais, que se apropriam do trabalho jornalístico sem remunerar seus produtores, e cobrado políticas públicas que valorizem o jornalismo sem comprometer sua independência.
Mariama defende que o episódio sirva para ampliar o debate sobre novas formas de distribuição de conteúdo e sobre a regulamentação das plataformas. “É preciso pensar em novos modelos de distribuição de conteúdos, porque essa dependência das plataformas deixa o jornalismo nas mãos das big techs. Paralelamente, precisamos continuar lutando pela regulamentação dessas plataformas, que utilizam nossos conteúdos sem remunerá-los”.




